A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

OS WHITE BLOCS


Não atacam bancos: neles fazem operações sigilosas, aqui ou em paraísos fiscais


CHICO ALENCAR
O GLOBO
Publicado:26/12/13 - 0h00


Eles estão infiltrados no Estado brasileiro desde os seus primórdios: vieram com a Corte Absolutista de Dom João, em 1808. Não em naus menores, atrás das principais da esquadra que fugia da invasão napoleônica, mas bem ao lado da Família Real. Aqui compuseram a alta burocracia, renovaram os privilégios, aprofundaram a distância entre administração inchada e população desvalida. Propagaram a cultura da corrupção.

Eles não usam máscaras, pois suas caras de pau prescindem disso. Bem vestidos — os ternos de corte fino substituindo as perucas do século XIX —, têm incrível capacidade de renovação. Seus espaços no poder são mantidos como capitanias hereditárias. Arcaicos em suas práticas do tráfico de influência e enriquecimento ilícito, vestem a roupagem da “modernidade” das “tribos” da livre concorrência e do capitalismo sem riscos.

Eles não atacam bancos: esmeram-se em neles fazer operações sigilosas, aqui ou em paraísos fiscais, que passam ao largo dos órgãos de controle financeiro. Têm força junto aos grandes partidos e abortam qualquer investigação sobre suas movimentações milionárias, como nas CPIs do Banestado, Cachoeira/Delta e quantas outras surgirem tentando jogar luz em tenebrosas transações.

Crescidos na estufa dos negócios particulares, estão, anônimos, nas esferas dos três poderes da República. Nos Judiciários tentam comprar sentenças, envolver magistrados, fazer chicanas e absolver os poderosos. Regozijam-se quando a Justiça tarda e falha. Quanto mais ela pender sua balança para os ricos, melhor.

Nos Executivos, armam licitações dirigidas, beneficiam grandes empresas e estabelecem consórcios de propinas. Montam uma rede de “amigos” especializada em quebrar todas as barreiras republicanas que distinguem o público do privado, o interesse social do negócio mercantil.

Nos Legislativos, alavancam esquemas vitoriosos de financiamento empresarial de campanha e de publicidade despolitizadora. Assim elegem, além dos governos, sua “base de sustentação”, alimentada pela distribuição de cargos para nomeação de apaniguados. Direcionam as emendas orçamentárias para aqueles que possam se beneficiar de sua execução, cobrando retribuição.

Eles não gostam da claridade das ruas. Agem nos bastidores, justificando-se, no seu fatalismo interessado, com o “sempre foi assim”. Vandalizam o bem comum, frequentam as altas-rodas e têm certeza da impunidade.

Para enquadrá-los, é preciso desmontar a estruturas do poder oligárquico. Uma consigna, efetivamente praticada, também combateria essa chaga: LIMPE. De Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, princípios fundamentais da administração pública, inscritos no artigo 37 da Constituição Cidadã que nos rege, há 25 anos.

BRASILEIRO É OTÁRIO?



Americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes

RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO
Publicado:24/12/13 - 0h00


Sempre que vou aos Estados Unidos retorno com essa questão: somos um povo otário? Afinal, adoramos nos vangloriar de nossa “malandragem”, de nosso “jeitinho”, mas vivemos imersos em um mar de ineficiência, corrupção, carestia e criminalidade. Há malandro demais para otário de menos por aqui.

Os americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes, pelos quais pagaram um terço do valor que nós pagamos, e podem andar com vidros abertos e ter casas sem muros. Que otários!

Ainda bem que somos diferentes, desconfiamos do lucro, dos empresários, e delegamos ao papai Estado todo nosso destino. Temos agora até universidade marxista voltada exclusivamente para o trabalhador, para não deixá-lo “alienado”, e sim um camarada “politizado”, engajado na luta pela justiça social. Somos muito melhores!

