A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A POLÍTICA COMO UM APLICATIVO

ZERO HORA 18 de janeiro de 2014 | N° 17677

ENTREVISTA FÁBIO MALINI

Convidado do seminário Conexões Globais fala do futuro das manifestações



Nos dias 24 e 25, Porto Alegre recebe nova edição do seminário Conexões Globais, com debates e encontros sobre cultura digital, sociedade em rede e ativismo online, entre outros temas. Os convidados incluem o articulador do Fora do Eixo, Pablo Capilé, e o fundador da rede Futura.net, Bernardo Gutiérrez e o pesquisador Fábio Malini. Professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Malini é coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da entidade (Labic) e fala no dia 25, às 16h, na Casa de Cultura, sobre os próximos dos protestos e a evolução política do ativismo online. Ele falou a ZH:

Zero Hora – O que o senhor vai debater no Conexões Globais?

Fabio Malini – Vou levar alguns dados novos sobre os movimentos no Brasil, uma espécie de linha do tempo, que vem de junho até esta semana. Do “Vem pra Rua”, passando pelo 7 de Setembro, os impactos do julgamento do Mensalão, dos rolezinhos, da questão indígena. A primeira abordagem é partir dos dados que coletamos aqui no Labic e formar uma cronologia, quase um gráfico de pulsação dos principais instantes dos movimentos que emergem a partir de junho e que, de certa maneira, prosseguem agora, com o “Não Vai ter Copa”.

ZH – E pelo que o senhor vem mapeando, há como prever uma tendência a curto prazo de como devem se desenvolver esses movimentos?

Malini – Estamos trabalhando com um processo de desenvolvimento de aplicações, tecnologias, scripts, que tenta criar um campo a partir dessa massa gigantesca de dados que estão na internet para produzir previsões a curto prazo. A ideia é que na primeira, segunda semana de abril, essa tecnologia já esteja disponível. Agora, do ponto de vista de uma leitura dos dados sem essas tecnologias, me parece que hoje toda mobilização social é de rede, e é impossível dissociá-la disso. isso gera um desencaixe com formas tradicionais de movimentação.

ZH – Qual é essa dissonância?

Malini – A característica dos movimentos de hoje é que eles funcionam um pouco como um aplicativo de celular. Você baixa e ele é atualizado de tempo em tempo. E o que estamos vendo desde junho é um movimento que se atualiza. Ele não passa pelo processo de refluxo, como dizia a teoria dos movimentos sociais tradicional. Ele sofre um processo de atualização: acontece, chega ao ápice, decai, passa por um novo processo de desenvolvimento, que em minha avaliação ocorreu ali por outubro, novembro e dezembro, e agora está se atualizando em outro formato, que passa pelo “Não Vai Ter Copa”, pelo S.O.S. Maranhão... Ele incorpora novos sujeitos, refina determinadas demandas, inclui outras. Estamos, então, vivendo uma espécie de movimento que se pode chamar de “beta-permanente”, em permanente construção. E, em geral, quem governa, por ter sido formado em um movimento político e social que flui e depois reflui, acontece e depois some, não consegue entender bem essa ideia de algo que acontece e se atualiza. Então, na verdade, quando um movimento em rede acontece, esse acontecimento é a última etapa da atualização, não a primeira. O “Não Vai Ter Copa” já estava se constituindo nas redes, e agora vamos vê-lo se atualizando nas ruas. O Rolezinho já acontecia, agora vai se atualizar. Esse é um fluxo contínuo, permanente, de desenvolvimento de direitos. Os novos direitos cada vez mais vão assumir uma dinâmica que articula demanda social, mobilização em rede e atualização desses direitos. A rua se torna o lugar em que esses movimentos se tornam visíveis.

ZH – O movimento ainda está por aí, mas demandas originais parecem ter sumido da pauta, como Pinheirinho, Amarildo ou os Guarani Kaiowá.

