A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O BRASIL DE QUE AS ELITES TÊM NOJO



ZERO HORA 10 de abril de 2015 | N° 18128


CLAUDIR NESPOLO*




Com altos e baixos, o Brasil passa por um gradual e sofrido processo de combate à desigualdade. Prova disso é a inclusão de mais de 20 milhões de trabalhadores no mundo do trabalho; a expansão de políticas públicas que elevam milhares de brasileiros à condição de cidadãos e o aperfeiçoamento de políticas sociais, como educação e saúde. É digna de nota a extraordinária ampliação do ensino universitário, técnico e tecnológico, cujos resultados já estão sendo percebidos. Outro fenômeno importante é o combate à desigualdade territorial, que leva as condições de crescimento econômico para regiões até então relegadas ao esquecimento.

Vivemos a emergência de uma nova classe trabalhadora jovem e batalhadora, mais escolarizada e sedenta por mais e melhores empregos. É perceptível o protagonismo das mulheres, dia a dia mais decididas a ocupar o seu lugar na sociedade. Emerge também uma juventude que não tolera preconceitos, racismo e discriminações comportamentais. As elites sabem que a consolidação de um Brasil progressista, democrático, inteiro, confiante e que sabe lutar por seus direitos é a maior ameaça aos seus privilégios.

É desse novo Brasil que as elites têm nojo e temor, por isso querem contaminá-lo com ideologias conservadoras e mobilizá- lo na direção do retrocesso.

Nenhum país diminuiu a desigualdade sem enfrentar os detentores de privilégios. O Brasil não será diferente. Para nós, a emergência de uma direita mais organizada, intolerante e disputando uma agenda de retrocesso é sintoma do nosso avanço na democracia e na conquista de direitos. Nós, da CUT, fazemos parte desse grande processo de enfrentamento da desigualdade, que é superior à presidenta e ao partido que representa. Hoje, temos melhores condições, daí o nosso apoio, mas não é um apoio ingênuo e alienado. O nosso DNA é lutar pela melhoria das condições de vida e de trabalho. Por isso estaremos no dia 15 de abril protestando contra a aprovação do PL 4.330 (terceirização) e no 1º de Maio lutando por mais democracia, desenvolvimento e direitos com a pauta da reforma política, taxação das grandes fortunas, democratização dos meios de comunicação e fortalecimento das instituições do Estado para coibir a corrupção etc.

*Presidente da CUT-RS


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Argumento comum usado pelos regimes socialistas é jogar a culpa na tal de "elite", como se um país pudesse sobreviver sem esta "elite", a que investe no país, a que garante empregos ao povo e a que gera progresso, desenvolvimento, qualidade de vida e paz social. Foi justamente a "exclusão"destas "elites" que fez o regime socialista falir em todo o mundo. A China sobrevive justamente por apoiar as tais "elites", garantindo investimentos e recursos para prover toda a nação. Portanto, ao tratar as "elites" como inimiga do povo, os ideólogos socialistas acabam sacrificando o povo que tanto dizem defender.

A PAUTA QUE ANIMA O BRASIL



ZERO HORA 10 de abril de 2015 | N° 18128


RAFA BANDEIRA*


Dia 15 de março foi um dia histórico. Em todo o país, milhões de pessoas saíram às ruas para protestar contra os desmandos de um governo que perdeu a confiança do povo de uma maneira poucas vezes vista na história do Brasil.


O Movimento Brasil Livre tem orgulho de fazer parte dessa história. Nunca pretendemos posar de “donos” dessas manifestações, que foram a maior mobilização popular da história do Brasil. Somos estudantes, trabalhadores assalariados, empresários, profissionais liberais, funcionários públicos – somos brasileiros indignados com os rumos da política nacional e dispostos a gastar nosso tempo e energia para que possamos viver em um país melhor. Nosso objetivo foi e segue sendo o de atuar como um grupo que influencie positivamente a pauta dos protestos, defendendo sempre a democracia, as liberdades individuais e o Estado democrático de direito. Somos contra qualquer ditadura, seja de cunho político ou econômico.

Fomos às ruas no dia 15 de março e voltaremos no dia 12 de abril. Nossa pauta seguirá sendo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Trata-se de um mecanismo democrático garantido por nosso ordenamento jurídico e visa a resguardar a instituição da Presidência da República em situações extremas envolvendo o ocupante do cargo.