Temos um governo metido nos piores escândalos de corrupção, mas ainda favorito para mais um mandato em 2014. A economia não cresce, paramos de gerar empregos, a inflação continua alta demais, cada vez mais gente depende de esmolas estatais, a carga tributária sobe sem parar, mas ninguém parece se importar. A Copa vem aí, e somos a pátria de chuteiras.

Após oito anos, os mensaleiros finalmente foram presos, mas ainda tentam vender a imagem de injustiçados. Um deles recebe amplo apoio dos artistas e “intelectuais” da esquerda caviar, pois teria um currículo louvável (comunista por acaso pode ter passado digno de aplausos?) e não teria roubado para si próprio. O outro se compara a Mandela.

E o PT faz evento oficial para defender os bandidos presos e atacar o STF, ao lado de uma presidente da República conivente, passiva, cúmplice. Alguém pode imaginar isso nos Estados Unidos? Claro que não. Eles não são tão compreensivos e cordiais como nós.

Estive em Miami e Orlando. Só brasileiro, nem preciso falar. Estamos por toda parte, comprando e comprando. “Consumistas burgueses”, diria um típico comuna. “Classe média fascista”, diria Marilena Chauí. Mas que mal há em desejar pagar um terço do preço que se paga no Brasil pelos mesmos produtos? Compram em Miami os que não são ricos a ponto de poder comprar no Brasil.

“Ah, mas é preciso financiar a justiça social”, alegam os esquerdistas. Ora, o governo americano é a polícia do mundo (felizmente), e nós precisamos de um governo ainda maior em termos relativos? Haja esmola, para pobre e para rico (BNDES).

Sem falar que, no Brasil, reina o culto do pobrismo. As esquerdas amam a miséria, não os pobres. E odeiam os ricos mais do que “amam” os necessitados. Não existem abutres sem carniça, não é mesmo?

O Brasil realmente testa nossa paciência. A impressão digital do governo inchado está em todas as cenas do crime, mas eis que boa parte da população pede, como solução para nossos males, mais governo! Seria cômico, não fosse trágico.

Mas é véspera de Natal, e não quero estragar a ocasião. Quero até aproveitar a oportunidade e fazer meus pedidos a Papai Noel. É verdade que ele tem toda pinta de marxista: usa roupa vermelha, distribui presentes pagos por terceiros, e coloca outros para fazer o trabalho pesado enquanto fica com a fama de bondoso. Não importa. Faço minha lista, na esperança de ser atendido:

1. Que o povo brasileiro possa acordar em 2014 e ter o bom senso de evitar um destino trágico como o da Argentina ou da Venezuela para nosso lindo país.

2. Que o funk não seja mais visto como “apenas” uma forma artística diferente, tão boa quanto música clássica ou ópera.

3. Que a doutrinação marxista nas nossas universidades chegue ao fim e que cada vez mais alunos e professores tenham a coragem de se rebelar contra tal covardia.

4. Que a hegemonia de esquerda na política nacional seja finalmente vencida e que algo NOVO possa surgir como alternativa.

5. Que esses ecochatos e politicamente corretos arrumem algum passatempo individual e nos deixem em paz para vivermos de acordo com nossas preferências pessoais.

6. Que todos aqueles que conseguem defender a ditadura cubana em pleno século 21 resolvam abandonar a hipocrisia e comprar uma passagem só de ida para a ilha-presídio caribenha.

7. Que os brasileiros passem a ler mais, de preferência bons livros.

8. Que todos aqueles que querem “salvar o mundo” antes arrumem o próprio quarto.

9. Que todos lembrem de que solidariedade é algo voluntário, não compulsório, via impostos dos outros.

10. Que nosso povo seja menos “malandro”, como os americanos.

Feliz Natal.