Malini – Essa é uma pergunta que em geral é muito comum. Porque tem nela uma certa dúvida que precisa ser discutida, a da efemeridade das pautas. Mas será que essas pautas são mesmo efêmeras? Acredito que não. “Onde Está o Amarildo” possibilitou trazer para o debate político algo que não estava em junho, que é a violência policial, e isso desencadeou, por exemplo, o projeto de lei de desmilitarização que está no Senado; o fim da proibição do funk nas favelas cariocas; a prisão de policiais envolvidos na morte do Amarildo; a discussão sobre as UPPs. Ou seja, o fato de mudar a mentalidade política da gente é um grande avanço. Colocar na agenda política esse tema, e não “como fazer um grande evento”, é uma grande curva que se faz. Tem tanto medidas práticas quanto políticas. Hoje o país está discutindo muito pela rede. As timelines das redes sociais antes discutiam pouca política, e hoje a discussão é o tempo inteiro. E você tem outros temas. A questão da mobilidade urbana: como os governos adotaram essa agenda? Pressionados pelo Movimento Passe Livre. O direito de minorias é outro campo que trouxe bastante questões. Era um tema que em 2013 não estava tão focado, e agora está na pauta dos candidatos. Essa é a importância de uma sociedade civil atuante e que não é articulada ou alinhada com os governos.

POR CARLOS ANDRÉ MOREIRA

sábado, 11 de janeiro de 2014

BRASILEIRO PAGA PARA NÃO SE INCOMODAR


ZERO HORA 10 de janeiro de 2014 | N° 17669


FABIO PRIKLADNICKI | FABIO PRIKLADNICKI - INTERINO

Em defesa do consumidor



Dia desses, no shopping, fui a uma loja da operadora de celular da qual sou cliente para conferir quantos pontos eu tinha. Estava a fim de trocar de aparelho e queria ver se conseguia um desconto. Sendo cliente há muitos anos, imaginei que teria direito a algum benefício. A atendente me informou que eu até havia acumulado pontos, mas não poderia utilizá-los porque eu tinha um plano com fidelidade desde novembro de 2013, quando foi renovado um desconto na mensalidade por um período de 12 meses.

Achei estranho. Nunca me informaram que a tal renovação geraria fidelidade. Para piorar, o desconto não foi efetivado. Passei a pagar uma conta cara.

Na loja, perguntei qual seria a multa caso eu decidisse trocar de operadora. Mais de R$ 600, respondeu a atendente. Daria para comprar o almejado aparelho novo.

Muito bem. Troquei de operadora. Bem assim: saí da loja de uma empresa e entrei na loja de outra. Agora, estou aguardando a multa chegar. Já estou pensando no tempo que terei que dedicar para discutir a cobrança indevida. Se necessário, recorrerei à Justiça.

Não é uma alternativa ruim. O brasileiro está mal-acostumado. Prefere pagar para não se incomodar em vez de se incomodar para não pagar. E assim as empresas vão ganhando uma multa indevida aqui, outra cobrança equivocada ali. Ou alguém já viu errarem o boleto para menos?

Essa é a tese de um grande amigo meu que é advogado: no final do mês, o departamento financeiro destas empresas aparece com um balanço positivo. A renda das cobranças indevidas é maior do que a soma dos valores pagos em danos morais a clientes ofendidos. Isso porque muitos não acionam a Justiça. E os que acionam não fazem cócegas. O que são R$ 5 mil – valor comum de indenizações nesse tipo de caso – para uma operadora de celular?

As indenizações não são altas, na maior parte dos casos, porque o Judiciário costuma entender que isso caracterizaria “enriquecimento ilícito” dos consumidores. Pois esse meu amigo tem uma ideia interessante. Já que não pode haver enriquecimento ilícito, e já que as indenizações não têm pesado no bolso das más empresas, por que não pleitear, na Justiça, que estas corporações paguem um valor relativamente alto que seja revertido a uma instituição beneficente, com apenas uma pequena parte para o cliente? Assim, as organizações que desrespeitam o consumidor seriam de fato penalizadas, os clientes se sentiriam compensados e entidades não lucrativas que fazem o bem para a sociedade ainda sairiam ganhando. E mais: o atendimento aos consumidores melhoraria, o número de processos diminuiria e o Judiciário seria desafogado. Por que não?




quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

OS WHITE BLOCS


Não atacam bancos: neles fazem operações sigilosas, aqui ou em paraísos fiscais


CHICO ALENCAR
O GLOBO
Publicado:26/12/13 - 0h00


Eles estão infiltrados no Estado brasileiro desde os seus primórdios: vieram com a Corte Absolutista de Dom João, em 1808. Não em naus menores, atrás das principais da esquadra que fugia da invasão napoleônica, mas bem ao lado da Família Real. Aqui compuseram a alta burocracia, renovaram os privilégios, aprofundaram a distância entre administração inchada e população desvalida. Propagaram a cultura da corrupção.