Foi utilizado para remover Collor por seu envolvimento em um escândalo de corrupção. Os baixíssimos índices de popularidade da presidente Dilma também lembram os de Collor na antevéspera do impeachment e são um reflexo da justificada insatisfação popular que vem tomando conta do Brasil.

Em Porto Alegre, foram 120 mil pessoas saindo às ruas por um Brasil melhor, mais justo e verdadeiramente livre e democrático. E hoje entendemos que a construção do país em que queremos viver passa pela abertura do processo. O povo brasileiro não permitiu que fosse feito de bobo em 1992, e certamente não permitirá em 2015. Essa é a pauta que nos anima, movimenta o Brasil e que está nas ruas.

*Porta-voz do Movimento Brasil Livre no RS

quarta-feira, 8 de abril de 2015

POR MAIS CIVILIDADE NA REDE



ZERO HORA 08 de abril de 2015 | N° 18126


EDITORIAIS



Ao lançar um programa visando à prevenção e ao enfrentamento de violação de direitos humanos na internet, o governo faz um esforço importante e delicado para conciliar dois princípios inegociáveis: liberdade de expressão e de informação e a garantia dos direitos individuais. A intenção é relevante pela necessidade de conter abusos de quem se vale da rede como veículo para a disseminação de intolerância e preconceito. Mas são procedentes os alertas de que um gesto bem-intencionado como esse não pode se transformar em pretexto para a imposição de qualquer espécie de mordaça nos internautas.

Não por acaso, a própria presidente Dilma Rousseff fez questão de destacar ontem, na cerimônia de lançamento do programa – que inclui uma ouvidoria para receber denúncias online – o seu “compromisso inabalável” com a liberdade de expressão. Como extensão da vida real, a internet não pode se submeter a restrições oficiais, tão ao gosto de países de pouca ou nenhuma tradição democrática. Da mesma forma, não tem como ser usada como veículo de propagação de mensagens que atentam contra a dignidade humana, como as de cunho racista.

Assim como as ruas, as redes sociais exigem o cumprimento de regras mínimas para que possam propiciar benefícios aos usuários. Mas é importante que o poder público aposte também na prometida campanha de orientação sobre o comportamento social na internet. Quanto mais os internautas forem educados e bem informados, maiores serão as suas chances de observarem preceitos mínimos de convivência.

segunda-feira, 30 de março de 2015

POPULAÇÃO SE REVOLTA COM SUMIÇO DE DINHEIRO PÚBLICO

G1 FANTASTICO Edição do dia 01/02/2015


Prefeitura de Mangaratiba some com R$ 60 milhões e revolta população. Ministério Público encontrou esquemas de fraudes, propinas e desvios de dinheiro na gestão do prefeito Evandro Capixaba.






O repórter secreto do Fantástico vai investigar por que uma cidade de menos de 40 mil habitantes precisa comprar 1,8 milhão de sacos de lixo. Essa cidade é Mangaratiba, no estado do Rio, onde o prefeito está sendo investigado por fraudes que podem chegar a R$ 60 milhões.

Eh, vidão à beira-mar, passeio de lancha, banho de sol na varanda da mansão. Que maravilha é a natureza.

“E o esgoto em uma situação dessa", reclama uma moradora.

“Isso aqui é tudo sujeira, muita sujeira. A gente passa mal”, conta uma senhora.

“Pede o prefeito para vir aqui. Será que ele bebe essa água?”, indaga um homem.

A população de Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, está revoltada. “A gente vê a saúde precária, a gente vê educação com problemas, o transporte nosso e a água estão precários”, conta um morador.

“Eles aprovam obras, obras aprovadas, mas não feitas. A gente quer que a obra seja concretizada”, diz uma mulher.

Tanta coisa faltando porque, em cerca de 20 meses, R$ 60 milhões foram surrupiados da prefeitura, segundo estimativa do Ministério Público.

É por isso que o repórter secreto do Fantástico está em Mangaratiba, e todo brasileiro decente quer saber: Cadê o dinheiro que tava aqui?

Quando o repórter secreto chega à cidade, encontra protestos. Tem cartaz perguntando ao prefeito Evandro Bertino Jorge, do PSD, conhecido como "Capixaba": cadê os R$ 60 milhões que sumiram da cidade.

E tem adesivo, feito pelos próprios manifestantes, perguntando: cadê o dinheiro que tava aqui? Muita indignação. E muito constrangimento de fazer papel de palhaço no mau sentido.“Eu nunca fiz isso na minha vida, mas eu fui obrigada. Eu não quero morar em um lugar sujo”, conta a professora Marilúcia Gomes.