EM 2014, VEM PARA RUA VOCÊ TAMBÉM


Renan Calheiros usou um jato da FAB para um implante de cabelos, o Brasil precisa de votos na mão e pés na rua

ELIO GASPARI
O GLOBO
Publicado:25/12/13 - 0h00


A repórter Andréia Sadi revelou que o presidente do Senado, doutor Renan Calheiros, preocupado com sua cabeça, requisitou um jato da FAB para voar de Brasília a Recife, onde fez um implante de dez mil fios de cabelo. Quem nestas Festas viajou com seu dinheiro deve perceber que esse tipo de coisa só acabará pela associação dos direitos de voto e de manifestação em torno de políticas públicas. Só com o voto isso não muda. Pelo voto, Renan começou sua carreira política em 1978, elegendo-se deputado estadual pelo MDB de Alagoas.

Renan Calheiros é um grão-mestre da costura política. Foi líder do governo de Fernando Collor de Mello e ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Desde 2003 é um pilar da coligação petista no Congresso. Pertence a uma categoria imune à vontade popular. Ela pode ir para onde quiser, mas ele continuará no poder, à sua maneira. Como ministro da Justiça do tucanato, tendo seu nome exposto na Pasta Rosa dos amigos do falecido Banco Econômico, defendeu o uso do Exército para reprimir saques de famintos durante a seca de 1998. Politico da Zona da Mata alagoana, estava careca de saber que tropa não é remédio para esse tipo de situação. Nessa época, dois de seus irmãos foram acusados de terem mandado chicotear um lavrador acusado de roubar um aparelho de TV numa fazenda. Um desses irmãos elegeu-se deputado federal. Entre 1998 e 2006 teve uma variação patrimonial de 4.260%, amealhando R$ 4 milhões.

Renan teve uma filha fora do matrimônio quando ganhava R$ 12.720. A mãe da criança era ajudada por uma empreiteira amiga que lhe dava uma mesada de R$ 16.500. Por causa desse escândalo, por pouco não foi cassado, mas renunciou à presidência do Senado. Reelegeu-se e voltou à cadeira que já foi de Rui Barbosa prometendo uma agenda ética, de “transparência absoluta”. Contudo, como diz o senador Edson Lobão Filho, filho e suplente do senador Edson Lobão, ministro de Minas e Energia, “a ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata”. Nesse mundo de abstrações, Renan, vendo a despensa de sua casa concretamente desabastecida, mandou abrir um pregão de R$ 98 mil para a compra de salmão, queijos, filé mignon, bacalhau e frutas. Apanhado, cancelou a compra.

Renan não é um ponto fora da curva. Ele é a própria curva. Em 2005, como presidente da Casa, deu sete cargos de R$ 10 mil a cada colega. Seu mordomo ganha R$ 18 mil. Em julho, quando ainda havia povo na rua, usou um jatinho da FAB para ir a um casamento em Trancoso. Apanhado, devolveu o dinheiro. Passados cinco meses fez o voo do implante.

Estabeleceu-se uma saudável relação de causa e efeito entre esse tipo de comensal da Viúva e a opinião pública. Eles não se corrigem, mas, uma vez denunciados, recuam. São muitos os maganos que não toleram saguão de aeroporto, despensa vazia e parente desempregado. Nessas práticas, é fácil colocá-los debaixo da luz do sol. Quando se trata da convênios, contratos de empreiteiras e grandes negócios, a conversa é outra.

Em 2014 a turma que paga as contas irá as urnas. Elas poderão ser um bom corretivo, mas a experiência deste ano que está acabando mostra que surgiu outra forma de expressão, mais direta: “Vem pra rua você também.”

O BRASIL NAS RUAS


ZERO HORA 26 de dezembro de 2013 | N° 17655

EDITORIAL




Neste segundo editorial da série de análises de 2013, a RBS opina a respeito das manifestações de junho e dos seus resultados para o país.

