A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

segunda-feira, 14 de março de 2016

EM TODO O PAÍS, MILHÕES CONTRA DILMA



ZERO HORA 14 de março de 2016 | N° 18472


FÁBIO SCHAFFNER | Especial



EM DOMINGO HISTÓRICO, mais de 3 milhões de brasileiros ocuparam as ruas para exigir o impeachment da presidente, com críticas a Lula e ao PT


Nunca houve um domingo como 13 de março de 2016. Em uma mobilização histórica, 3,3 milhões de brasileiros vestindo verde e amarelo tomaram as ruas de pelo menos 257 cidades de todos os Estados do país em protesto contra o governo Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. Em São Paulo, a Polícia Militar estimou a presença de 1,4 milhão de pessoas, o maior contingente popular a ocupar a Avenida Paulista. No Rio, a manifestação chegou a oito quarteirões da orla de Copacabana. Em Porto Alegre, segundo a Brigada Militar, havia 100 mil pessoas no entorno do Parcão. A insatisfação ganhou as ruas das capitais, de cidades interioranas e do Exterior. Houve atos de brasileiros em Londres, Nova York, Paris, Barcelona, Lisboa e Frankfurt. Em todos os lugares, o brado mais insistente pedia o impeachment da presidente Dilma e a prisão de Lula.

– É o fim da inocência. O Brasil cansou dessa política perversa, incestuosa, que nos levou ao fundo do poço. Foi uma procissão cívica, uma tomada de consciência talvez inédita na história do país – diz o antropólogo Roberto DaMatta, professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-RJ.

Se em São Bernardo do Campo, Lula saiu à rua para agradecer a solidariedade de 400 petistas que foram lhe consignar apoio, em Brasília Dilma permaneceu isolada no Palácio da Alvorada, avaliando o açodamento da crise com assessores próximos. No final do dia, a Secretaria de Comunicação da Presidência lançou nota em que elogiou “o caráter pacífico das manifestações”. Nos bastidores políticos e na opinião de especialistas, o gigantismo dos atos populares fragilizou ainda mais a situação da presidente. Como no sábado o PMDB havia anunciado uma debandada iminente do governo e na próxima quarta-feira o Supremo Tribunal Federal irá julgar recurso ao rito do impeachment, a perspectiva é de que a erosão da base e a insatisfação expressa nas ruas possam apressar um processo de deposição da presidente.

– O descontentamento é exponencial e não há um indicativo de horizonte para o governo. A presidente não consegue mais liderar. Estamos diante de um dilema institucional, já que há a possibilidade real de se tirar da Presidência uma pessoa tida como honesta, mas ninguém vai aguentar um governo moribundo por mais dois anos e meio – afirma o professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP) Renato Janine Ribeiro, que por cinco meses foi ministro da Educação de Dilma.

GOVERNO FEDERALENFRENTA ENCRUZILHADA

Apesar da preponderância contra o PT, ninguém escapou à alça de mira dos manifestantes. Houve vaias e apupos ao vice-presidente Michel Temer (PMDB), ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e do Supremo, Ricardo Lewandowski. Os maiores líderes do PSDB, o senador Aécio Neves (MG) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foram hostilizados e tiveram de deixar às pressas a Avenida Paulista. No local, centenas de bonecos infláveis de Lula vestido de presidiário ladeavam três enormes patos de borracha levados pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) como símbolos da campanha “Não vou pagar o pato”, contra o aumento dos impostos.

Em muitas cidades, as manifestações ganharam contornos de festa popular, com bandas musicais e coreografias. No Parcão, o grupo La Banda Loka Liberal tocou clássicos de Sidney Magal, Reginaldo Rossi e marchinhas de carnaval antes de os discursos monopolizarem os microfones. Na Goethe, havia manifestantes vestidos de palhaço, de japonês da Federal e de petista preso.

– A descrença é geral. Já fui filiado ao PT e nunca mais voto no partido. O dinheiro corrompeu todo mundo – reclamava no Parcão um médico que não quis se identificar.

Fantasiado de detento, ele disse que se chamava Luiz Inácio.

Entre os personagens da crise, o único a receber elogios era o juiz Sergio Moro. Responsável pelo processo da Operação Lava- Jato, o magistrado foi incensado em faixas, cartazes e camisetas que tinham seu rosto estampado. Em nota oficial, Moro se disse “tocado pelo apoio às investigações”. Para o filósofo José Arthur Gianotti, professor da USP e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, a onipresença da figura de um juiz nos atos Brasil afora demonstra o cansaço da população com o atual sistema político-partidário.