E a bronca é a seguinte: pela quantidade de sacos de lixo que a prefeitura supostamente comprou, Mangaratiba deveria ser o lugar mais limpo do mundo: 1,8 milhão sacos de lixo. Como na verdade a cidade precisa de 17 mil sacos por mês, essa suposta compra daria para 105 meses. Quase nove anos. Resolveria um problemão para os futuros prefeitos.

Só que não. “Não existiam sacos de lixo”, diz o homem que foi secretário de serviços públicos da prefeitura na gestão que teria feito a tal compra, em 2012. Ele diz que, depois de descobrir que era tudo fraude, foi falar com o prefeito Evandro Capixaba.

“Mostrei a fraude para ele, falei que não existia entrega de sacola, que não poderia ficar assinando notas de recebimento de sacola que não existia. Aí eu passei a ser um funcionário que não servia para ocupar a secretaria”, conta o ex-secretário de serviços públicos Marco Antônio da Silva Santos.

Depois, o então secretário decidiu contar tudo ao Ministério Público. “A partir daí a gente começou a diligenciar, identificar empresas, os seus sócios e como essa fraude ocorreu. Parte do pagamento ficava com os sócios, e o maior montante entregue na mão de representantes de gestores daquele município”, explica o promotor de Justiça do Rio de Janeiro Alexandre Veras.

O repórter Eduardo Faustini foi atrás da empresa responsável pela venda fraudulenta. Achou uma das sócias do negócio.

Fantástico: Como é que você se tornou sócia dessa empresa?
Mulher: Na verdade, eu fui chamada para ser secretária da empresa. Me pediram para emprestar o nome. Como eu era empregada da empresa, não vi problema. Quando eu comecei a me inteirar do assunto da empresa, vi do que se tratava, pedi que retirassem o meu nome.

Para o Ministério Público, ela não foi usada, a sócia é, sim, parte do esquema. As investigações do Ministério Público levaram a operações de busca e apreensão como uma feita com o apoio da Polícia Federal.

“Nós apreendemos aproximadamente 100 processos licitatórios e a partir daí a gente teve a chance de encontrar ali uma gama de informações que indicam a fraude realizada por esse grupo”, conta o promotor Alexandre Veras.

A quadrilha fraudava várias licitações. Em uma das frentes da falcatrua, um filho e um sobrinho do prefeito, mais o então procurador-geral do município e dois secretários eram sócios de empresas vencedoras das licitações.

“Qualquer porta que se bata, qualquer notificação que se faça, passa, inevitavelmente, por um familiar ou por uma pessoa próxima do prefeito”, diz o promotor Alexandre Veras.

Segundo as investigações, eles conseguiam dar uma aparência de legalidade à negociata forjando editais de licitação em um jornal do Rio, o Jornal "O Povo". A lei exige que o chamado edital de licitação seja publicado em um jornal. O edital é um aviso: os interessados ficam sabendo que a administração pública quer comprar produtos ou contratar serviços. A publicação no jornal é um documento obrigatório, processo da licitação, que é enviado aos órgãos de fiscalização de uso de dinheiro público.

Foi aí que a quadrilha achou que estava dando o pulo do gato. O jornal que estava na banca não era o mesmo que era arquivado no processo.

Ou seja, vamos dizer que um jornal fosse um exemplar do jornal da semana passada. Não tem nenhum aviso de edital de licitação da prefeitura de Mangaratiba. Aí a quadrilha mandava fazer uma página nova, trocava um edital de verdade por um edital de mentirinha, para fingir que a licitação tinha sido comunicada ao público. Assim, ficava tudo certo. A página falsa funcionava como uma prova de que os devidos procedimentos tinham sido seguidos.

Por exemplo: a página da edição do dia 21 de junho de 2012 do jornal "O Povo", não tem edital da prefeitura. Mas a mesma edição do mesmo jornal do mesmo dia do mesmo ano, tem.

Agora preste atenção nessa conversa. Foi gravada na sede do Jornal "O Povo" por uma pessoa que denunciou a fraude. É uma testemunha do Ministério Público, e finge que representa o prefeito de Mangaratiba para dar o mesmo golpe. Ele conversa com funcionários do jornal.

Homem: Como é que funciona essa p... do jornal?
Jornal: E com a data que ele quer, isso aí. Ainda mais que é Tribunal de Conta.

