A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

UM PAÍS MAIS PRUDENTE


Palácio de São Bento - "A Prudência". Lisboa, Portugal
ZERO HORA 04 de fevereiro de 2013

EDITORIAL


Cabe ao poder público fazer a sua parte. Mas fazer mesmo, sem escamoteações. Diminuiu muito a margem para os governantes lenientes e para os servidores relapsos.

Passada a primeira semana de comoção pelo dramático episódio de Santa Maria, o país precisa transformar a dor, a revolta e a indignação em ações pragmáticas destinadas a efetivamente assegurar um futuro melhor para seus jovens. Talvez precisemos de décadas ou mesmo de séculos para alcançarmos o estágio cultural de povos orientais que priorizam a educação, a ética e o cumprimento rigoroso das normas sociais, mas, enquanto isso não ocorre, podemos adotar medidas pontuais que assegurem avanços na segurança, na ordem pública e na preservação dos valores da vida _ independentemente da investigação policial em curso e das propostas de mudanças na legislação.

A questão mais premente no momento é a vistoria geral das casas noturnas e dos locais de grande afluência de público, para que não se repitam as condições de negligência que provocaram o desastre do dia 27 de janeiro. Entre as medidas esperadas e indispensáveis, está o cumprimento pelos empresários de todas as exigências da legislação e dos órgãos públicos responsáveis pela autorização de funcionamento de tais casas. Como diz o antigo ditado, quem não tem competência que não se estabeleça. Chega de tapeação, de puxadinhos, de transformar locais de diversão em armadilhas. Tais atitudes, invariavelmente motivadas pela ganância, tornaram-se ainda mais intoleráveis depois dos traumáticos acontecimentos de Santa Maria. E são criminosas _ não há mais como relevar isso.

Cabe ao poder público fazer a sua parte. Mas fazer mesmo, sem escamoteações. Diminuiu muito a margem para os governantes lenientes e para os servidores relapsos. Se quisermos realmente construir um país mais prudente em relação à segurança de seus cidadãos, temos que começar a levar a sério detalhes legais e técnicos que nem sempre são observados. E os órgãos fiscalizadores e autorizativos não devem ser apenas mais rigorosos. Precisam, também, ser mais ágeis, superar a burocracia sem desconsiderar as normas. É assim que funciona uma administração pública eficaz.

O comportamento dos cidadãos também precisa ser revisado. Não que ele deva se sentir culpado ou responsável por estar no momento errado na hora errada, como costumam alegar agentes públicos quando ocorre alguma desgraça, normalmente com o propósito de desviar o foco de suas próprias falhas. O cidadão tem o direito de se divertir, tem o direito de andar na rua com segurança, tem o direito de viver sem ser constantemente ameaçado pela violência dos delinquentes ou pela incúria de seus representantes. Mas tem também o direito _ e o dever _ de fiscalizar o Estado, de exigir qualidade nos produtos e serviços que recebe, de denunciar o que está errado e de ser atendido nas suas demandas.

O caminho da prudência passa pelo exercício pleno da cidadania.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Não concordo que "o caminho da prudência passa só pelo exercício pleno da cidadania", já que cidadania é basicamente é um conjunto de direitos ao qual um indivíduo está sujeito em relação à sociedade em que vive, muito ligado a direitos políticos. Os defensores da "cidadania" no Brasil conseguiram exilar o "civismo", somando direitos e deveres como questão de cidadania e desprezando a importância do "espírito cívico" que enaltece os deveres e fomenta a defesa do interesse público, o respeito às leis e às autoridades constituídas e os sentimentos de solidariedade, de ética e de moral, tudo o que falta no Brasil de hoje e que poderia mobilizar a nação contra os saques ao erário, contra impostos abusivos e contra o descaso  na saúde, na educação e na segurança. A prudência ensina dominar vários pontos de vista, especialmente aqueles que estão longe da nossa perspectiva e dos quais dependemos para conviver em sociedade.