Quem nos representa no Brasil, sejamos nós jovens ou nem tanto, crianças ou idosos? Desde junho último, quando brasileiros começaram a ocupar as ruas, contagiados pela força da juventude, ficou claro que não são mais os políticos tradicionais, ou pelo menos não apenas eles, nem outros clássicos porta-vozes. Mobilizados basicamente pelas redes sociais, com hashtags como #VemPraRua, #OGiganteAcordou e #MudaBrasil, os manifestantes recorreram a contrastantes pedaços de cartolina, rabiscados à mão, para alardear essas mensagens relevantes. Tem tanta coisa errada que não cabe em um cartaz, resumia um dos pôsteres. Por trás da máscara do personagem Guy Fawkes, de V de Vingança, porém, entre as boas intenções dos manifestantes de maneira geral e excessos de grupos como os black blocs, o recado foi dado. O país pode não ter despertado de vez, nem ter se transformado como sonhavam os ativistas, mas já não é o mesmo.

Motivados inicialmente pelo alto custo e a baixa qualidade do transporte público, os protestos deixaram grafados desde o início: “Não é por 20 centavos, é pelo meu futuro”. Em seguida, miraram os investimentos da Copa, com a ressalva: “Não é contra a Seleção, é contra a corrupção”. Em outras mensagens escritas, os manifestantes passaram a exigir “Saúde padrão Fifa”, a ironizar que “Ia ixcrever augu legau mais faltô edukssão”, a pedir segurança com frases do tipo “Por favor, não me bata! Proteja-me”, a alertar a classe política de que “Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil”. Diante de apelos transcritos também em pôsteres com referências a clássicos da música brasileira como “Brasil, mostra tua cara” e “O dia vai raiar, sem lhe pedir licença”, dirigentes brasileiros dispuseram-se finalmente a ouvir mais a voz das ruas, a discursar e a ostentar menos, a mudar a agenda, a fazer diferente, a reconhecer erros.

Em muitas capitais, a tarifa de ônibus urbano diminuiu, mas a discussão não se limitou aos 20 centavos: hoje, a mobilidade urbana é tema central, o espaço público entrou na pauta da sociedade e a bicicleta se firma como símbolo da mudança. O Planalto se deu conta da gravidade do estado da saúde pública. Mas, por enquanto, as mudanças são percebidas mais por meio de iniciativas polêmicas, como o Mais Médicos, enquanto persiste o medo nas ruas e os professores continuam longe de ter “o salário de um deputado e o prestígio de um jogador de futebol”. O Congresso preocupou-se em impor mais rigor a crimes envolvendo corrupção, tornou suas votações mais transparentes em alguns casos, facilitando o acompanhamento por parte dos cidadãos. Continua, porém, devendo uma reforma política ampla. Ampla o suficiente para levar os eleitores a recuperar a confiança perdida em seus representantes escolhidos pelo voto.

A exemplo de outros movimentos disseminados pelo mesmo processo de “propagação viral” como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e os Indignados, na Espanha, o nosso não conseguiu tornar reais todos os desejos manifestados nos cartazes. Depois de junho de 2013, porém, o relacionamento entre instituições públicas e privadas com seus públicos, nelas incluídas a própria mídia, nunca mais será o mesmo. O legado das manifestações populares terá mais consistência se contribuir para reforçar a cidadania e a ética entre os brasileiros.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ATO EM APOIO À BARBOSA POR DIREITO A ARMAS E MENOS IMPOSTOS

FOLHA.COM 15/12/2013 - 20h37

Ato pró-Barbosa recolhe pedidos como direito a armas e menos impostos


DE SÃO PAULO


O evento foi convocado por maçons e por uma entidade da sociedade civil como um ato em apoio a Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, pela condução do processo do mensalão. Mas não ficou nisso.

Os 29 manifestantes que compareceram ao Parque do Povo, em São Paulo, bem como os visitantes do local, podiam registrar pedidos em filipetas distribuídas por um Papai Noel, que, entre uma badalada de sino e uma risada forçada, suava debaixo da roupa vermelha. Já no início da manhã, a temperatura era de 27°C no Itaim Bibi, zona oeste.

Depositados em uma urna acrílica, os pedidos davam o tom do protesto: foram solicitados "um país justo de impostos" e a Lei do Armamento, para a "plena defesa do cidadão: poder portar armas".

