A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

domingo, 16 de junho de 2013

ONDA BRASILEIRA CHEGA AO EXTERIOR

ZERO HORA 16 de junho de 2013 | N° 17463

PROTESTOS EM SÉRIE

Onda de manifestações se expande e chega ao Exterior



Espalhados pelo país, os grupos que organizam os protestos preparam uma nova manifestação em nível nacional, que pode acontecer ainda esta semana. A data ainda não foi definida. O MPL e a Anel também prometem mirar alvos como a Copa de 2014, e adiantam que o transporte deve ser pauta por bom tempo.

Em São Paulo, a próxima manifestação está marcada para segunda-feira. Em Porto Alegre tudo dependerá do que for acordado neste domingo.

Além disso, pelo menos 27 cidades da Europa, América Latina e dos Estados Unidos organizam eventos, via Facebook, em apoio aos protestos realizados no Brasil. Em Paris, na França, o ato – que repudia a repressão policial – deve ocorrer terça-feira, em frente à embaixada brasileira. Madri, Londres, Lisboa, Berlim, Nova York e Buenos Aires também planejam manifestações.


UMA CORRENTE NACIONAL

ZERO HORA 16 de junho de 2013 | N° 17463

PROTESTOS EM SÉRIE

Inspirados em Porto Alegre, atos públicos contra reajustes na tarifa de ônibus se fortalecem no país por interação e até “treinamento” entre grupos.



“Esse valor é um roubo!”. “Se a passagem não baixar, vamos parar!” Os argumentos se repetem pelo país. Mas não são por coincidência.

A onda de protestos contra os reajustes na tarifa de ônibus, que atinge capitais e cidades do país, começou a ser gestada em Porto Alegre.

Debaixo de chuva, entre os milhares de manifestantes que comemoravam, no início de abril, a liminar que congelou em R$ 2,85 o preço da passagem, também havia paulistas e catarinenses insatisfeitos com o custo e a qualidade do transporte coletivo. E eles não estavam a passeio.

A missão dos “infiltrados” era a de compartilhar, depois, a experiência dos manifestantes gaúchos, que desde janeiro vinham ocupando as ruas, chamando a atenção pelo país. A tarefa foi levada a sério. Tanto que, dois meses depois, no primeiro ato em São Paulo, uma faixa carregada por manifestantes continha os seguintes dizeres: “Vamos repetir Porto Alegre”.

Envolvidos com os protestos desencadeados em São Paulo e Rio de Janeiro, a Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (Anel) e o Movimento Passe Livre (MPL) estiveram entre os que enviaram seus representantes.

Além da experiência in loco, as redes sociais também foram aliadas na articulação que culminou em protestos em sete capitais na quinta-feira.

Para Michel Oliveira, 29 anos, integrante do grupo Vamos à Luta no Rio de Janeiro, Porto Alegre foi mais do que uma inspiração.

– Serviu para que o movimento começasse a se nacionalizar – garante.

Segundo ele, mais cidades deverão aderir nos próximos dias, como capitais das regiões Norte e Nordeste.

– Não vamos sair das ruas enquanto a tarifa não baixar – promete.

Movimento nega apoiar vândalos

O MPL, criado justamente durante o Fórum Social Mundial, em 2005, na capital gaúcha, se diz “autônomo, independente e apartidário” e está em oito cidades. Conforme Caio Martins, 19 anos, estudante de História da Universidade de São Paulo (USP), a bandeira do grupo é a tarifa zero.

Integrante da executiva nacional da Anel – surgida em 2009 como uma alternativa à União Nacional dos Estudantes (UNE) – Arielly Tavares Moreira, 23 anos, reconhece que depredações registradas em movimentos recentes não são bem vistas pela população, mas pondera:

– São atos individuais, que não nos representam, mas isso não justifica a ação da polícia.

CLEIDI PEREIRA

A CRONOLOGIA DA MOBILIZAÇÃO

- Em Porto Alegre, as manifestações tiveram início em janeiro, às vésperas de as empresas de ônibus pedirem aumento de 15,8% no preço da passagem.

- O reajuste de 7%, que elevou a tarifa para R$ 3,05, entrou em vigor no dia 25 de março. A medida acabou engrossando os protestos.

- No dia 4 de abril, a Justiça gaúcha concedeu liminar que suspendeu o aumento, mas a mobilização foi mantida.