NOTA: Prudência em São Bento, Atenta, a Prudência toma consciência do espaço à sua volta. Observando à sua frente e nas suas costas, domina os vários pontos de vista para conhecer o que se passa — ou passou — prevenindo a surpresa ou a traição. Depois julga as ações, fazendo a distinção entre atos de coragem ou de covardia. A Prudência não executa ações. Associada à razão, ao conhecimento, à introspecção e à sabedoria, regula as restantes Virtudes (Temperança, Justiça e Força). http://1825.in/Prudencia-em-Sao-Bento

domingo, 3 de fevereiro de 2013

POUCO SE PENSA NO COLETIVO


ZERO HORA 03 de fevereiro de 2013 | N° 17332


SANTA MARIA, 27/01/2013


NILSON MARIANO 

Além da omissão do cidadão e da incapacidade permissiva do Estado, há outro ingrediente preocupante: não se assume as próprias responsabilidades. Segundo o cientista político e sociólogo Emil Sobottka, para o brasileiro, o diabo é sempre o próximo: atribui aos outros posturas negativas que tem, mas jamais admite.

– Experimente chamar a atenção de um motorista que está falando no celular. Ele certamente vai lhe destratar – previne o cientista político.

Professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Sobottka pesquisa as sociedades da Alemanha, Holanda e Suécia. Entende que o brasileiro não deve chegar ao extremo dos prussianos, que colocam o dever acima de tudo. Nem exagerar como certos norte-americanos, que adoram dedurar os vizinhos à polícia em vez de conversar antes. Sobottka prega o equilíbrio, mas, sobretudo, cobra mais iniciativa.

– As pessoas em geral precisam assumir as suas responsabilidades. Andar dentro das regras – afirma.

Sobottka percebe que interesses privados são “fortemente representados” no Brasil. Há bolsões que defendem suas causas – e seus lucros – inclusive pisoteando no bem comum. Porém, nota que os interesses públicos, como a segurança, a educação e o trânsito, são relegados.

– A sociedade civil organizada é muito fraca, frágil, quando o assunto é o interesse público – observa.

O que mais apavora o secretário-executivo da organização Contas Abertas, Gil Castello Branco, é a irresponsabilidade compartilhada entre os setores público e privado. Especializado em fiscalizar governos, cita a parcela de empresários que opta por soluções “fáceis e baratas”, almejando somente o lucro e expondo vidas a perigo. Critica governos ineptos, tolerantes com erros e que não fiscalizam fraudes nem impedem a rotina de logros contra a população.

– Há, no Brasil, uma relação promíscua entre a iniciativa privada e o governo – acusa Castello Branco.

O dirigente da Contas Abertas também se insurge contra a lassidão de não se aprender com as lições que vêm de fora. Recorda que o fogo na República Cromañón, em Buenos Aires, não serviu de alerta para uma realidade preponderante no Brasil: boates em formato de arapuca, sem prevenção contra sinistros, que podem se transformar em câmaras de extermínio.

Castello Branco teme que o ciclo de irresponsabilidades não será interrompido com o episódio de Santa Maria. Gostaria de estar equivocado, mas acredita que as autoridades vão prometer recursos e mais rigor nas leis, como sempre fazem. E que tudo voltará a ser como antes quando passar a comoção.

– Prevalecem a incompetência e a irresponsabilidade – enfatiza.

UMA SOCIEDADE QUE SÓ REAGE


ZERO HORA 03 de fevereiro de 2013 | N° 17332

SANTA MARIA, 27/01/2013

NILSON MARIANO

Quantas vezes já se viu algum motorista falando ao celular enquanto dobrava a esquina, apenas uma das mãos ao volante, e nada se fez? Em quantas oportunidades se encontrou um tablete de margarina com o prazo de validade vencido, exposto no mercado, mas não se chamou o gerente para recolher o alimento?

Quantas vezes já se atravessou uma avenida fora da faixa de segurança?

Ainda sob o impacto da tragédia que matou pelo menos 236 jovens em Santa Maria, especialistas consultados por ZH apontam que falta atitude ao brasileiro. Não sugerem, é óbvio, que cada pessoa se invista em fiscal do vizinho. Mas a passividade pode ser fatal. Abdicar do exercício da cidadania é compactuar com a negligência, o desapego à lei, a corrupção. É estimular a burla dos gananciosos que descumprem normas na busca do lucro fácil, como forrar a boate com uma espuma barata e de baixa qualidade, que expele fumaça venenosa se pegar fogo.

Um dos mais destacados antropólogos, Roberto DaMatta alerta que a sociedade brasileira não é proativa – no sentido de exigir seus direitos e defender as causas públicas. Define-a como “reativa”, age de forma solidária e emocionada quando sobrevém a destruição e o luto.