– A mobilização foi nacional, em todos os lugares teve protesto, sempre com apoio ao Moro e à Lava-Jato. Isso revela que há uma enorme demanda por regeneração do político brasileiro – interpreta Gianotti.

Diante do ensurdecedor recado das ruas e da incapacidade de reação demonstrada pelo governo até agora, políticos tarimbados e cientistas sociais consideram que o Planalto está em uma encruzilhada. Petistas sugerem uma guinada à esquerda, com a formação de um novo ministério liderado pelo ex-presidente Lula e a adoção de políticas afinadas com os movimentos sociais. Para os analistas, essa postura acirraria ainda mais os ânimos da população.

– A única saída seria retomar o crescimento econômico, mas talvez não haja tempo para isso. Até porque há uma crise de identidade: este é um governo de esquerda, com uma política econômica de direita. O governo está engessado e não tem mais meta, nem mesmo a da utopia – avalia Janine Ribeiro.



Verde e amarelo, bom humor e diferentes gerações na Paulista

CARLOS ROLLSING | São Paulo

Coração do centro financeiro de São Paulo, a imponente Avenida Paulista teve o seu concreto e asfalto pintados de verde e amarelo, naquela que se tornou a maior manifestação do país em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O protesto estava marcado para começar às 15h de ontem, mas, pouco antes do meio-dia, a concentração era grande, diversos caminhões de som já ecoavam discursos ácidos ao governo. Às 13h, o ato havia tomado a avenida por inteiro e também as suas adjacências.

A Polícia Militar estimou que 1,4 milhão de pessoas compareceram. Os organizadores apontaram 2,5 milhões. Bandeiras e camisas do Brasil foram maioria, muitos manifestantes tinham traços de tinta verde e amarela no rosto. Famílias participaram de forma intensa: por todos os lados havia crianças acompanhadas dos pais e avós. Gente de todas as idades. O protesto em São Paulo tinha como alvos Dilma, o ex-presidente Lula e o PT.

– Estamos sendo achincalhados, não há respeito ao povo. Sou totalmente favorável ao impeachment. Já não há mais governo – avaliou Octávio Marcondes Machado, 47 anos, que vestia verde e amarelo dos pés à cabeça.

O juiz federal Sergio Moro, que conduz processo da Operação Lava-Jato, foi saudado como herói. Faixas e cartazes cumprimentavam o seu trabalho. Embora o foco fosse o petismo, aqui e acolá existiam manifestações contra o PSDB e Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O Supremo Tribunal Federal (STF) chegou a ser lembrado, acusado por manifestantes de subserviência ao PT. Foram minoritárias e pontuais as manifestações de pedido de intervenção militar. A maioria falava em “vencer através da lei e das instituições”, apontando o impeachment como uma saída democrática e constitucional.

O humor também ganhou espaço no protesto na Avenida Paulista. Incontáveis manifestantes vestiram roupas de presidiário e máscaras com o rosto do ex-presidente Lula. Os bonecos infláveis chamados de Pixuleco – uma sátira com o petista – estiveram espalhados aos montes, em todos os tamanhos. Marchinhas de Carnaval adaptadas ironizavam o governo e pediam o impeachment de Dilma. Os ambulantes também saíram satisfeitos. Um Pixuleco ou uma bandeira do Brasil custavam R$ 10. Os manifestantes encontravam diversos pontos de venda de bebidas – até uma cervejinha – e alimentos.

– Vendi todos os meus cem espetinhos de churrasco – disse o ambulante João Ferreira da Silva, que, às 17h40min, já se preparava para ir embora.

As organizações envolvidas na manifestação eram diversas, mas o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre conseguiram reunir multidões em torno dos seus palanques. Diferentemente dos protestos anteriores, houve a abertura de espaço para que políticos com mandato fizessem uso da palavra. Mais do que isso, eles foram, a pedido de lideranças do MBL, aplaudidos e saudados. Passaram por lá nomes do PSDB, DEM, PPS, PMDB e PP.

ESTRATÉGIA É PRESSIONAR DEPUTADOS E SENADORES

– Vamos trazer aqui os líderes da oposição, sim, porque o impeachment se faz com voto no Congresso – disse um dos integrantes do MBL.