- Em 15 de maio, grupos de Natal (RN) deflagraram o movimento Revolta do Busão.

- As manifestações em São Paulo começaram a ganhar força a partir de 6 de junho.

- Rio de Janeiro, São Paulo, Natal, Parnamirim-RN, Porto Alegre, Maceió, Santos, Santarém-PA, Aracaju, São Carlos-SP e Sorocaba-SP são algumas das cidades que participaram do ato nacional, organizado e executado na quinta-feira.

sábado, 15 de junho de 2013

A MARCHA DOS OPRIMIDOS


Vamos pleitear mais privilégios de grupo, pois essa coisa de igualdade perante as leis que os liberais defendem é muito chata

RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO
Atualizado:11/06/13 - 0h00


Represento a ONG Minorias Unidas na Luta Ativista (Mula). Somos uma entidade que defende as pobres vítimas do “sistema”, ou seja, os gays, as lésbicas, os transexuais, os negros, as mulheres, os índios, os muçulmanos e todos os demais grupos excluídos que são explorados pelos brancos capitalistas.

Nossa visão de mundo não engloba o indivíduo, essa figura de carne e osso criada pelos ocidentais para fins espúrios. Nós só enxergamos grupos, que formam nossas identidades: classe, raça, gênero, inclinação sexual, religião. Somente essas abstrações nos interessam. Falar em indivíduo é cair na estratégia pérfida dos liberais. Não aceitamos isso!

Dividir para conquistar, eis nossa meta. Separamos o mundo entre aqueles que estão conosco, e nossos inimigos mortais. Estes são representados pela ONG Brancos Ricos Ocidentais Capitalistas Heterossexuais e Associados (Brocha). São nossos arquiinimigos na retórica, e ao mesmo tempo nossos melhores amigos na prática. É que precisamos deles para que paguem a conta de nossos privilégios.

Conseguimos isso por meio de chantagem emocional, incutindo culpa nas “elites”. A bilionária Fundação Ford é ótimo exemplo, sempre do nosso lado. É verdade que o mundo teve escravidão desde sempre, que até Zumbi tinha escravos, que os próprios africanos escravizaram outros africanos, e que foi o Ocidente que colocou um fim nessa prática nefasta. Não importa! Vamos dizer que todo negro é vítima e que os brancos precisam pagar.

Alguns negros, como Thomas Sowell, condenam isso? Simples: chamamos eles de traidores da raça. Funcionava com Lênin e os demais comunistas. Lembrem-se: existem apenas dois grupos. Por isso podemos fazer como o ex-presidente Lula e culpar os “brancos de olhos azuis” pela crise de 2008, mesmo que o CEO de um dos maiores bancos envolvidos na confusão fosse negro.

Por falar em Lula, eis outra grande vítima: nordestino e metalúrgico. Não importa que ele não trabalhe em um chão de fábrica há décadas, ou que receba duzentos mil por palestra, ou que só ande em jatinho particular, ou que seja aliado de todos os velhos caciques da política. Lula sempre será um ícone das minorias oprimidas!

O mais importante é vender a idéia de que somos vítimas, e que os brancos são responsáveis por todos os males do mundo. Sabemos que os negros e “chicanos” americanos gozam de muito mais liberdade e prosperidade do que seus pares africanos e latino-americanos. Não importa! Eles são vítimas, mesmo que o homem mais poderoso do mundo seja negro. Eternas vítimas.

Somos herdeiros de Foucault, o sadomasoquista que falava da forma mais cruel de tirania: a “hegemonia” oculta. Esqueça Coréia do Norte, Irã ou Cuba. A verdadeira ditadura está nos Estados Unidos! Sabemos que os gays correm risco de vida nos regimes comunistas ou islâmicos, mas o que importa isso? São os gays em São Francisco e Ipanema as verdadeiras vítimas. É que tem de ser muito macho para ser ativista em Cuba ou no Irã.

Somos filhos de Paulo Freire, e também acreditamos na “pedagogia dos oprimidos”. As escolas e faculdades não podem ser máquinas de formação de engenheiros e cientistas para ajudar na hegemonia capitalista. Precisamos de ainda mais professores marxistas, engajados nas causas das minorias, doutrinando nas áreas humanas. Viva Gramsci!