Os papéis seriam todos encaminhados ao gabinete de Dilma Rousseff, informava, no megafone, o líder do ato, o empresário Joe Diwan. Os organizadores do protesto ressaltaram que os visitantes do parque tiveram liberdade de escrever o que quisessem, e que os pedidos depositados na urna não representam os ideais do movimento.

Um dos participantes sugeriu o seguinte: os políticos deveriam se fiar à lista de reclamações do Procon para conhecer as necessidades do povo. "Estão lá: celular e banco", disse Jose Chehembar. Com faixas, cartazes e apitos- -e ladeado por quatro guardas-civis metropolitanos-- o grupo se postou no gramado central do parque para cantar o hino nacional.

A associação envolvida no ato, Movimento Brasil Merece Mais, causou polêmica recente ao organizar uma rede de segurança privada em Higienópolis (centro), em que moradores podem "denunciar" a presença de algum "andarilho ou pedinte" no bairro.



sábado, 30 de novembro de 2013

A NOVA TFP

REVISTA ISTO É N° Edição: 2298 | 29.Nov.13


Famosa pelo ultraconservadorismo e pelas manifestações contra o divórcio e o comunismo, a Tradição, Família e Propriedade hoje está voltada apenas para a religião e seu controle é disputado na Justiça


Quando se fala na Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, mais conhecida como a TFP, a imagem que vem à mente é a de uma instituição conservadora, defensora de posições políticas à direita, com um viés religioso e avessa a mudanças. Trata-se de uma imagem condizente com a realidade, pelo menos até quase 20 anos atrás. Sob as orientações de seu fundador, o advogado paulistano Plinio Corrêa de Oliveira, a sociedade se manifestava publicamente, fazia barulho com suas opiniões reacionárias e tomava as ruas empunhando megafones e seu estandarte, no qual reluzia um leão dourado, em marchas contra a reforma agrária, o divórcio, o aborto e o comunismo, entre outros temas. Em 1995, com a morte de seu fundador – chamado de Dr. Plinio pelos que comungam das ideias do quatrocentão paulistano –, a TFP passou por uma verdadeira revolução interna que acabou por redefinir seu perfil de atuação e expulsar membros mais antigos, numa briga que foi parar na Justiça. “Hoje, a nova TFP tem uma agenda prevalentemente religiosa”, diz Paulo Brito, um dos mais antigos, que, excluído, organizou com outros colegas de geração a Associação dos Fundadores. Sem vínculos com a atual TFP, a associação tenta reaver judicialmente o nome da entidade e ainda ocupa, como Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO), o majestoso casarão no bairro de Higienópolis, em São Paulo. “O engajamento e a agenda temporal, com campanhas públicas, por exemplo, acabaram”, lamenta.


NOVA DIREÇÃO
As marchas por causas conservadoras (acima) deram lugar à espiritualidade dos
“Arautos do Evangelho”, liderados pelo monsenhor João Clá (abaixo)




Os fundadores reunidos para comemorar o centenário
do nascimento de Plinio Corrêa de Oliveira

Para entender a revolução que deu origem à nova TFP é preciso voltar a 1995, pouco depois da morte de Oliveira, em 3 de outubro. Desde a sua fundação, a sociedade funcionou sob o comando de oito senhores chamados de fundadores. Únicos com direito a voto, eles determinavam, sozinhos, os rumos da organização e nunca encontraram grande resistência. No entanto, com a expansão da TFP e a efervescência política no País a partir de 1989, um grupo crescente de membros começou a manifestar desconforto com a concentração de poder dos fundadores. O pleito dos reformistas era por uma mudança no estatuto, que poderia vir a dar direito de voto a mais membros e fazer da instituição um lugar mais democrático. Mas, embora presente em meados dos anos 1990, a causa pela democratização da TFP ainda era pouco popular. A impressão geral era de que, enquanto Oliveira estivesse vivo, pouco mudaria. “Mas quando o Dr. Plinio morreu, os dissidentes passaram a se articular melhor e mostraram ter um líder, o monsenhor João Scognamiglio Clá Dias”, afirma Frederico Viotti, advogado e membro da Associação de Fundadores.