A estratégia é aproveitar a manifestação massiva para pressionar os deputados e senadores a votarem a favor do impeachment de Dilma, que deve começar a ser analisado esta semana na Câmara.

– Bem-vindos ao velório do governo Dilma. Qualquer político que votar contra o impeachment será lembrado pela história como alguém que traiu o país – discursou Kim Kataguiri, um dos mentores do MBL.

Ferrenho opositor do PT, o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) chegou a ter seu nome cantado por parte dos manifestantes.

– Não vamos decepcioná-los – prometeu o parlamentar.

Apesar da multidão, não foram registradas ocorrências significativas, enfrentamentos ou depredações. O ato foi pacífico, e o único trabalho da Polícia Militar foi conter alguns indivíduos que se infiltraram na multidão para roubar e furtar celulares. Às 18h, decidido a voltar para casa, um homem que levava o filho nos ombros passou diante de uma fileira de cinco policiais e apertou a mão de todos eles, um a um. E assim os paulistanos regressaram, devolvendo os tons acinzentados à Avenida Paulista, depois de um dia que consideraram “histórico”.


Mar de gente ocupa oito quadras de Copacabana


DURANTE CINCO HORAS, manifestantes se concentraram na Avenida Atlântica, na zona sul do Rio, onde cinco carros de som conduziam atoA manifestação no Rio de Janeiro contra o governo da presidente Dilma Rousseff lotou a praia de Copacabana, na Zona Sul. A mobilização começou às 10h e se estendeu até as 15h, ocupando as duas pistas da Avenida Atlântica, a ciclovia e o calçadão, em uma extensão que atingiu oito quadras do bairro.

Pelas contas dos organizadores, 1,5 milhão de pessoas participaram do ato. Como o governo do Rio optou desde o ano passado por não fazer mais estimativas de público nos protestos, a Polícia Militar não divulgou dados. Ainda assim, um major da PM abordado pela reportagem considerou exagerado o levantamento dos organizadores. E fez uma comparação com o Réveillon de Copacabana, que chega a reunir 2 milhões de pessoas e ocupa não só as pistas da orla, mas também as areias da praia em toda a sua extensão – o que não ocorreu ontem.

Comandados pelo carro de som, os manifestantes gritavam: “Fora Dilma, fora jaracaca”. Um carro de som também reproduziu a música criada para ironizar o discurso em que a presidente fez uma “saudação à mandioca”. Outra canção mencionava o ex-presidente Lula:

– Não é nada meu / Não é nada meu / Excelência eu não tenho nada / Isso tudo é de um amigo meu – cantavam em coro os manifestantes.

Houve oposição pontual de grupos conservadores a questões como aborto e direitos dos gays. Como em ocasiões anteriores, mas desta vez em menor número, também surgiram defensores de intervenção militar no país.

Cinco carros de som acompanharam os protestos, convocados por movimentos como Vem Pra Rua, Revoltados Online e Movimento Brasil Livre. No carro de som do Vem Pra Rua, o jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira falou ao microfone.

– Não estou aqui como político ou jornalista, mas como pai e avô. Tenho convicção de que Dilma vai cair. Venho aqui para lembrar que a luta não termina aí. Teremos um longo caminho pela frente para consertar o estrago que eles fizeram – discursou.

Eram recorrentes os pequenos bonecos infláveis de Lula e Dilma vestidos de presidiários. Camelôs venderam o artigo a R$ 15. Bandeiras do Brasil eram negociadas a R$ 30.

Um trio de estudantes foi hostilizado e teve de ser retirado sob a proteção da Polícia Militar. Um deles vestia uma camisa vermelha. Carol Morena, 21 anos, estava no grupo e disse à reportagem que a intenção era fazer uma crítica a Dilma pelo viés da esquerda.

– Nossa mensagem era da esquerda contra Dilma, mas não entenderam – disse.

Durante o ato, um avião usado para divulgar faixas publicitárias sobrevoou a orla com a mensagem: “Não vai ter golpe. Frente Brasil Popular.”

A multidão reagiu com vaias a cada passagem da aeronave.

– Não vai ter golpe mesmo. O que vai ter é impeachment, cassação e prisão – respondeu no trio elétrico um dos integrantes do grupo Revoltados Online, enquanto o avião cruzava o céu.



Em Brasília, marcha até o gramado do Congresso


A manifestação contra o governo Dilma reuniu cerca de 100 mil pessoas ontem na Esplanada dos Ministérios, segundo estimativa da Polícia Militar do Distrito Federal. O movimento foi maior do que o registrado em março de 2015, quando a PM calculou a participação de 40 mil pessoas.