Vamos criar várias nações dentro do Brasil. A nação negra, a nação gay, a nação indígena, e por aí vai. Nada de ver todos apenas como brasileiros. Cada um desses grupos vai receber sua legítima cota, e vai direto para ótimos cargos públicos ou dar aulas nas faculdades. Merecemos essa vantagem, nada mais do que uma reparação pelo domínio dos brancos ao longo dos séculos.

E podemos ficar tranquilos: o povo da Brocha costuma aceitar calado nossas demandas. Nada como uma “elite” culpada, mesmo que de classe média. Basta acusarmos eles de “homofóbicos”, “racistas”, “reacionários”, ou “preconceituosos” que eles logo se intimidam e recuam. Sempre funciona acusar alguém que não é nada disso dessas coisas feias. O verdadeiro homofóbico ou racista não liga, mas a turma da Brocha entra em pânico.

Eis nosso grito revolucionário: minorias do mundo todo, uni-vos! Vamos pleitear mais privilégios de grupo, pois essa coisa de igualdade perante as leis que os liberais defendem é muito chata. Alguns podem estranhar eu ser homem e branco. Mas Chico Buarque é branco, com olhos claros, rico e heterossexual, e é aclamado pela Mula. Somos nós contra eles. Só há identidade no grupo. Abaixo o indivíduo! Socialismo ou morte! A morte dos que discordam, claro.

Rodrigo Constantino é economista

A VOLTA DAS MANIFESTAÇÕES DE RUA


Liberdade de reunião e de expressão é direito garantido na democracia. Mas passeatas e similares têm de ser comunicadas previamente às autoridades

EDITORIAL
O GLOBO
Atualizado:15/06/13 - 0h00


O "El País", jornal da Espanha, país que, em função da crise europeia, se encontra em estado permanente de manifestação, registra, ao noticiar os conflitos no Rio e em São Paulo, que o Brasil se desacostumou com esse tipo de expressão política. De fato, os choques nos centros das duas cidades marcam a volta de manifestações de ruas, depois de mais de uma década em que organizações estudantis e sindicatos se mantiveram em obsequioso silêncio diante do lulopetismo. Algumas dessas organizações, cooptadas pelos guichês estatais de distribuição generosa de dinheiro público, sempre em nome do "social". Sequer o mensalão, um histórico e estrondoso caso de corrupção no centro do poder, levou jovens a protestarem em público.

A nova geração nas ruas do Rio e São Paulo parece vir de uma mistura de grupos de extrema-esquerda — alguns à margem dos partidos representados no Congresso —, "rebeldes sem causa" da classe média, anarquistas e vândalos em geral, movidos a palavras de ordem e convocações disseminadas por meio das redes sociais, um fenômeno global. O motivo alegado, o aumento de poucas dezenas de centavos das tarifas de transporte urbano, parece secundário. É até mesmo bizarro que grupos alegadamente defensores da prioridade ao transporte coletivo depredem ônibus e estações de metrô. Pelo menos, o Rio já viveu um surto de violência de motivação fortuita, a Revolta da Vacina, no início do século XX, em que houve depredações e bondes virados nas ruas de paralelepípedos, devido à decisão do governo de vacinar todos contra a varíola, quisessem ou não.

É preciso entender melhor o que se passa, a começar pelo próprio poder público, que, até agora, principalmente em São Paulo, não tem conseguido manter vias importantes abertas ao direito constitucional de ir e vir. Gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes são usuais na repressão a surtos de violência pública em qualquer país do mundo, nos mais e nos menos democráticos. Mas todo este aparato bélico de pouco vale se não houver uma inteligência por trás, não for acompanhado de outros instrumentos de Estado para coibir depredações de bens públicos. Deter, fichar, processar e cobrar judicialmente indenização pelos danos são medidas-padrão a serem tomadas no caso. Bem como não deixar processos mofarem em prateleiras ou esquecidos em computador de delegacia.

Liberdade de reunião e de expressão consta das prerrogativas da democracia. Mas é preciso haver comunicação prévia de horários e trajetos de passeatas à polícia e autoridades de trânsito. Não houve tumulto no início da manifestação de quinta no Rio, na presença na PM — a violência ocorreria no final. Cabe também à Polícia Militar saber dosar a força. A de São Paulo não soube.

As batalhas campais ocorrem enquanto a inflação está em alta e o governo Dilma, em viés de baixa na popularidade. É leviano estabelecer correlações entre os fatos, mas a coincidência coloca mais um dado no cenário político.