“Hoje, a nova TFP tem uma agenda prevalentemente religiosa.
O engajamento temporal acabou”
Paulo Brito, da Associação dos Fundadores

O monsenhor João Clá foi, durante quase três décadas, o braço direito de Oliveira. Figura carismática e por vezes colérica, ele destoava da maioria dos membros da TFP por ser religioso, e não leigo, e chamava a atenção pelo traquejo que tinha com jovens, além de uma confiança quase cega do idealizador da entidade. O monsenhor João Clá chegou a escrever a biografia da mãe de Oliveira e trabalhava com ardor e dedicação raros, exercendo sua liderança. “Um traidor”, resumem os fundadores. Segundo eles, foi sob a batuta do monsenhor João Clá que, em 1997, os reformistas, conhecidos como dissidentes, levaram a disputa pelo controle da TFP à Justiça. Alegando que uma sociedade civil não pode ser administrada sem a consulta de seus membros, eles pediram a mudança no estatuto da sociedade para ter direito a voto. Embora tenham perdido em primeira instância, em 1998, conquistaram, de forma plena, a posse da sigla TFP em 2004, além de bens e de sua diretoria. Vencida, a velha guarda saiu da sociedade e criou a Associação dos Fundadores, também em 2004. O processo hoje aguarda decisão final do Supremo Tribunal Federal.


DISSIDÊNCIA
Frederico Viotti luta pelo retorno dos fundadores,
expulsos da TFP pelos dissidentes em 2004

O que se viu desde que os dissidentes assumiram a TFP foi, na prática, uma refundação da sociedade sob um projeto novo e, aparentemente, sem grandes ambições expansionistas. As atividades classificadas como “temporais”, ou não religiosas, do grupo foram sendo reduzidas gradualmente. Palestras, jornadas, círculos de estudo, caravanas, campanhas e marchas – as grandes ferramentas do projeto original da TFP, que era de atuar publicamente em defesa de suas crenças – deram lugar à oração e à vivência da fé pura e de forma quase exclusivamente meditativa. Para os fundadores, foi um esvaziamento consciente e proposital da TFP pelas novas lideranças, em especial pelo monsenhor João Clá, que, segundo os mais antigos, teria como objetivo extinguir a sociedade. Já para os dissidentes, nada mais era que uma adequação de missão aos novos tempos. Como o comunismo, a reforma agrária e até o divórcio se tornaram temas de certa forma superados, era natural que o foco mudasse e, no caso da TFP, voltasse para a religiosidade.

Os rumos seguidos por João Clá dentro e fora da TFP depois da disputa com os fundadores ilustram isso. Foi ele, por exemplo, quem criou, quatro anos depois da morte de Oliveira, os “Arautos do Evangelho”, uma associação privada de fiéis de direito pontifício – subscrita, portanto, ao papa. Enquanto na TFP original a tríade era tradição, família e propriedade, e nunca se buscou reconhecimento do Vaticano, nos “Arautos” as máximas eram e ainda são o papa, Maria e a Eucaristia. João Clá parece ter predileção pelo projeto dos “Arautos”, que, nos últimos anos, expandiram sua base de membros e hoje estão em 78 países de cinco continentes. Nesse período, por sua vez, nem o site da TFP era atualizado. Em visita à seção “Galeria de fotos” da página da sociedade ainda no ar, se percebe que, entre as quatro imagens disponíveis, três são de mais de 20 anos atrás. “Houve uma nítida mudança de foco e a TFP, hoje, vive abandonada”, diz Viotti.