Depois de se concentrarem em frente ao Museu Nacional, no início da Esplanada, os manifestantes seguiram, a partir das 10h30min, em marcha até o gramado do Congresso, um trajeto de cerca de 1,5 quilômetro. O ato foi encerrado pouco depois das 12h, quando os participantes cantaram o Hino Nacional.

Seis carros de som foram usados no evento, organizado por grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra Rua e Revoltados Online.

A Polícia Militar montou forte esquema de segurança, com 2.133 agentes trabalhando. A pista do Eixo Monumental foi isolada por duas barreiras de policiais. Manifestantes que chegavam com mochilas e bolsas foram revistados. Não foram registrados incidentes.

O já tradicional boneco Pixuleco foi montado em frente ao gramado do Congresso. Vendedores ambulantes como Alexandre Pinto de Souza, 37, vendiam miniaturas do Pixuleco por R$ 20. Após lucrar em protestos anteriores em São Paulo, Souza esperava vender os 20 bonecos que levou para Brasília ontem. E apoiava os protestos.

– As coisas estão muito caras – explicou o ambulante.

Alguns manifestantes vendiam também camisetas com a imagem dos rostos do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que participou da manifestação em Brasília, e do juiz Sergio Moro. Produzidas pelo Movimento Liberdade Brasil.com, custavam R$ 30 a unidade. Antes da marcha, o grupo já havia vendido 120 camisetas. Segundo o organizador Fernando Souza, o dinheiro seria usado para bancar futuros protestos.

NÃO VAMOS PARAR NO PRIMEIRO CORRUPTO

Empolgada, a coordenadora do movimento #vemprarua, Manu Guido, torcia para que as manifestações pressionassem a presidente Dilma Rousseff para que “tenha consciência de que já não governa e renuncie ao cargo”.

– Mas não vamos parar no primeiro corrupto. O movimento continua para que todos os corruptos sejam investigados e presos – afirmou.

Na multidão, o servidor público Fábio Freitas, 51 anos, exibia um cartaz diferente, protestando contra o PT e o PSDB.

– A corrupção está generalizada – justificou.

Mesmo com forte oposição ao PT no protesto, Souza disse que recebeu apoios:

– Toda hora me param para fazer fotos.

A Associação dos Delegados da Polícia Federal aproveitou o ato para coletar assinaturas a favor da proposta de emenda à constituição que dá autonomia à instituição. Segundo o delegado Luciano Leiro, diretor regional, a instituição não foi para a Esplanada para defender a saída da presidente Dilma, mas para divulgar a proposta de autonomia da PF.



No Parcão, 100 mil contra o governo

DÉBORA CADEMARTORI | CAETANNO FREITAS

PROTESTO NA CAPITAL igualou em público a maior manifestação até então, ocorrida em 15 de março de 2015

Manifestantes contra o governo federal voltaram às ruas de Porto Alegre ontem. Com público maior se comparado aos atos de dezembro, agosto e abril de 2015, o protesto convocado pelas redes sociais reuniu 100 mil pessoas no parque Moinhos de Vento (Parcão), conforme a Brigada Militar (BM). O número é igual ao da manifestação de 15 de março do ano passado, o maior até então.

O Movimento Brasil Livre (MBL), um dos principais organizadores, calcula multidão ainda mais numerosa – cerca de 140 mil pessoas.

Desta vez, por recomendação da BM, o protesto ocorreu somente nas imediações do Parcão: Avenida Goethe e ruas Mostardeiro e 24 de Outubro. Não houve caminhada porque a manifestação pró- governo ocorria simultaneamente na Redenção. Com a separação dos dois grupos, nenhum incidente foi registrado. O tenente-coronel Mário Ikeda, responsável pelo Comando de Policiamento da Capital, atribuiu a tranquilidade dos dois eventos à decisão de evitar o contato entre rivais.

– Transcorreu tudo dentro da normalidade. Conseguimos concentrar nosso efetivo nos locais determinados e, por isso, houve muito mais segurança – explicou Ikeda logo após o fim do protesto no bairro Moinhos de Vento, às 18h.