BOICOTE À DEMOCRACIA

ZERO HORA 15 de junho de 2013 | N° 17463

EDITORIAIS

O Brasil dormiu assustado na última quinta-feira devido às manifestações violentas em pelo menos cinco capitais, que resultaram em prédios depredados, veículos e equipamentos públicos incendiados, confrontos entre policiais e manifestantes, prisões e ferimentos. O pretexto para a maioria dos protestos é o preço das tarifas de transporte público, uma causa simpática à população, mas desvirtuada pelo vandalismo, pela presença de delinquentes infiltrados nos movimentos sociais e também, em alguns casos, pela reação desproporcional das forças policiais.

Mais do que assustado, o Brasil passa a dormir preocupado com a explosão de protestos de rua que não apenas defendem direitos legítimos de alguns setores da sociedade mas também ferem as prerrogativas constitucionais de todos – entre as quais a da segurança pública, a da propriedade privada e a de ir e vir. Como explicar a legitimidade democrática dos protestos para pessoas presas em estradas bloquea-das, sitiadas e ameaçadas pelas batalhas entre manifestantes e policiais, vendo seus veículos e estabelecimentos comerciais depredados por grupos mascarados ou desprotegidas porque as forças de segurança deixam de policiar a cidade para se concentrar nos locais do protesto?

Evidentemente, como em qualquer conflito, todos os lados devem ser ouvidos. E um olhar mais distanciado do fenômeno indica que os manifestantes não estão isolados na sua ação. Recente pesquisa do Instituto Datafolha, feita em São Paulo, demonstra que 55% dos entrevistados apoiam os protestos contra o preço das tarifas de transporte, mas 78% condenam o emprego de violência nas manifestações. Repudiam a violência de parte à parte, pois a polícia paulista, como mostram fartamente os registros jornalísticos dos fatos, também exagerou na repressão, atingindo culpados e inocentes com cassetetes, bombas de gás e balas de borracha.

Ninguém pode desejar uma situação dessas. Assim como merecem repúdio o vandalismo e as depredações, também não se pode aceitar que tropas armadas e sustentadas pelos contribuintes se voltem contra eles, sem discriminar delinquentes e cidadãos responsáveis. Talvez já esteja passando da hora de um diálogo aberto e desprendido, em que todas as partes interessadas coloquem seus argumentos e busquem soluções coletivas.

Há, porém, um fato desconcertante nessas manifestações. Elas parecem refletir muito mais um modismo orquestrado pelas redes sociais do que propriamente interesses específicos de setores realmente desassistidos da sociedade. Basta observar o perfil dos manifestantes: entre eles é muito mais fácil encontrar jovens universitários do que operários e pessoas de pouca instrução, que dependem muito mais do transporte coletivo para se deslocar de casa aos locais de trabalho. Isso não chega a ser uma deformação, pois é natural que as pessoas melhor informadas representem as minorias sem voz. O que causa perplexidade é a presença nos eventos de radicais que encobrem o rosto para depredar e mesmo de marginais com antecedentes criminais. Também é incompreensível e inaceitável o protesto imotivado, como ocorreu na última quinta-feira em Porto Alegre, onde o preço das passagens de ônibus está contido por medida judicial.

Esses delinquentes comprometem as boas intenções da maioria e boicotam a democracia. O povo brasileiro lutou pela liberdade democrática para poder protestar livremente, para poder questionar seus governantes e representantes políticos sem sofrer represálias, para contar com uma imprensa livre que possa retratar fatos e opinar sobre eles, para ter a oportunidade de equacionar seus conflitos sem se submeter a pressões econômicas, políticas ou de qualquer natureza – mas também para não viver sob a ameaça da violência, venha de onde vier.

Manifestantes que ultrapassam os limites da lei e da civilidade, assim como autoridades que chancelam a violência do Estado, são sabotadores da democracia.

VIOLÊNCIA CONDENADA

ZERO HORA 15 de junho de 2013 | N° 17463

LIMITE DOS PROTESTOS

Os protestos contra a elevação da tarifa de ônibus tiveram início na Capital em março, se alastraram por diversas capitais do país e retornaram com voltagem redobrada para Porto Alegre nesta semana. A escalada no nível de agressividade de manifestantes e policiais reforça um debate sobre os limites das ações de cada parte e o temor de novos confrontos.