– Deixa que chegue ao pior para tomar uma medida, as quais são sempre insatisfatórias – lamenta.

DaMatta diz que o Brasil contraiu um pacto com o ente apelidado de Sobrenatural de Almeida, segundo o qual “não vai dar nada”, “nada acontecerá de ruim” e pequenas transgressões serão perdoadas. É por isso que se dirige acima do limite de velocidade, não se é cordial nas filas, solta-se sputniks em uma boate superlotada com arquitetura de gaiola.

– Eu, que já estou no terceiro tempo da vida (76 anos), fico abismado com a atração dos jovens pelo perigo – comenta.

Estado recebe toda a responsabilidade

Autor de livros como Carnavais, malandros e heróis, DaMatta indaga: o que aconteceria, diante do conjunto de irresponsabilidades que precedeu o incêndio em Santa Maria, se a boate Kiss estivesse num país como o Japão? Aposta que haveria suicídios, conforme o código de honra dos samurais. Na Argentina, após o fogo que matou 194 jovens na República Cromañón em 2004, funcionários e fiscais públicos foram condenados à prisão. Para o antropólogo, os desdobramentos aqui são imprevisíveis: a impunidade é outro mal brasileiro.

– Como pode ter um megaevento desses, com banda num espaço fechado, e com pirotecnia? – questiona.

À indulgência do brasileiro, o sociólogo Francisco de Oliveira agrega outro componente de risco. É a mania de se esperar que governos resolvam tudo. Professor emérito da Universidade de São Paulo, adverte que o Estado “está despreparado”, não se renovou para atender a uma sociedade que evoluiu de rural para urbana e industrial.

– O Estado está desaparelhado, o único que faz é correr atrás do prejuízo – ressalta.

Um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Chico Oliveira, como é chamado entre os seus pares, desanima-se com as perspectivas. Não vislumbra o que denomina de “remédio” a curto prazo. A inércia do cidadão e a inépcia das autoridades cimentaram uma montanha pesada demais para ser removida.

– Infelizmente, a passividade é uma característica da sociedade, enquanto as instituições estão superadas. Temos um governo que não atua, não tem caráter preventivo, e isso vai continuar assim – diz Oliveira.



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - O pior é que a sociedade brasileira NÃO reage. É questão de tempo e tudo é esquecido. A história mostra que o brasileiro nunca foi um povo passivo, mas se transformou em passivo diante de uma legislação arcaica e benevolente, de cobrança de impostos abusivos, de maus exemplos de autoridades públicas, da  impotência diante de poderes omissos e de medidas absolutistas que calam a voz dos "atrevidos" com indenizações absurdas.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

MORADORES DE SANTA MARIA COBRAM RIGOR DAS AUTORIDADES

O ESTADO DE SÃO PAULO, 31 de janeiro de 2013 | 11h 51

Em abaixo-assinado, moradores de Santa Maria cobram rigor das autoridades. Grupo pedirá a órgãos públicos cumprimento das leis de segurança em locais públicos para evitar tragédias como a ocorrida na boate Kiss

Elder Ogliari



Santa Maria - Um grupo de moradores de Santa Maria começou a coletar, na manhã desta quinta-feira, 31, adesões a um abaixo-assinado pedindo às autoridades o cumprimento das leis de segurança em locais públicos. A boate Kiss, onde 235 pessoas morreram vítimas de um incêndio, estaria com o alvará vencido. No texto, os moradores exigem a tomada de medidas "imediatas, firmes e eficazes no sentido de implementar procedimento de fiscalização no cumprimento das normas técnicas e exigências legais e existentes para o funcionamento de estabelecimentos como casas noturnas".

O grupo também pede que a renovação de alvarás e licenças seja feita antes do vencimento do documento e que os estabelecimentos sejam interditados, caso a renovação não seja concluída até o prazo. "Quando o Estado, por meio de seus servidores, não cumprir com suas obrigações legais, que sejam tomadas medidas de caráter administrativo, penal e civil, contra servidores, inclusive com demissões justificadas, processos judiciais por crime de abuso de autoridade, por omissão e processos civis por improbidade administrativa devidamente acompanhados das sanções legais, previstas em lei", diz um trecho do abaixo-assinado.