Os gritos de “fora PT” predominaram entre falas e músicas contra a corrupção e o governo. Vestidos de verde e amarelo, os participantes carregavam cartazes contra o PT, a presidente Dilma Rousseff e, principalmente, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia protestos também contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ganharam destaque o apoio à Polícia Federal (PF) e ao juiz Sergio Moro, pelo trabalho na Lava-Jato.

Aos 88 anos, Iolanda Bina resolveu sair de casa para engrossar o coro dos descontentes com as medidas do governo federal:

– A coisa está tão feia aqui no Brasil, que acho que a gente tem de dar uma força para esse movimento.

JURAMENTO E LAVAGEM A JATO DO BONECO PIXULECO

Entoando cânticos compostos para a manifestação, a designer Angela Pinto exigia punição aos envolvidos em corrupção:

– Acredito em democracia sem corrupção. É uma roubalheira. O povo merece mais respeito. A gente quer que os culpados sejam punidos.

No fim do protesto, organizadores promoveram um juramento público. De mãos dadas, participantes repetiam as palavras que ecoavam do caminhão de som:

– Prometo não desistir do Brasil e não desistir dos meus filhos, aos quais deixarei o legado de um país novo. Pois hoje reconheço a minha culpa por deixar que chegássemos a esse estágio.

Um homem interpretando o juiz Moro “limpou”, com um aparelho de lava-jato, um boneco inflável gigante do ex-presidente Lula vestido de presidiário, popularmente conhecido como Pixuleco. Entre bandeiras do Brasil, cartazes e faixas, o mini-inflável do Pixuleco, vendido por R$ 15, era um dos objetos mais agitados pelos porto-alegrenses. Também fez sucesso o cover do Japônes da Federal – um homem de óculos escuros, vestindo preto e carregando um distintivo de papel no pescoço. Máscaras do famoso policial da PF, de Lula, Dilma e Cunha estavam entre os acessórios preferidos dos participantes.

Além de integrantes do MBL, o deputado estadual Marcel van Hattem (PP-RS) e o deputado federal Nelson Marchezan Jr (PSDB-RS) discursaram no evento.



Aécio e Alckmin são hostilizados em SP


SOB VAIAS E GRITOS de fora e oportunistas, líderes tucanos e comitiva oposicionista tiveram de abandonar ato pró-impeachment na PaulistaEram 15h30min de ontem quando o senador Aécio Neves (PSDB-MG) publicou no Twitter uma foto na qual aparecia acompanhado do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do senador Aloysio Nunes (ambos do PSDB-SP), do deputado federal Paulinho da Força (SD-SP), e de outros políticos e militantes de oposição. Sorridente, dentro de uma van, o comboio anunciava sua chegada à Avenida Paulista para se manifestar contra o governo federal. Os sorrisos pela participação ativa nos protestos pró-impeachment, superando o apoio institucional das edições anteriores, duraram pouco.

Alckmin, Aécio e companhia foram hostilizados em sua breve passagem – cerca de 30 minutos – pelo ato. Ao descer da van nos fundos do Masp, foram recebidos por xingamentos, como “bundões” e “oportunistas”. Para encobrir os gritos, um grupo de tucanos puxou o coro de “fora Dilma”.

Dali, os líderes oposicionistas e sua comitiva seguiram para o caminhão do Movimento Brasil Livre (MBL), um dos principais organizadores do protesto. Cercados pela multidão em meio ao barulho de cornetas e buzinas, Alckmin e Aécio apertaram a mão de algumas pessoas, mas a caminhada foi marcada por gritos de “fora”. Uma mulher chegou a chamar Aécio de “vagabundo”. O senador passou por constrangimento maior quando, ao chegar à tenda do MBL, foi cumprimentar manifestantes:

– Ladrão. Você também é ladrão. Você sabe que também é ladrão – disse um rapaz, enquanto Aécio lhe apertava a mão.

SAÍDA ESTRATÉGICA E SEM DISCURSO

Era esperado que os líderes tucanos subissem no caminhão do MBL para discursar mas, diante das vaias, Aécio recuou, conversou com Alckmin e decidiu ir embora. A comitiva caminhou até a Alameda Casa Branca e, em seguida, mais algumas quadras até a Alameda Itu, onde retornaram à van na qual haviam chegado.

Após a saída do grupo, Paulinho da Força minimizou a reação contrária à presença dos tucanos. Depois, admitiu que há muita rejeição a Alckmin. Logo após esse comentário, um assessor sussurrou para Paulinho que ele deveria ir embora para evitar problemas.