Ao ampliar o número de alvos e o nível dos danos registrados, o mais recente protesto contra a tarifa de ônibus em Porto Alegre inflamou um debate sobre a violência nas manifestações e o papel de ativistas e policiais. Reproduzida com fôlego nas redes sociais, a discussão apresenta pontos de vista divergentes sobre o rumo da mobilização, mas encontra um ponto comum: o temor de acirramento dos ânimos.

Zero Hora ouviu líderes políticos, sociólogos, manifestantes e cidadãos de diferentes matizes ideológicos sobre a elevação na agressividade dos protestos. Foram contabilizadas depredações ao patrimônio público e privado. Em contrapartida, a Brigada Militar deteve 23 suspeitos. Um vídeo publicado na internet mostra que policiais recolheram pessoas até de dentro de um bar. Não houve, porém, relatos de agressões como as praticadas pela PM paulista.

Até esta semana, os alvos costumavam ser prédios relacionados à questão da tarifa de ônibus, como a prefeitura.

– A população está ficando mais indignada com o aumento do custo de vida, com a corrupção e a falta de democracia nas discussões sobre as cidades, além da forte repressão que houve em São Paulo – argumenta a vereadora do PSOL Fernanda Melchionna.

O protesto de quinta na Capital sucedeu a manifestações em São Paulo, por sua vez inspiradas no movimento porto-alegrense, que envolveram duros confrontos entre ativistas e policiais. Fernanda sustenta que dar destaque a atos radicais promovidos por uma minoria é uma tentativa de criminalizar o movimento na Capital. Para o líder do PSDB na Câmara de Vereadores, Mario Manfro, as depredações devem ser vistas, sim, como parte das manifestações e combatidas com rigor pela polícia.

– Se tu chamas um manifesto, tu és responsável pelo bônus se conseguir a tua meta. Mas também é responsável pelo ônus se as coisas fogem do controle – sustenta Manfro, que também condena os bloqueios de vias públicas.

O cientista político e coordenador do curso de Ciências Sociais da Ulbra, Paulo Moura, avalia que o vandalismo é promovido por pessoas que procuram ampliar a visibilidade das ações aproveitando-se de um cenário de insatisfação popular provocado pela inflação e perda do poder aquisitivo.

– Embora não se fale nisso, é a perda do poder aquisitivo que explica, também, o apoio popular ao movimento. Mas, quando ocorrem abusos, a polícia tem de agir – defende.

O problema, na visão do ativista Lucas Fogaça, da Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel), é que os atos violentos, segundo ele pontuais, motivam ações ainda mais agressivas das autoridades.

– Quando há algum excesso, a reação da polícia é desproporcional. Por isso, a partir de agora as lutas devem adotar um caráter mais amplo também contra a repressão – aposta.

Para a cientista e professora da UFRGS Céli Regina Pinto, a resposta para a escalada de violência deve ser buscada:

– Dizer que são vândalos não basta. Não estou defendendo, apenas dizendo que precisamos saber quem são, porque essa violência é muito perigosa.


Paulista veio documentar a passeata no RS

Entre os manifestantes foram reconhecidos integrantes de torcidas organizadas da dupla Gre-Nal, estudantes e jovens com passagens pela polícia. Segundo registros policiais, dos 23 detidos, 14 moram em Porto Alegre e os outros vivem na Região Metropolitana. A maioria se declarou universitário ou secundarista e não possui histórico de envolvimento em atos de violência.

Um dos presos é o paulista Felipe de Aquino Ramos, 24 anos. Afirmou ser documentarista e que veio de São Paulo com o objetivo de fotografar os protestos. Um chip com imagens registradas por Ramos foi apreendido pela BM.

O estudante Fabrizio Dall Bello Arriens, 28 anos, responde a um Termo Circunstanciado (TC) por desobediência nos protestos para evitar cortes de árvores no entorno da Usina do Gasômetro, na Capital.

Um outro jovem, Jonathan da Silva Leite, 22 anos, já foi indiciado pela Polícia Civil por roubo e, em novembro do ano passado, preso em flagrante sob suspeita de tráfico de drogas, na zona norte da Capital.


Ordem era intervir em último caso

Como o protesto da quinta-feira à noite estava agendado em redes sociais, a Brigada Militar (BM) se precaveu escalando o maior número de PMs para acompanhar a manifestação. Cerca de uma hora antes do início da passeata, o Comando de Policiamento da Capital (CPC) deslocou cerca de 160 policiais de pelotões especiais para o centro de Porto Alegre.