Os moradores pedem que todas as leis em vigor sejam severamente seguidas e aplicadas aos responsáveis pela tragédia ocorrida na boate Kiss, na madrugada de domingo. "Não aceitamos que omissões criminosas do poder público e/ou os empresários de diversões públicas coloquem em risco a vida e a integridade física de pessoas", diz o texto.

"Queremos coletar 30 mil assinaturas até quarta-feira da semana que vem", diz a professora Lúcia Madruga, uma das dez pessoas responsáveis por coletar assinaturas no Largo da OAB, na região central da cidade. O documento será entregue a todos os órgãos públicos que têm algum tipo de responsabilidade com a questão da segurança. "A questão é propositiva, para o futuro, para que episódios iguais a esse não voltem a acontecer", explica Lúcia. Os organizadores, que se definem como um grupo de pessoas que se mobilizaram para chamar a atenção das autoridades, também vão colocar postos de coleta de assinatura em outros pontos da cidade, como o Hospital de Caridade e a Praça Saldanha Marinho.

 

OS VERDADEIROS FISCAIS DAS CASAS NOTURNAS

JORNAL DO COMÉRCIO 31/01/2013


Gisele Oliveira


Ao mesmo tempo em que nos distanciamos com a comoção da tragédia, é imprescindível que nos aproximemos da análise racional dos fatos que levaram à morte de tantos jovens. A sociedade clama por leis rigorosas. No caso de Santa Maria, as leis existiam. Os proprietários não cumpriram a lei. O Corpo de Bombeiros fez sua vistoria de acordo com as informações recebidas e emitiu um laudo. Os proprietários excederam a lotação. E tantos outros fatos que não deveriam ter acontecido aconteceram, e os jovens morreram.

A casa estava superlotada, mas não era novidade. Uma menina relatou que houve ocasiões em que era impossível as pessoas se mexerem. Por que nunca denunciaram? Não é incoerente esperar que o Poder Público fiscalize todos os estabelecimentos todos os dias? Quem são as únicas pessoas que podem fazer isso? Os jovens denunciam tantos fatos pelas redes sociais, por que não denunciam os estabelecimentos que colocam em perigo suas próprias vidas? Boicotem os ambientes inseguros e irresponsáveis.

A boate Kiss estava nas redes sociais com quase 12 mil “curtidores”. Nunca notaram que era inseguro? Que permitiam a entrada acima do limite? Que só existia uma porta? Que os banheiros não tinham janelas? No pânico não raciocinamos. Mas não vivemos sempre em pânico, e espera-se que jovens com mais de 18 anos possam raciocinar quando planejam ir a uma festa. Pessoas não andam de avião e barco por medo de acidentes. Mas parece que ninguém tem medo de acidentes em locais de festas.

Precisamos parar de repassar a nossa parte da culpa nas grandes tragédias. Hoje existe tecnologia nacional para, através de softwares, simular o tempo necessário para evacuação de um ambiente. Precisamos exigir que ambientes públicos coloquem em seus sites os materiais utilizados em revestimentos, normas de segurança e esquemas para saída em caso de acidentes. Mas de nada adiantará esse volume de informação se os maiores interessados, os jovens, não agirem como fiscais e defensores de suas próprias vidas.

Mãe

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Sim, Mãe. Precisamos ser também fiscais dos locais onde frequentamos, mas é também é importante que o Estado cumpra a sua parte já que cobra por isto em forma de impostos em tudo o que compramos e consumimos. Este é o momento oportuno de exigir justiça para este caso e mudanças nas leis, na justiça, nos setores de prevenção e fiscalização e no comportamento das pessoas.

sábado, 19 de janeiro de 2013

VIGILÂNCIA COMUNITÁRIA

G1 RJ 19/01/2013 07h00 - Atualizado em 19/01/2013 07h00

Cartazes espalhados pela Urca, na Zona Sul do Rio, provocam polêmica. Toda pessoa ou atividade suspeita deve ser denunciada', diz texto em placa. Para moradores, critério para avaliar suspeitos pode gerar preconceito.

Henrique Porto Do G1 RJ


Cartazes espalhados pelas ruas da Urca, há cerca de um mês, vêm provocando polêmica entre moradores do bairro localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro. Produzidas pela Associação dos Moradores da Urca (Amour), as placas trazem o desenho estilizado de um olho, números de telefone da Polícia Militar e do Disque-Denúncia e os dizeres: "Vizinhança vigilante. Toda pessoa ou atividade suspeita deve ser denunciada".