Apesar das vaias, Aécio avaliou como positiva a participação no ato na capital paulista. Às 17h35min, postou em sua conta no Twitter que “as manifestações de hoje (ontem) reuniram cidadãos que, respeitando toda a pluralidade, estão unidos pela busca do fim desse governo”.

Sobre os gritos de manifestantes em referência a menções ao seu nome na Lava-Jato, Aécio disse que “todas as citações têm que ser investigadas e elas estão desmontando porque são falsas”.

Mais cedo, o senador participou do protesto em Belo Horizonte, seu reduto eleitoral. Em entrevista à imprensa, na Praça da Liberdade, afirmou que há três caminhos hoje para o Brasil: o impeachment da presidente, a cassação da chapa pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou a renúncia.

– Uma das três saídas possibilitará o Brasil voltar a sonhar com um futuro melhor – disse.

A senadora Marta Suplicy (PMDB-SP), ex-petista de militância história pelo partido, também foi hostilizada em São Paulo. Membro do PMDB desde agosto de 2015, ela tentava dar entrevista em frente à sede da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) quando foi alvo de gritos como “perua”, “fora, PT” e “vira casaca”.

Sem condições para falar e participar do protesto, ela interrompeu a coletiva e voltou ao edifício da Fiesp escoltada por agentes de segurança.


Cidades do Interior também registraram manifestações


Todos os 26 Estados brasileiros e o Distrito Federal registraram manifestações contra o governo Dilma Rousseff ontem. Fora das capitais, que concentraram os maiores volumes de participantes, os atos pró-impeachment também reuniram público considerável em diversas cidades no interior das unidades federativas.

Em Caxias do Sul, na serra gaúcha, a Brigada Militar (BM) estimou que cerca de 30 mil pessoas tenham acompanhado o ato na Praça Dante Alighieri – os organizadores afirmaram que o número chegou a 80 mil.

Em Santa Maria, manifestantes se concentraram na Praça Saldanha Marinho, por volta das 16h30min, e caminharam até o Fórum da cidade. A organização estimou 20 mil participantes. A BM não divulgou dado oficial. Também ocorreram protestos em Santa Rosa, Santa Cruz do Sul e Pelotas.

Em Santa Catarina, uma das maiores mobilizações no Interior ocorreu em Xanxerê, no Oeste, com cerca de 1,2 mil pessoas, segundo o movimento Vem Para Rua. A Polícia Militar não divulgou contagem. Também houve atos em Barra Velha, Canoinhas, Curitibanos, Lages, Fraiburgo, Itajaí e Balneário Camboriú.

Em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, cerca de 55 mil pessoas estiveram na manifestação.


Dilma elogia “caráter pacífico”

A presidente Dilma Rousseff afirmou em nota divulgada no final da tarde de ontem que a liberdade de expressão é “própria das democracias” e deve ser respeitada por todos. “O caráter pacífico das manifestações ocorridas neste domingo demonstra a maturidade de um país que sabe conviver com opiniões divergentes”, afirmou.

Em São Bernardo do Campo, na região do ABC Paulista, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu apoio de cerca de 400 manifestantes em frente ao prédio onde mora. Lula acenou da sacada e saiu para falar com o grupo.


O MAIOR PROTESTO CONTA O GOVERNO


No primeiro grande protesto de 2016 – e também o primeiro desde que o ex-presidente Lula foi levado a depor na Lava-Jato, manifestantes pediram o impeachment da presidente Dilma Rousseff em todos os Estados e no Distrito Federal. Em São Paulo, segundo as autoridades, foram 1,4 milhão de pessoas. Na capital gaúcha, 100 mil. Compare os números informados pela polícias militares em oito capitais nas últimas manifestações.

15 DE MARÇO DE 2015

Cinco meses após a reeleição de Dilma ocorreu a primeira manifestação. Convocada por movimentos que se diziam apartidários, reuniu 1,8 milhão de pessoas em cerca de 150 cidades, segundo as policias militares.

A motivação era a situação política em geral, principalmente corrupção e Congresso. O impeachment da presidente Dilma aparecia em faixas e cartazes, assim como críticas ao PT e ao ex-presidente Lula. Políticos não discursaram. Como reação, ministros apresentaram medidas de combate à corrupção.

12 DE ABRIL DE 2015

Embalados pela adesão de março, movimentos como Vem Pra Rua e Brasil Livre convocaram nova manifestação. Dessa vez, o foco foi o governo Dilma Rousseff e os pedidos de impeachment. O ex-presidente Lula também foi bastante citado. A adesão do público foi significativamente menor, mas os organizadores ressaltaram que houve protestos em um número maior de cidades: 500.