Eles não usam máscaras, pois suas caras de pau prescindem disso. Bem vestidos — os ternos de corte fino substituindo as perucas do século XIX —, têm incrível capacidade de renovação. Seus espaços no poder são mantidos como capitanias hereditárias. Arcaicos em suas práticas do tráfico de influência e enriquecimento ilícito, vestem a roupagem da “modernidade” das “tribos” da livre concorrência e do capitalismo sem riscos.

Eles não atacam bancos: esmeram-se em neles fazer operações sigilosas, aqui ou em paraísos fiscais, que passam ao largo dos órgãos de controle financeiro. Têm força junto aos grandes partidos e abortam qualquer investigação sobre suas movimentações milionárias, como nas CPIs do Banestado, Cachoeira/Delta e quantas outras surgirem tentando jogar luz em tenebrosas transações.

Crescidos na estufa dos negócios particulares, estão, anônimos, nas esferas dos três poderes da República. Nos Judiciários tentam comprar sentenças, envolver magistrados, fazer chicanas e absolver os poderosos. Regozijam-se quando a Justiça tarda e falha. Quanto mais ela pender sua balança para os ricos, melhor.

Nos Executivos, armam licitações dirigidas, beneficiam grandes empresas e estabelecem consórcios de propinas. Montam uma rede de “amigos” especializada em quebrar todas as barreiras republicanas que distinguem o público do privado, o interesse social do negócio mercantil.

Nos Legislativos, alavancam esquemas vitoriosos de financiamento empresarial de campanha e de publicidade despolitizadora. Assim elegem, além dos governos, sua “base de sustentação”, alimentada pela distribuição de cargos para nomeação de apaniguados. Direcionam as emendas orçamentárias para aqueles que possam se beneficiar de sua execução, cobrando retribuição.

Eles não gostam da claridade das ruas. Agem nos bastidores, justificando-se, no seu fatalismo interessado, com o “sempre foi assim”. Vandalizam o bem comum, frequentam as altas-rodas e têm certeza da impunidade.

Para enquadrá-los, é preciso desmontar a estruturas do poder oligárquico. Uma consigna, efetivamente praticada, também combateria essa chaga: LIMPE. De Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, princípios fundamentais da administração pública, inscritos no artigo 37 da Constituição Cidadã que nos rege, há 25 anos.

BRASILEIRO É OTÁRIO?



Americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes

RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO
Publicado:24/12/13 - 0h00


Sempre que vou aos Estados Unidos retorno com essa questão: somos um povo otário? Afinal, adoramos nos vangloriar de nossa “malandragem”, de nosso “jeitinho”, mas vivemos imersos em um mar de ineficiência, corrupção, carestia e criminalidade. Há malandro demais para otário de menos por aqui.

Os americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes, pelos quais pagaram um terço do valor que nós pagamos, e podem andar com vidros abertos e ter casas sem muros. Que otários!

Ainda bem que somos diferentes, desconfiamos do lucro, dos empresários, e delegamos ao papai Estado todo nosso destino. Temos agora até universidade marxista voltada exclusivamente para o trabalhador, para não deixá-lo “alienado”, e sim um camarada “politizado”, engajado na luta pela justiça social. Somos muito melhores!

Temos um governo metido nos piores escândalos de corrupção, mas ainda favorito para mais um mandato em 2014. A economia não cresce, paramos de gerar empregos, a inflação continua alta demais, cada vez mais gente depende de esmolas estatais, a carga tributária sobe sem parar, mas ninguém parece se importar. A Copa vem aí, e somos a pátria de chuteiras.