O ex-funcionário da gestão do prefeito Evandro Capixaba confirma a denúncia. “Fazia uma publicação com data anterior e montar dentro do jornal para constar na prefeitura. Para apresentar para o Tribunal de Contas, para a promotoria, para quem solicitasse”, conta o ex-subsecretário de Serviços Públicos Iata Anderson.

“O que nós temos naquele município é uma quadrilha trabalhando a fim de se locupletar do dinheiro público. Nós encontramos laranjas, falsidades de documentos públicos, privados, fraudes em licitação, publicações fraudadas em jornal, pagamento de propina, desvio de dinheiro, não-entrega de produtos contratados pelo município. Inúmeras fraudes”, afirma o promotor Alexandre Veras.

Isso, em uma cidade que atrai tanta gente bem de vida para desfrutar das belezas naturais. Infelizmente, também existe outra Mangaratiba.

Fantástico: Qual é essa Mangaratiba?
Promotor: É a Mangaratiba pobre, abandonada, sem calçamento, sem saneamento básico. Sem água.

O problema da água atinge a cidade há cerca de um ano, portanto uma situação que antecede a estiagem na região Sudeste. “O esgoto do vizinho, vem de lá e cai na minha porta”, reclama uma moradora.

“Bebo dessa água. Água potável é conectada com água de esgoto. Nós não somos porcos, nós somos gente”, afirma Marilúcia Gomes.

“Essa é a água que nos oferecem, e o governo que tá aí nada faz. Isso aqui é uma pouca vergonha. Olha aí”, conta outro morador.

Até a mulher que o Ministério Público aponta como parte do esquema admite que roubar dinheiro público é maltratar o cidadão. “O dinheiro que eu tiro de uma prefeitura e eu banco uma viagem para Miami, eu estou matando um cidadão”, confessa.

Em nota, a direção do Jornal "O Povo" nega que tenha prestado serviços e recebido dinheiro da prefeitura de Mangaratiba. A nota afirma que o jornal está contribuindo com o Ministério Público para a apuração real dos fatos.

Também em nota, o prefeito Evandro Bertino Jorge, o Evandro Capixaba, repudia as denúncias de que houve falsificação de página de jornal e diz que o dinheiro público é aplicado com responsabilidade em Mangaratiba.

Já o Ministério Público pede na Justiça que o prefeito Capixaba, bem como secretários e ex-secretários e servidores municipais, respondam por improbidade administrativa.

“Cadê o dinheiro que a gente precisa melhorar o nosso município e nada é feito, cadê o dinheiro daqui?”, pergunta um morador.

domingo, 29 de março de 2015

DEPOIS DA INTERNET, A POLÍTICA NÃO SERÁ MAIS A MESMA


REVISTA ÉPOCA  29/03/2015 10h13

As manifestações de 15 de março mostram como as redes sociais ajudaram os cidadãos a ganhar maior protagonismo e influência na política

BRUNO FERRARI E THAIS LAZZERI COM ARIANE FREITAS, IGOR UTSUMI, LEOPOLDO MATEUS E LÍVIA CUNTO SALLES



MOBILIZAÇÃO
Manifestantes na Avenida Paulista, em São Paulo. O protesto reuniu cerca de 1 milhão de pessoas, segundo a PM (Foto: Bruno Fernandes / Fotoarena)
AGITADOR DIGITAL
O empresário Rogerio Chequer, do Vem pra Rua, em São Paulo. O movimento atraiu 367 mil seguidores no Facebook (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)

A mobilização do último dia 15 de março, que levou 2,3 milhões de brasileiros às ruas em protestos contra a corrupção e contra o governo Dilma Rousseff, começou com o toque de um celular. No início do ano, um dos quatro aparelhos usados pelo administrador de empresas Marcello Reis, de 40 anos, de São Paulo, registrou a chegada de uma mensagem via WhatsApp, o mais popular aplicativo de troca de mensagens gratuitas do Brasil. A mensagem convocava para manifestações contra a falta de água em São Paulo, o reajuste de 50 centavos na tarifa de ônibus da cidade e contra a corrupção. O mesmo torpedo irrompeu na tela do smartphone do empresário Rogerio Chequer, de 46 anos, sócio de uma agência de comunicação em São Paulo. A origem da mensagem é controversa. Segundo Reis, quem disparou a convocação para a mobilização foi o Movimento Passe Livre (MPL). Seria irônico, pois o MPL também foi protagonista das manifestações de junho de 2013 – mas o MPL, ouvido por ÉPOCA, negou a autoria do viral.