Cartaz afixado na portaria de um prédio na Rua Ramon Franco: segundo associação de moradores, objetivo é a prevenção de crimes (Foto: Henrique Porto/G1)

Residentes do bairro alegam que o termo "atividade suspeita" é impreciso e subjetivo, o que pode provocar equívocos na avaliação de um crime em curso e mal entendidos entre moradores e frequentadores do bairro. É o caso da publicitária Iris Freund, de 31 anos.

“O que define uma pessoa ou atividade suspeitas? Achei isso absolutamente aleatório e invasivo. Talvez a intenção tenha sido boa e eles (membros da associação) tenham se expressado mal, mas não acho que seja legítimo nem uma mostra de civilidade", argumenta a publicitária.

Iris, que vive no bairro desde 1990, também adverte: "A Urca é um lugar muito seguro e acredito que os moradores, assim como a associação, desejem mantê-lo dessa forma. Ao mesmo tempo, considero perigoso incentivá-los a fazerem denúncias. Não vejo isso de forma muito positiva, a menos que seja algo comprovado", afirmou a publicitária.

A socióloga Lilibeth Ferreira relembra a primeira vez em que se deparou com o cartaz. “Fiquei enlouquecida de raiva. Como posso dar o direito de alguém avaliar quem é suspeito na rua onde mora? É um critério absolutamente pessoal e subjetivo. Isso remonta movimentos denuncistas. Comunicação é uma coisa muito séria e traz consequências", disse.

As placas nas ruas Marechal Cantuária e Ramon Franco: cartazes foram motivados por pequenas ocorrências e sequestro-relâmpago no bairro (Foto: Henrique Porto/G1)

Lilibeth, que chegou a fazer parte da Amour, destaca que é contrária à placa, não à ideia de proteção. Para ela, o apoio e integração entre vizinhos é importante. "Isso ajuda na segurança. Minha questão é com os dizeres e a palavra 'suspeita', dos quais discordo inteiramente."

Segundo a associação de moradores, a iniciativa é inspirada em experiências realizadas por comunidades de países como a Inglaterra e surgiu após pequenos delitos e quatro sequestros-relâmpagos ocorridos no bairro, um deles em novembro do ano passado.

"Além da patrulha do estado, representada pela polícia, você também tem a vigilância da vizinhança. É algo preventivo. Tudo isso foi discutido várias vezes, em várias reuniões, e resolvido de maneira democrática. Inclusive, muitos dos moradores que hoje reclamam foram convidados para estes encontros, mas não compareceram", diz Celinéia Paradela Ferreira, vice-presidente da Amour.

'Nada absolutamente discriminatório'

Segundo Celinéia, as placas fazem parte de um plano de trabalho concebido por um grupo de moradores, que também prevê que casas e edifícios instalem câmeras de vigilância. "Vamos fazer uma campanha pela instalação desse tipo de equipamento, além de um pedido à polícia para monitorar eletronicamente a entrada e a saída do bairro."

Em relação à mensagem estampada nas placas, a associação discorda das críticas acerca do caráter preconceituoso do texto, como explica Ana Milhomens, presidente da entidade.

"Não há nada absolutamente discriminatório no cartaz. O texto foi criado sob a recomendação da própria polícia, que afirma que o cidadão jamais deve se expor. Você telefona e um representante treinado pelo estado, responsável pela segurança, faz a verificação. Pode não ser nada, como também pode ser", ressalta Ana, que não soube informar quantas placas foram produzidas.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Também não considero discriminatório este tipo de cartaz, mas um instrumento para criar uma cultura preventiva, de defesa, de vigilância, de solidariedade. No brasil, é comum a preocupação individualista, egoísta, voltada ao indivíduo e ao grupo familiar, sem qualquer atenção para as pessoas e famílias que fazem parte do convívio em sociedade. Este cartaz quer estimular o espírito de solidariedade e de responsabilidade de todos para com a segurança do vizinho e da comunidade, procedimento raro no Brasil. É o começo, e aprovo esta medida como parte das estratégias de policiamento comunitário que estimulam redes de vigilância nas comunidades.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

MUNICÍPIO DE BUTIÁ SE MOBILIZA POR SEGURANÇA


ZERO HORA 16 de janeiro de 2013 | N° 17314

ONDA DE VIOLÊNCIA

Butiá apela por mais segurança


Município da Região Carbonífera é alvo de série de ataques de assaltantes desde o final do ano, assustando a população

PEDRO MOREIRA, colaborou Carlos Wagner


O descontrole da violência tirou o sossego de uma pequena e histórica cidade da Região Carbonífera. Às margens da BR-290, Butiá se tornou alvo constante de assaltantes que estão agindo com violência desde o final do ano passado. Até mesmo sequestros relâmpagos já foram registrados no município de pouco mais de 20 mil habitantes, distante cerca de 80 quilômetros de Porto Alegre. Ontem, a população local protestou contra a insegurança.