TEMPOS ÁUREOS
Sob Plinio Corrêa de Oliveira (acima), a TFP, com sede em casarão
no bairro de Higienópolis, em São Paulo (abaixo), viveu seu auge



De fato, a nova TFP não é nem sombra do que já foi. Embora com bens valiosos, como terrenos e alguns imóveis, além de um estruturado serviço de mailing que distribui medalhas e recolhe donativos, a entidade perdeu relevância e deixou de ser referência na agenda conservadora do País. Mesmo que o Supremo Tribunal Federal reverta as decisões de segunda e terceira instâncias favoráveis aos dissidentes e devolva a instituição aos fundadores, é difícil imaginar que ela volte a ser a influente TFP de antigamente. Dos oito membros originais, seis estão vivos, todos com mais de 80 anos. Será um imenso desafio fazer seu discurso reacionário encontrar eco na juventude do século XXI.





Fotos:Jjoão Wainer/Folhapress; PAULO PINTO/AE; Joel Silva/Folhapress: kelsen Fernandes/Ag. Istoé; Juan Esteves/Folhapress; BIO BARREIRA


O MANIFESTANTE

REVISTA ISTO É N° Edição: 2298 | 29.Nov.13


As manifestações de junho já mudaram o País. A famigerada PEC-37, que restringia o poder de investigação do Ministério Público, foi rejeitada pelo Congresso e o Senado aprovou lei que transforma corrupção em crime hediondo. Tudo isso graças à voz das ruas

Por Amauri Segalla





O cantor americano Bob Dylan disse em uma entrevista recente que hoje em dia ninguém mais quer sonhar. “Vivemos uma estúpida era de conformismo”, afirmou. Isso provavelmente é verdade em muitos lugares do mundo, mas não no Brasil. O que teria levado, em junho passado, dois milhões de brasileiros às ruas de todas as capitais e de mais de 500 municípios a não ser uma irreprimível e saudável rebeldia? O que teria movido essas pessoas senão o sonho de mudanças? Os manifestantes – cada um deles – são os “Brasileiros do Ano” para a ISTOÉ não apenas porque tiveram coragem para protestar.
É mais do que isso: o clamor dos manifestantes – o clamor de cada um – está ajudando a construir um país melhor.


TODAS AS IDADES
Aos 82 anos, Marita Ferreira caminhou
durante três horas nos protestos de junho

O excepcional nas manifestações de junho é que elas aglutinaram, provavelmente pela primeira vez na história do Brasil, gente de todas as ideologias (até os que não têm nenhuma), de diferentes classes sociais e de variadas gerações. Aos 82 anos, a aposentada Marita Ferreira se tornou um símbolo involuntário do movimento que varreu o País. No dia 17 de junho, dona Marita, uma senhora de andar altivo e fala firme, pegou o filho e o neto e se dirigiu à avenida Faria Lima, em São Paulo. Levou de casa um cabo de vassoura, cartolina e caneta piloto. Era tudo o que precisava para fazer um cartaz onde se lia “82 anos. Não vim pra brincar, vim manifestar.” Durante as três horas de caminhada pelas ruas de São Paulo, gritou como pôde, ergueu os punhos, dançou em plena avenida – mais ou menos como fizera em 1992, nas manifestações populares contra o governo do presidente Fernando Collor. “Dessa vez protestei contra a bandalheira que vem de todos os lados”, berra dona Marita, numa pausa para a foto que ilustra este texto. Com problemas de audição, ela fala num tom bem mais alto do que o resto da humanidade. Talvez por esse motivo suas palavras de ordem se fizeram ouvir nas passeatas.