Sobre o que aconteceu a partir dali, não há dúvidas e vai virar história. Marcello Reis, um dos organizadores do Revoltados On Line, movimento que tem 739 mil seguidores no Facebook e agita a bandeira do impeachment da presidente Dilma Rousseff, gravou um vídeo com uma convocação para a mobilização no dia 15. Chequer, um dos coordenadores do Vem pra Rua – movimento anticorrupção criado na internet em novembro de 2014, que atraiu 367 mil seguidores com seus apelos “aos indignados com a nossa classe política” –, também aderiu. Usaram tablets, smartphones e computadores para espalhar a chamada às ruas. A mobilização cresceu em nível nacional, com o engajamento de cidadãos descontentes e outros pequenos movimentos de caráter local, como o Cariocas Direitos, liderado pelo engenheiro Denis de Abreu, de 37 anos, ex-líder estudantil e ex-integrante do PMDB. Em pouco tempo, ergueu-se uma onda gigantesca que ultrapassou as fronteiras da bolha virtual e encheu as ruas naquel domingo. “O desrespeito ao povo brasileiro é nosso maior fator de engajamento”, diz Chequer, do Vem pra Rua. “E que melhor ferramenta para alcançar mais gente do que a internet?”


Ele tem razão. Arregimentar milhões de pessoas num prazo tão curto era impossível nos tempos dos megafones e caminhões de som. Na era das redes sociais, no entanto, um mero clique de compartilhamento de uma mensagem ou de um vídeo pode ser um gatilho para reunir uma multidão em torno de uma causa. Basta que as mensagens tenham o conteúdo e o tom corretos para engajar emocionalmente seus destinatários e sejam distribuídas pelos canais adequados para alcançar o maior número de cidadãos. “As redes sociais têm o poder de construir uma tensão emocional entre pessoas espalhadas por vários bairros e cidades”, diz o italiano Paolo Gerbaudo, professor de cultura digital e sociedade do King’s College, de Londres, e autor do livro Tweets and the streets (Tuítes e as ruas, na tradução em português). “Elas podem criar um senso contagioso de antecipação ou de ímpeto.” Segundo Gerbaudo, isso se deve a uma característica das redes sociais. Elas permitem conversas abertas ao público, ao mesmo tempo que são canais para criar uma intimidade entre os mais diversos interlocutores.

Vive-se um segundo momento do uso das redes sociais na política. Acabou a era dos “manifestantes de sofá”, que se limitavam a criar grupos de protestos e a assinar petições on-line. Elas servem, agora, como ferramenta para levar gente para a rua. E, com isso, influenciam a agenda dos governantes. Depois das manifestações de 15 de março, a presidente Dilma Rousseff anunciou um pacote anticorrupção para mostrar que ouvira a voz das ruas. A combinação entre internet e as ruas é explosiva, mas ela não substitui as instituições próprias da democracia. Passeatas não mudam leis, não derrubam governos, não promovem mudanças radicais. Quem faz isso são os representantes eleitos pelo povo. A política nunca mais será a mesma porque, para esses representantes, não é mais possível ignorar a voz das ruas. No Brasil, o primeiro capítulo dessa nova tendência ocorreu em junho de 2013. O segundo foi agora, com a reunião de 2,3 milhões de pessoas em várias cidades brasileiras em 15 de março. É tanta a facilidade para convocar gente via redes sociais que seria ingenuidade dizer que vai parar por aí. Já existe outra manifestação convocada para o dia 12 de abril, pelo Movimento Brasil Livre, um dos responsáveis pela organização do 15 de março.


O marco inicial do casamento entre ruas e redes foi a Revolução Verde, que ocorreu no Irã em 2009. Na ocasião, com os meios de comunicação sob vigilância e após denúncias de manipulação das eleições na vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad, os iranianos usaram o Twitter e outras redes sociais para convocar manifestações que abalaram o regime teocrático dos mulás. Os militantes políticos descobriram, assim, um primeiro uso das redes sociais: burlar a censura. Um segundo momento ocorreu nos protestos contra o presidente Hosni Mubarak em janeiro de 2011. Redes sociais livres de monitoramento ajudaram na convocação dos manifestantes, que chegaram a 2 milhões. Elas também foram fundamentais para divulgar o movimento no mundo, especialmente nos países muçulmanos – desencadeando o que ficou conhecido como Primavera Árabe. As manifestações de junho de 2013 no Brasil foram igualmente desencadeadas pelas redes sociais. Entidades como o Movimento Passe Livre, o MPL, usaram o Facebook para capitalizar o descontentamento da população com a violência policial que marcou uma das primeiras manifestações – na qual jornalistas chegaram a ser feridos com balas de borracha. Por fim, as passeatas de 15 de março consagraram o WhatsApp como ferramenta para arregimentar manifestantes.