Após oito anos, os mensaleiros finalmente foram presos, mas ainda tentam vender a imagem de injustiçados. Um deles recebe amplo apoio dos artistas e “intelectuais” da esquerda caviar, pois teria um currículo louvável (comunista por acaso pode ter passado digno de aplausos?) e não teria roubado para si próprio. O outro se compara a Mandela.

E o PT faz evento oficial para defender os bandidos presos e atacar o STF, ao lado de uma presidente da República conivente, passiva, cúmplice. Alguém pode imaginar isso nos Estados Unidos? Claro que não. Eles não são tão compreensivos e cordiais como nós.

Estive em Miami e Orlando. Só brasileiro, nem preciso falar. Estamos por toda parte, comprando e comprando. “Consumistas burgueses”, diria um típico comuna. “Classe média fascista”, diria Marilena Chauí. Mas que mal há em desejar pagar um terço do preço que se paga no Brasil pelos mesmos produtos? Compram em Miami os que não são ricos a ponto de poder comprar no Brasil.

“Ah, mas é preciso financiar a justiça social”, alegam os esquerdistas. Ora, o governo americano é a polícia do mundo (felizmente), e nós precisamos de um governo ainda maior em termos relativos? Haja esmola, para pobre e para rico (BNDES).

Sem falar que, no Brasil, reina o culto do pobrismo. As esquerdas amam a miséria, não os pobres. E odeiam os ricos mais do que “amam” os necessitados. Não existem abutres sem carniça, não é mesmo?

O Brasil realmente testa nossa paciência. A impressão digital do governo inchado está em todas as cenas do crime, mas eis que boa parte da população pede, como solução para nossos males, mais governo! Seria cômico, não fosse trágico.

Mas é véspera de Natal, e não quero estragar a ocasião. Quero até aproveitar a oportunidade e fazer meus pedidos a Papai Noel. É verdade que ele tem toda pinta de marxista: usa roupa vermelha, distribui presentes pagos por terceiros, e coloca outros para fazer o trabalho pesado enquanto fica com a fama de bondoso. Não importa. Faço minha lista, na esperança de ser atendido:

1. Que o povo brasileiro possa acordar em 2014 e ter o bom senso de evitar um destino trágico como o da Argentina ou da Venezuela para nosso lindo país.

2. Que o funk não seja mais visto como “apenas” uma forma artística diferente, tão boa quanto música clássica ou ópera.

3. Que a doutrinação marxista nas nossas universidades chegue ao fim e que cada vez mais alunos e professores tenham a coragem de se rebelar contra tal covardia.

4. Que a hegemonia de esquerda na política nacional seja finalmente vencida e que algo NOVO possa surgir como alternativa.

5. Que esses ecochatos e politicamente corretos arrumem algum passatempo individual e nos deixem em paz para vivermos de acordo com nossas preferências pessoais.

6. Que todos aqueles que conseguem defender a ditadura cubana em pleno século 21 resolvam abandonar a hipocrisia e comprar uma passagem só de ida para a ilha-presídio caribenha.

7. Que os brasileiros passem a ler mais, de preferência bons livros.

8. Que todos aqueles que querem “salvar o mundo” antes arrumem o próprio quarto.

9. Que todos lembrem de que solidariedade é algo voluntário, não compulsório, via impostos dos outros.

10. Que nosso povo seja menos “malandro”, como os americanos.

Feliz Natal.

EM 2014, VEM PARA RUA VOCÊ TAMBÉM


Renan Calheiros usou um jato da FAB para um implante de cabelos, o Brasil precisa de votos na mão e pés na rua

ELIO GASPARI
O GLOBO
Publicado:25/12/13 - 0h00


A repórter Andréia Sadi revelou que o presidente do Senado, doutor Renan Calheiros, preocupado com sua cabeça, requisitou um jato da FAB para voar de Brasília a Recife, onde fez um implante de dez mil fios de cabelo. Quem nestas Festas viajou com seu dinheiro deve perceber que esse tipo de coisa só acabará pela associação dos direitos de voto e de manifestação em torno de políticas públicas. Só com o voto isso não muda. Pelo voto, Renan começou sua carreira política em 1978, elegendo-se deputado estadual pelo MDB de Alagoas.