A ordem era monitorar e intervir em último caso. A BM não admite, mas queria evitar confronto. Infiltrou soldados entre os manifestantes para descobrir eventuais alvos dos protestos, tentando se antecipar a depredações. De certo modo, a tática funcionou. Quando a marcha chegou em frente ao prédio do Tribunal de Justiça do Estado (TJ), o local já estava cercado de PMs. A parada diante do TJ teria o objetivo de pressionar a Justiça a reduzir a tarifa. Pedras foram arremessadas com estilingue em direção ao prédio, sem danos.

Mas em outros pontos do Centro, estabelecimentos não foram poupados. Mas por que foi permitido?

– A nossa intenção foi evitar um confronto de grande escala, pois tu sabes como começa, mas não sabes como termina. Quando tu pinças uma pessoa no meio da multidão, estimulas as condições para que se estabeleça um conflito em grande escala – justificou o comandante interino do 9º Batalhão de Polícia Militar (9º BPM), André Luiz Córdova.

Segundo ele, a conduta dos PMs foi dentro de um padrão adotado em outras manifestações, e só ocorreram intervenções quando fugiu do controle.

– Não podemos criminalizar os movimentos sociais. Apenas um pequeno grupo, que não chegaria a 2% do total de manifestantes, foi responsável pelas depredações – afirmou o delegado Antônio Vicente Nunes, do Departamento de Polícia Metropolitana.

Algumas das pessoas foram encurraladas em um bar na Praça Garibaldi, onde tentaram se refugiar. O grupo foi identificado pela BM, e a partir de provas como testemunhos e imagens, a Polícia Civil irá apurar os autores dos atos de vandalismo.

– Não houve uma clareza suficiente que nos permitisse fazer os autos de prisão em flagrante e individualização das condutas – afirmou o delegado.

Grupo RBS registra ocorrência por ameaça e carro depredado

O Grupo RBS registrou ocorrência na 2ª Delegacia da Polícia Civil pela ameaça a seus profissionais e depredação de um dos carro da empresa durante o protesto de quinta-feira na Capital. Na ocasião, um carro que levava funcionários para o Aeroporto Salgado Filho foi parado por manifestantes na Avenida João Pessoa, sacudido, pichado, chutado e teve o vidro traseiro quebrado por um pedaço de ferro.

Marcelo Rech, diretor-executivo de Jornalismo da RBS e vice-presidente do Fórum Mundial de Editores, lamentou a agressão aos profissionais da empresa, considerando-a uma tentativa de tolher a liberdade de imprensa e a livre expressão. Ricardo Pedreira, diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), também condenou o ataque e disse ser “inaceitável” tal ameaça.

A Associação Internacional de Radiodifusão (AIR) repudiou os atos de violência contra o Grupo RBS. Em nota, disse que violência, intimidação, ameaça e destruição material “violam os direitos fundamentais” e restringem severamente a liberdade de expressão”. Também frisou que “é dever dos Estados prevenir e investigar” os fatos, bem como “punir os responsáveis”.

Já a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) afirmou, em nota, que “atos de extrema violência e intimidação como o ocorrido na capital gaúcha são um grave atentado ao livre exercício do jornalismo e devem ser rechaçados”.

Mídia internacional relaciona fatos à Copa


A ação de policiais contra manifestantes em São Paulo recebeu atenção da mídia internacional. Nos Estados Unidos, a rede de TV CNN afirmou que houve “confrontos violentos exatamente um ano antes do início da Copa do Mundo”. Na França, a agência de notícias AFP disse que a confusão aconteceu “a três dias da abertura da Copa das Confederações”. O espanhol El País observou que a polícia paulista “perdeu o controle”. No argentino Clarín, o título destaca a continuidade do movimento. Já o venezuelano El Universal estampou uma foto em que um policial aparece atirando contra uma multidão.


OS ESTRAGOS: Fonte: Fonte: Brigada Militar

PICHAÇÕES - 21 lojas, um prédio, três bancas de revista e veículos

DEPREDAÇÕES - Seis agências bancárias, cinco veículos e um parquímetro

CONTÊINERES - Cerca de 40 contêineres foram virados, chutados e pichados, e um deles, queimado, provocando o bloqueio da Avenida João Pessoa por uma hora



Uma polícia violenta

No dia seguinte aos protestos marcados por violência, o governo de São Paulo abriu investigação para apurar excessos cometidos pela polícia nos protestos ligados às tarifas de ônibus. Apesar de reconhecerem a liberdade de expressão e se mostrarem abertos ao diálogo, as autoridades defenderam, nos discursos, a atuação policial.