PRIMEIRO CAPÍTULO
Protestos em São Paulo em junho de 2013. Reivindicação por melhores serviços (Foto: Mauricio Lima/The New York Times)

As manifestações se beneficiaram do aumento exponencial, no Brasil, do acesso a tecnologias digitais. Os brasileiros donos de smartphones eram pouco mais de 30 milhões durante as jornadas de junho de 2013. Hoje, segundo dados do Ibope, são 58,6 milhões. O aplicativo WhatsApp mais que dobrou sua base de usuários no país e se popularizou como “zap zap”. O último dado oficial, divulgado em meados de 2014, dizia que, dos 468 milhões de usuários do WhatsApp no mundo, 38 milhões estavam no Brasil. Hoje, segundo estimativas não oficiais (o WhatsApp não informa mais os dados), são mais de 50 milhões de brasileiros trocando mensagens, fotos e vídeos pelo aplicativo. Junto com a evolução da qualidade das câmeras dos celulares, isso gerou também um fenômeno comportamental: a onda do selfie. Selfie sozinho, em família ou com o pau de selfie. E, agora, selfie em manifestações. O recurso foi muito usado nas passeatas do último dia 15 – em que muitos fizeram questão de mostrar a si próprios em meio a policiais que escoltavam pacificamente os manifestantes. Isso acaba tendo um efeito multiplicador. Primeiro, as redes sociais convocam os manifestantes. Depois, por meio dos selfies, os manifestantes que estão na rua estimulam a participação de mais e mais manifestantes.


“Os usuários descobriram que podem influenciar politicamente com seu pronunciamento público”, diz Carlos H. Moreira Jr., diretor de desenvolvimento de mercados do Twitter para a América Latina. “Isso é uma mudança de comportamento.” Na linguagem dos acadêmicos, esse processo é descrito como o “empoderamento do cidadão”. Na prática, ele se traduz na preferência por alguns termos ou palavras de ordem. ÉPOCA teve acesso a uma análise exclusiva realizada pelo Twitter em parceria com o Ibope, que acompanhou 609 mil tuítes do dia 1º de março até o início do dia 15. O objetivo era entender a agenda das manifestações e quais personagens estavam mais associados a ela. Segundo a análise, 40% dos tuítes faziam referência ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Nos cinco temas mais citados, apareceram também corrupção (4%), a CPI da Petrobras (2,2%) e golpe militar (menos de 1%). Isso mostra que, se as redes sociais potencializam a emoção dos usuários, foi o sentimento antipetista que encheu as ruas no dia 15.


Sem pesquisas oficiais como a feita pelo Twitter e pelo Ibope, os organizadores das manifestações de 15 de março entenderam a mudança de comportamento do público. Mesmo com ideologias e estilos bem diferentes, eles atuam de forma muito parecida nas múltiplas plataformas virtuais. Em primeiro lugar, eles se estruturaram para atender a vontade dos brasileiros de extravasar suas opiniões e sua indignação. Todos os movimentos postaram vídeos, imagens e mensagens dos seguidores – inclusive das reações de repúdio aos discursos da presidente Dilma Rousseff. Assim, o número de curtidas e compartilhamentos aumentou exponencialmente. Eles também se organizaram internamente para chegar ao maior número de pessoas. O Movimento Vem pra Rua tem 30 organizadores e 20 líderes regionais voluntários. Eles elegem o material que terá maior propagação nas redes e os temas que precisam de esclarecimentos pontuais. As manifestações podem ser espontâneas e ter coordenadores pulverizados – mas esses coordenadores usam de estratégia em seu trabalho.

SEGUNDO CAPÍTULO
Protestos em São Paulo em 15 de março. O sentimento antipetista uniu os manifestantes (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Marcello Reis, do Revoltados On Line, diz passar 18 horas por dia conectado. Parte desse tempo é usada para escolher os administradores da página (20 no total), que podem publicar conteúdo sem restrição, e os 150 colaboradores, responsáveis pela interlocução com a imprensa nacional e estrangeira, entre outras atividades. No processo de seleção dos colaboradores, Reis acompanha, por 90 dias, o perfil do usuário, sem avisá-lo. Se aprovado, ele convida o potencial colaborador para uma conversa on-line. O trabalho, diz Reis, garante a audiência. A página do Revoltados no Facebook teve mais de 41 milhões de visualizações desde a criação, em agosto de 2010.