Organizada por moradores e comerciantes locais – que fecharam a porta de seus estabelecimentos entre 14h e 16h30min –, a manifestação reuniu gente assustada com os crimes que vêm abalando a cidade. Um dos líderes do protesto, o dono de uma loja de eletrônicos e correspondente bancário e vereador Jefferson Vieira resume o sentimento dos butiaenses com a violência incomum:

– A situação está caótica. Comecei o movimento com os lojistas na segunda-feira passada (7 de janeiro) e na quinta-feira pela manhã entrei com um requerimento na Câmara para uma audiência pública. E daí, no final da tarde, fui assaltado à mão armada.

Há pouco mais de uma semana, o filho de um comerciante local foi vítima de sequestro relâmpago. Além de ter sido roubado pelos bandidos, o homem foi severamente agredido. No início da semana passada, assaltantes invadiram uma loja e renderam os funcionários. No interior do município, onde vivem pequenos agricultores, várias propriedades têm sido alvo de ladrões.

– O assalto ao correspondente bancário na quinta está esclarecido. Um homem foi preso em Guaíba ontem. É uma quadrilha de Guaíba com a participação de gente de Butiá – afirma o delegado Pedro Goldemir Urdangarin, da Delegacia da Polícia Civil de Arroio dos Ratos, que respondia até ontem pela DP de Butiá (a partir de hoje, a delegacia terá novo responsável).

De acordo com o delegado Carlos Miguel Amodeo, responsável pela Delegacia Regional, que responde por seis cidades da Região Carbonífera, as investigações apontam que a maior parte dos bandidos é de fora, alguns deles da Região Metropolitana. Em outros anos, nesta época, também houve aumento na criminalidade, recorda o delegado.

Comunidade reclama da falta de estrutura da polícia

Entre as principais reivindicações dos moradores de Butiá está a necessidade de reforço na estrutura das polícias Civil e Militar locais. No comando do 28º Batalhão de Polícia Militar (28º BPM), o major José Renato Romano dos Santos afirma que o policiamento ostensivo está reforçando os seus efetivos no município.

Segundo o major, o número de profissionais da área, que normalmente é de 20 policiais, foi acrescido de mais quatro homens. O pelotão local atualmente conta com duas viaturas.

– Não vamos medir esforços para que volte a tranquilidade a essa comunidade – afirmou o comandante.

Em reportagem publicada no último domingo, Zero Hora expôs o drama vivido por moradores de municípios da serra gaúcha, outra região do Estado que também tem sido alvo de um série de ataques criminosos.


Uma região esquecida

HUMBERTO TREZZI

Outrora um dos motores econômicos do Estado, a Região Carbonífera paga há tempos o preço da decadência econômica do ciclo do carvão. Com a paralisação dos projetos termoelétricos, ficaram as pessoas, mas não se criaram os empregos é possível que tenham inclusive minguado. É provável que não seja coincidência o fato de as taxas de alguns tipos de crime, como os assaltos, virem num crescendo. Marcada por descampados, a região também é próxima a Porto Alegre, o que atrai todo tipo de gente, inclusive a indesejável. Desde sempre as forças de segurança mantêm presença escassa em Butiá, Arroio dos Ratos e São Jerônimo, para ficar num trio de cidades representativas. A exceção é Charqueadas, que conta com muitos policiais, sobretudo PMs, por concentrar presídios. Quando fogem, muitos presos do regime semiaberto tratam de cometer crimes por ali mesmo. Não será de estranhar se os responsáveis pelos assaltos sejam oriundos do complexo prisional charqueadense. Até por isso, é de esperar que a Secretaria da Segurança Pública dê uma atenção especial a essa região, que já sofre com o desemprego.