Em São Paulo, a Secretaria da Segurança Pública garantiu que vai investigar supostos abusos. O prefeito Fernando Haddad (PT) descartou adiar o reajuste da tarifa para cessar as manifestações. Ontem, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) defendeu a mesma medida.

Para tentar acalmar os ânimos, Haddad decidiu convidar integrantes do Movimento Passe Livre, que tem organizado a onda de protestos, para uma reunião na terça-feira. A ideia é discutir de propostas sobre transporte público.

O prefeito ressalta, no entanto, que o convite não significa intenção de reduzir a tarifa reajustada recentemente, de R$ 3 para R$ 3,20. Haddad reiterou que o reajuste ficou abaixo da inflação e que cumpriu compromisso de campanha.

Já o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, considerou que houve “excesso” e “abuso” por parte de alguns policiais em São Paulo, mas elogiou a abertura de investigações e pontuou que o governo federal não intervirá porque o tema é de competência estadual.

No Rio, policiais também entraram em conflito com moradores. O governador Sérgio Cabral (PMDB) disse que há viés político no ato:

– Os jovens que foram presos pela baderna não estavam ali para defender interesses públicos, mas para gerar um clima de confusão.


EXCESSOS NA INTERNET - Manifestantes denunciam atuação policial

- Canais na internet foram criados por participantes dos protestos para divulgar o que consideram excessos policiais em SP. Os tumblrs oquenaosainatv.tumblr.com e o feridosnoprotestosp.tumblr.com, por exemplo, foram criados especialmente para denunciar agressões.

- Outro endereço, que usa a hashtag “protestosp” no topo, segue a mesma proposta. Há depoimentos de ameaças de policiais militares a cidadãos e relatos de que armas foram apontadas aos manifestantes – desarmados.




sexta-feira, 14 de junho de 2013

PARA O MUNDO, PROTESTOS SÃO ALARME NUM PAÍS EM QUE O POVO NÃO VAI ÀS RUAS

Imprensa estrangeira destaca que protestos ocorrem em momento de crise da economia. Para o ‘El País’, protestos são alarme num país em que o povo não vai às ruas

O GLOBO
Atualizado:13/06/13 - 21h17


Reprodução do ‘El País’


RIO - Os confrontos entre polícia e manifestantes que protestam contra o aumento das passagens do transporte público chamaram a atenção da imprensa internacional. O jornal espanhol “El País” relata que um Brasil pouco acostumado a ir às ruas protestar se levantou nas principais cidades do país. Afirma ainda que ônibus foram queimados e, em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin têm sido duros com os manifestantes e com os atos de vandalismo.

“As manifestações estão criando um alarme especial. Nem mesmo diante dos grandes escândalos de corrupção política o povo nunca saiu às ruas”, afirma o texto do jornal, divulgado na quarta-feira. “Os preços dos transportes públicos no Brasil são muito altos em relação ao salário mínimo dos trabalhadores”, explica o “El País” ao leitor espanhol.

O jornal explica que as manifestações chegaram em um momento de crise na economia, com inflação alta, bolsa caindo e o dólar alcançando os R$ 2,20. E ressalta a preocupação da presidente Dilma Rousseff com as manifestações.

“A classe média, pouco acostumada no país a manifestações nas ruas, está aplaudindo as autoridades, que pediram mão dura da polícia contra as mobilizações que estão paralisando o tráfefo nas cidades que já são supercongestionadas”, diz o texto em outro trecho.

A situação da economia brasileira foi externada em outros veículos, para contextualizar as manifestações. O jornal inglês Finacial Times disse que as manifestações são um sinal de preocupação do Brasil com os preços. O “The Wall Street Jounal” afirmou que a mais recente série de protestos no Brasil se tornou violenta e lembra que cresce a tensão com o desemprego.

Ao relatar o protesto de terça-feira, o jornal argentino “Clarín” informou nesta quinta que os protestos em São Paulo tiveram seu momento mais violento, com 20 detidos, ônibus queimados, bombas de efeito moral, lixo e vidros espalhados pelas ruas. O jornal destaca ainda que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ordenou uma investigação sobre as manifestações.