Ao longo da história, as ruas se consolidaram como um palco privilegiado das manifestações políticas. Isso vale para a Revolução Francesa e para os protestos de maio de 1968 – e, no Brasil, para demonstrações como a campanha das Diretas Já ou o movimento que pediu o impeachment de Fernando Collor em 1991. A diferença é que agora entrou em ação uma ferramenta tecnológica poderosa, com capacidade de dar voz e poder de influência a qualquer pessoa com um smartphone na mão. Com essa tecnologia, as ruas – e os cidadãos nelas – ganharam poder de influenciar a agenda política. Um exemplo da influência dos novos movimentos gerados pelas redes sociais se vê nos Estados Unidos. O movimento OcupemWall Street surgiu em reação às consequências da crise do mercado financeiro desencadeada pela quebra do Lehman Brothers, em 2008. O movimento – cujo slogan, criado por publicitários, era “Somos os 99%” – eclodiu em Nova York em setembro de 2011. E colocou definitivamente o tema da desigualdade na agenda política americana. Nas democracias, como diz o pensador espanhol Manuel Castells, a dinâmica da política será cada vez mais essa. As ruas influenciarão mais e mais a agenda – mas continuará cabendo aos partidos políticos, às instituições, como o Congresso Nacional, e aos governos eleitos adaptarem-se à nova realidade e encaminhar as respostas e as soluções para os gritos que vêm das redes.

terça-feira, 17 de março de 2015

A PESSOALIZAÇÃO DA REVOLTA



ZERO HORA 17 de março de 2015 | N° 18104


JULICE SALVAGNI*



Sobre o atual torvelino de manifestações políticas, pensei que as trocas de farpas já significavam que havíamos atingido o ápice da comoção. Mesmo em meio ao declarado desrespeito, algo de ingênuo me levava a crer que o comportamento repugnante dos coletivos, autorizados e impulsionados em suas próprias relações desmedidas, pudesse ter ficado arquivado nos livros de História. Entretanto, muito mais do que isso, são crescentes as revelações desprezíveis, por meio de agressões verbais, físicas ou mesmo ameaças de morte, vindas de todos os lados desse cabo de guerra, que não salvaguardam os que se posicionam politicamente.

Pela pessoalização das violências, é notável que o conhecimento crítico e argumentativo sobre política é escasso, ou não é suficiente para justificar tamanha bestialidade dos acontecimentos. Parte-se, então, para a linguagem da tortura, que é quando o alvo da afronta é o ser humano em sua individualidade.

Ao invés de corromper a daninha política em prol da construção de um país melhor, está se produzindo uma digladiação mútua por egos, poderes e dinheiro, protagonizado especialmente pelos senhores das bandeiras. Enquanto houver esse exército doentio e cego, que prefere perder seus ideais a repreender o seu representante, vamos continuar cativando uma catastrófica construção do ódio, que nos distancia paulatinamente da prática de uma convivência em sociedade e, especialmente, de um debate efetivamente político.

As tentativas das legendas, pela voz dos seus discípulos, de negar e encobertar a putrefação política estão de forma direta contribuindo para a manutenção desse modelo corrupto, desigual e elitista. A má notícia é que não existe um partido de referência que se salve.

Carecemos, acima de tudo, de uma urgente limpeza interna nas bandeiras, para que os próprios partidos sejam críticos de si mesmos, dispensando a má índole e a interferência privada, possibilitando a criação de outro caráter político. Encobrir a imundície alheia, acima de qualquer critério moral, é coisa do crime organizado. Os ultrajes só comprovam o tamanho da podridão que um fanatismo iludido é capaz de produzir, enquanto a população segue como massa de manobra de uma engrenagem política solidificada em sintonia com as corporações. Aviso aos que se perderam: o caminho para a construção de um mundo melhor é para o outro lado.

*PROFESSORA UNIVERSITÁRIA

CORRUPÇÃO NA POLÍTICA MOTIVOU IDA À MARCHA



ZERO HORA 17 de março de 2015 | N° 18104


PROTESTO DO PARCÃO À REDENÇÃO



INSTITUTOS DE PESQUISA traçaram o perfil dos participantes da manifestação realizada domingo.