Renan Calheiros é um grão-mestre da costura política. Foi líder do governo de Fernando Collor de Mello e ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Desde 2003 é um pilar da coligação petista no Congresso. Pertence a uma categoria imune à vontade popular. Ela pode ir para onde quiser, mas ele continuará no poder, à sua maneira. Como ministro da Justiça do tucanato, tendo seu nome exposto na Pasta Rosa dos amigos do falecido Banco Econômico, defendeu o uso do Exército para reprimir saques de famintos durante a seca de 1998. Politico da Zona da Mata alagoana, estava careca de saber que tropa não é remédio para esse tipo de situação. Nessa época, dois de seus irmãos foram acusados de terem mandado chicotear um lavrador acusado de roubar um aparelho de TV numa fazenda. Um desses irmãos elegeu-se deputado federal. Entre 1998 e 2006 teve uma variação patrimonial de 4.260%, amealhando R$ 4 milhões.

Renan teve uma filha fora do matrimônio quando ganhava R$ 12.720. A mãe da criança era ajudada por uma empreiteira amiga que lhe dava uma mesada de R$ 16.500. Por causa desse escândalo, por pouco não foi cassado, mas renunciou à presidência do Senado. Reelegeu-se e voltou à cadeira que já foi de Rui Barbosa prometendo uma agenda ética, de “transparência absoluta”. Contudo, como diz o senador Edson Lobão Filho, filho e suplente do senador Edson Lobão, ministro de Minas e Energia, “a ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata”. Nesse mundo de abstrações, Renan, vendo a despensa de sua casa concretamente desabastecida, mandou abrir um pregão de R$ 98 mil para a compra de salmão, queijos, filé mignon, bacalhau e frutas. Apanhado, cancelou a compra.

Renan não é um ponto fora da curva. Ele é a própria curva. Em 2005, como presidente da Casa, deu sete cargos de R$ 10 mil a cada colega. Seu mordomo ganha R$ 18 mil. Em julho, quando ainda havia povo na rua, usou um jatinho da FAB para ir a um casamento em Trancoso. Apanhado, devolveu o dinheiro. Passados cinco meses fez o voo do implante.

Estabeleceu-se uma saudável relação de causa e efeito entre esse tipo de comensal da Viúva e a opinião pública. Eles não se corrigem, mas, uma vez denunciados, recuam. São muitos os maganos que não toleram saguão de aeroporto, despensa vazia e parente desempregado. Nessas práticas, é fácil colocá-los debaixo da luz do sol. Quando se trata da convênios, contratos de empreiteiras e grandes negócios, a conversa é outra.

Em 2014 a turma que paga as contas irá as urnas. Elas poderão ser um bom corretivo, mas a experiência deste ano que está acabando mostra que surgiu outra forma de expressão, mais direta: “Vem pra rua você também.”

O BRASIL NAS RUAS


ZERO HORA 26 de dezembro de 2013 | N° 17655

EDITORIAL




Neste segundo editorial da série de análises de 2013, a RBS opina a respeito das manifestações de junho e dos seus resultados para o país.

Quem nos representa no Brasil, sejamos nós jovens ou nem tanto, crianças ou idosos? Desde junho último, quando brasileiros começaram a ocupar as ruas, contagiados pela força da juventude, ficou claro que não são mais os políticos tradicionais, ou pelo menos não apenas eles, nem outros clássicos porta-vozes. Mobilizados basicamente pelas redes sociais, com hashtags como #VemPraRua, #OGiganteAcordou e #MudaBrasil, os manifestantes recorreram a contrastantes pedaços de cartolina, rabiscados à mão, para alardear essas mensagens relevantes. Tem tanta coisa errada que não cabe em um cartaz, resumia um dos pôsteres. Por trás da máscara do personagem Guy Fawkes, de V de Vingança, porém, entre as boas intenções dos manifestantes de maneira geral e excessos de grupos como os black blocs, o recado foi dado. O país pode não ter despertado de vez, nem ter se transformado como sonhavam os ativistas, mas já não é o mesmo.