GRITOS
Márcia Trinidad e a filha Maitê Peres: depois de muito tempo,
o cidadão comum percebeu que tem poder para mudar o País

Dona Marita não segue ninguém e também não quer ser comandada. A primavera brasileira, desabrochada no final do outono, reúne essa característica peculiar: é apartidária e avessa a toda e qualquer liderança que tente se apropriar do movimento. A psicóloga Márcia Trinidad, 44 anos, tem lá algumas inclinações políticas, mas não deixa que elas contaminem suas aspirações. “Fiquei horrorizada com a violência policial que reprimiu as primeiras passeatas e decidi ir para a rua lutar contra isso”, diz. Com ela, estava a filha Maitê Peres, 21 anos, estudante de publicidade do Mackenzie. Usuária de transporte público, Maitê identificou-se com a causa do Movimento Passe Livre, grupo que teve o mérito de começar a onda de protestos com uma única reivindicação: a redução do preço das passagens de ônibus. “Essa história dos 20 centavos foi só o ponto de partida”, diz Maitê. “Nós meio que percebemos que tínhamos poder para mudar as coisas. Foi a primeira vez que a minha geração sentiu isso de verdade.”

A primavera brasileira é apartidária e avessa a toda e
qualquer liderança que tente se apropriar do movimento

As gigantescas multidões que transbordaram das ruas brasileiras serviram para expressar múltiplos sentimentos. Não houve uma razão maior que tivesse despertado a alma anestesiada do cidadão comum. Incontáveis motivos tiraram os brasileiros do estado de conformismo. Houve protestos contra o baixo nível da educação pública, a carência de médicos, a corrupção generalizada, as condições precárias das estradas, os gastos irresponsáveis com os preparativos para a Copa do Mundo. Os críticos disseram que a falta de uma bandeira única enfraqueceria o movimento, que se tornaria disperso e vago demais para surtir efeitos duradouros. Erraram feio. Pela primeira vez, em muitos anos, os poderosos tiveram que se curvar à voz das ruas. Apenas 13 dias depois da primeira passeata organizada pelo Movimento Passe Livre, prefeitos de dezenas de cidades começaram a revogar o reajuste do preço das tarifas de ônibus. Nesse caso específico, os manifestantes venceram – de goleada.


LUZ E SOMBRAS
Manifestantes ocupam a cobertura do Congresso Nacional no dia 17 de junho

Por mais que algumas vozes dissonantes digam o contrário, as manifestações de junho ajudaram, sim, a mudar o País. A famigerada PEC-37, que restringia o poder de investigação do Ministério Público, foi rejeitada pelo Congresso. Sem as vozes das ruas, o destino da PEC-37 teria sido o mesmo? A gritaria de milhões de brasileiros contra a corrupção surtiu resultados. Esquecido há anos em Brasília, o projeto de lei que transforma corrupção em crime hediondo foi aprovado no Senado depois da avalanche de manifestações. Na quinta-feira 28, o Senado e a Câmara promulgaram a emenda que prevê o fim do voto secreto para a cassação de mandato de senadores e deputados, exatamente como queriam os brasileiros que se rebelaram em junho. O que disse o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves? Segundo ele, agora o Congresso caminha ao encontro dos anseios do povo brasileiro, “que foi às ruas em junho clamando por melhores serviços públicos e por mais ética.” Não é só. Lembra dos cartazes que pediam mais recursos para as áreas de educação e saúde? Pois bem: definiu-se que 75% dos royalties do petróleo vão para a primeira e 25% para a segunda. Os poderosos entenderam o recado: as ruas não poderão novamente ser desprezadas.


PÁTRIA
Jovens contrários ao aumento do preço do bilhete de ônibus
caminham na avenida Paulista, em São Paulo

Os manifestantes de junho também tiveram a sabedoria de frear os protestos quando eles degeneraram para a insanidade da violência. A partir desse momento ficou fácil identificar quem eram as pessoas de bem – o brasileiro comum que deseja apenas um país melhor – e todos os outros que estavam ali apenas para dar vazão a atos criminosos. Os manifestantes pacíficos por ora silenciaram, mas não significa que serão novamente omissos. Desde junho, muita coisa andou graças ao grito espontâneo de dois milhões de pessoas. Bob Dylan certamente gostaria de saber que algo maravilhoso aconteceu no Brasil.

Fotos: PEDRO DIAS/Ag. Istoé; Pedro Ladeira/Folhapress; Marcelo Alves/Techimage/Folhapress