Descontentamento com a classe política, com a corrupção e necessidade de mudanças foram os principais motivos que levaram pessoas às ruas na Capital no domingo, conforme dois institutos de pesquisa que entrevistaram participantes da marcha que saiu do Parque Moinhos de Vento.

Em levantamento do Instituto Index, a corrupção representou por larga margem o principal problema do país, com 60,1% das citações, enquanto a administração pública foi a segunda opção mais lembrada, com 8,6% das menções.

Além disso, 78,1% dos entrevistados opinaram que os desvios aumentaram muito nos últimos quatro anos, durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, e 86,4% consideram o combate à corrupção no Brasil como “não eficiente” e “nada eficiente”.

Em escala de um a cinco para o nível de corrupção, a maioria dos entrevistados apontou o grau máximo tanto para partidos políticos (76%), quanto para Congresso (73,4%) e para a Presidência da República (71,3%).

Na pesquisa do Instituto Amostra, em opção sem resposta múltipla, 78,8% dos entrevistados disseram acreditar que o movimento de protesto não pode ter a participação de partidos e políticos, contra 20% que admitem essa possibilidade.










Como cada um contou a multidão

BRUNA VARGAS


DATAFOLHA E POLÍCIA MILITAR usaram métodos diferentes para mensurar presença em São Paulo



Após os protestos, o Brasil dormiu e acordou sem saber ao certo quantos manifestantes passaram pela Avenida Paulista, ponto mais movimentado entre as manifestações de domingo. Enquanto a Polícia Militar de São Paulo divulgava 1 milhão de pessoas, o instituto Datafolha garantia que os insatisfeitos não passavam de 210 mil. Em Porto Alegre, segundo a Brigada Militar, teriam sido mais de 100 mil nas ruas.

– Não tem nada muito técnico nesses cálculos. Normalmente, dão um número redondo – avalia o estatístico Jéferson Daniel Matos, que atuou na Fundação de Economia e Estatística e agora está no Tribunal Regional do Trabalho.







OS CÁLCULOS
POLÍCIA MILITAR DE SÃO PAULO
O cálculo na Avenida Paulista e adjacências foi feito por uma ferramenta tecnológica chamada “Copom Online”, que usaria recursos de mapas e georreferenciamento baseados em imagens aéreas captadas por um helicóptero. Para realizar a contagem, foi adotado como constante o número de cinco pessoas por metro quadrado.
DATAFOLHA
Para os protestos de domingo, foram tiradas as medidas da Avenida Paulista, desconsiderando os canteiros. A área de 16 mil metros quadrados (m2) foi dividida em setores, distribuídos entre uma equipe de 60 pessoas. Elas faziam a contagem de manifestantes por metro quadrado, de hora em hora.
– Esse é o ponto essencial para uma medição mais precisa. Se considerarmos apenas uma visão aérea e contarmos cinco pessoas por metro quadrado, chegamos naquele 1 milhão que a polícia divulgou – diz Mauro Paulino, diretor-geral do Instituto Datafolha.
O procedimento ocorreu ao longo de toda a via, entre 14h e 18h. No “horário de pico”, às 16h, o Datafolha registrou 188 mil pessoas no local. Ao todo, 210 mil teriam passado pelo protesto.
Além da contagem, as equipes aplicaram questionários em amostragem de 330 manifestantes para saber o horário em que chegaram ao local. O público foi dividido entre “persistentes”, os que acompanharam o protesto do início ao fim, e “entrantes”, que fizeram parte do percurso. A soma dos dois dados resultou no total divulgado.
BRIGADA MILITAR
De cima da passarela da Avenida Goethe, os policiais observaram a movimentação ao longo da via a partir das 15h. Segundo o coronel Paulo Stocker, subcomandante-geral da BM, a média ficou entre cinco e seis pessoas por metro quadrado. Ainda assim, a BM preferiu usar quatro pessoas por metro quadrado para o primeiro cálculo: 45 mil manifestantes.
– Depois, observamos um grupo que carregava uma faixa preta, posicionado no fim da via. Quando ele completou o trajeto, a Goethe seguia cheia. Aí chegamos em 90 mil pessoas – explica Stocker.
Os 10 mil restantes seriam as pessoas que seguiram transitando pela avenida “por cerca de 10 minutos após a última contagem”, somados a pessoas que ocupavam “os barrancos e o interior” do Parque Moinhos de Vento.