Motivados inicialmente pelo alto custo e a baixa qualidade do transporte público, os protestos deixaram grafados desde o início: “Não é por 20 centavos, é pelo meu futuro”. Em seguida, miraram os investimentos da Copa, com a ressalva: “Não é contra a Seleção, é contra a corrupção”. Em outras mensagens escritas, os manifestantes passaram a exigir “Saúde padrão Fifa”, a ironizar que “Ia ixcrever augu legau mais faltô edukssão”, a pedir segurança com frases do tipo “Por favor, não me bata! Proteja-me”, a alertar a classe política de que “Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil”. Diante de apelos transcritos também em pôsteres com referências a clássicos da música brasileira como “Brasil, mostra tua cara” e “O dia vai raiar, sem lhe pedir licença”, dirigentes brasileiros dispuseram-se finalmente a ouvir mais a voz das ruas, a discursar e a ostentar menos, a mudar a agenda, a fazer diferente, a reconhecer erros.

Em muitas capitais, a tarifa de ônibus urbano diminuiu, mas a discussão não se limitou aos 20 centavos: hoje, a mobilidade urbana é tema central, o espaço público entrou na pauta da sociedade e a bicicleta se firma como símbolo da mudança. O Planalto se deu conta da gravidade do estado da saúde pública. Mas, por enquanto, as mudanças são percebidas mais por meio de iniciativas polêmicas, como o Mais Médicos, enquanto persiste o medo nas ruas e os professores continuam longe de ter “o salário de um deputado e o prestígio de um jogador de futebol”. O Congresso preocupou-se em impor mais rigor a crimes envolvendo corrupção, tornou suas votações mais transparentes em alguns casos, facilitando o acompanhamento por parte dos cidadãos. Continua, porém, devendo uma reforma política ampla. Ampla o suficiente para levar os eleitores a recuperar a confiança perdida em seus representantes escolhidos pelo voto.

A exemplo de outros movimentos disseminados pelo mesmo processo de “propagação viral” como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e os Indignados, na Espanha, o nosso não conseguiu tornar reais todos os desejos manifestados nos cartazes. Depois de junho de 2013, porém, o relacionamento entre instituições públicas e privadas com seus públicos, nelas incluídas a própria mídia, nunca mais será o mesmo. O legado das manifestações populares terá mais consistência se contribuir para reforçar a cidadania e a ética entre os brasileiros.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ATO EM APOIO À BARBOSA POR DIREITO A ARMAS E MENOS IMPOSTOS

FOLHA.COM 15/12/2013 - 20h37

Ato pró-Barbosa recolhe pedidos como direito a armas e menos impostos


DE SÃO PAULO


O evento foi convocado por maçons e por uma entidade da sociedade civil como um ato em apoio a Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, pela condução do processo do mensalão. Mas não ficou nisso.

Os 29 manifestantes que compareceram ao Parque do Povo, em São Paulo, bem como os visitantes do local, podiam registrar pedidos em filipetas distribuídas por um Papai Noel, que, entre uma badalada de sino e uma risada forçada, suava debaixo da roupa vermelha. Já no início da manhã, a temperatura era de 27°C no Itaim Bibi, zona oeste.

Depositados em uma urna acrílica, os pedidos davam o tom do protesto: foram solicitados "um país justo de impostos" e a Lei do Armamento, para a "plena defesa do cidadão: poder portar armas".

Os papéis seriam todos encaminhados ao gabinete de Dilma Rousseff, informava, no megafone, o líder do ato, o empresário Joe Diwan. Os organizadores do protesto ressaltaram que os visitantes do parque tiveram liberdade de escrever o que quisessem, e que os pedidos depositados na urna não representam os ideais do movimento.

Um dos participantes sugeriu o seguinte: os políticos deveriam se fiar à lista de reclamações do Procon para conhecer as necessidades do povo. "Estão lá: celular e banco", disse Jose Chehembar. Com faixas, cartazes e apitos- -e ladeado por quatro guardas-civis metropolitanos-- o grupo se postou no gramado central do parque para cantar o hino nacional.

A associação envolvida no ato, Movimento Brasil Merece Mais, causou polêmica recente ao organizar uma rede de segurança privada em Higienópolis (centro), em que moradores podem "denunciar" a presença de algum "andarilho ou pedinte" no bairro.