16 DE AGOSTO DE 2015

No segundo semestre, o protesto organizado pelos mesmos movimentos ganhou um tom político mais forte, com a adesão de partidos. Parlamentares da oposição discursaram em carros de som e, pela primeira vez, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), candidato à Presidência derrotado em 2014, participou da manifestação, em Belo Horizonte.

13 DE DEZEMBRO DE 2015

O primeiro protesto após o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ter aceitado pedido de impeachment contra Dilma teve menos participantes do que esperavam os organizadores – a adesão era considerada importante por governo e oposição para avaliar o apoio ao processo de afastamento.

13 DE MARÇO DE 2016

As manifestações de ontem, as primeiras desde que o ex-presidente Lula foi conduzido a depor na Lava-Jato, reuniram um número maior de participantes do que os de dezembro. O Rio de Janeiro foi um dos locais onde houve maior mobilização. Mas a polícia militar do Estado não divulga estatísticas oficiais.

DIVERSÃO E CRÍTICA
Em Porto Alegre, um cover do “Japonês da Federal” foi tietado no Parcão. O agente da PF Newton Ishii, o verdadeiro, virou celebridade ao aparecer escoltando presos ilustres da Lava-Jato. O dirigente do Flamengo Claudio Pracownik provocou polêmica ao levar para o protesto no Rio os filhos e a babá: “Não recebo presentes de construtoras e emprego quatro pessoas em casa”. O Movimento Endireita Brasil instalou na Avenida Paulista (SP) um pedalinho parecido com os brinquedos comprados pela ex-primeira-dama Marisa Letícia e levados ao sítio de Atibaia.



sábado, 12 de março de 2016

O BRASIL NAS RUAS, POR SEU FUTURO



ZERO HORA 12 de março de 2016 | N° 18471


EDITORIAL




Ninguém ignora que o país atravessa um momento triste de sua história. Os brasileiros estão revoltados, indignados e descrentes nos seus representantes políticos.

Considerando a gravidade do momento político, o Grupo RBS expõe neste editorial sua posição sobre as manifestações públicas programadas para este domingo em dezenas de cidades brasileiras. Em primeiro lugar, conclamamos autoridades e lideranças dos movimentos envolvidos para que adotem providências no sentido de que os atos sejam ordeiros e pacíficos, a fim de que todas as pessoas, independentemente de suas visões políticas e ideológicas, possam se expressar livremente e em segurança. Também dirigimos este apelo aos manifestantes, para que evitem provocações e revides, direcionando suas ações e suas demandas para os interesses maiores do país e para soluções que assegurem a construção de um futuro digno para as próximas gerações.

Ninguém ignora que o Brasil atravessa um momento triste de sua história. Uma crise econômica sem precedente, gerada por equívocos de um governo que ignorou os fundamentos da estabilidade alcançada com o Plano Real, e uma crise política inquietante, potencializada pela investigação do maior esquema de corrupção já descoberto no país, resultam num ambiente de desesperança e desânimo. Os brasileiros estão revoltados, indignados e descrentes nos seus representantes políticos. E parcela expressiva da população vê o impeachment da presidente da República como saída imediata do impasse em que o país se encontra.

Essas pessoas têm todo o direito de pedir o impedimento presidencial, que é um instituto legal e democrático previsto pela Constituição Federal. Da mesma forma, outros brasileiros devem ter o direito de discordar, ou por achar que não estão presentes todos os pressupostos para a aplicação da impactante medida, ou mesmo pela fidelidade ideológica ou interesseira aos atuais dirigentes do país. Todos têm que ser respeitados no direito de manifestar suas posições.

Só assim poderemos manter a fé e a confiança nas instituições democráticas, que estão sólidas e podem, sim, funcionar adequadamente em favor do país, como vêm demonstrando os integrantes da força-tarefa que promove a Operação Lava-Jato. Com Judiciário atuante, Ministério Público responsável, Polícia Federal eficiente, imprensa independente e sociedade mobilizada, o Brasil está instrumentalizado para melhorar a qualidade de seus dirigentes políticos, para corrigir as deformações e para construir um futuro mais promissor. Basta que cada brasileiro faça a sua parte com consciência cívica e humanidade.

domingo, 6 de setembro de 2015

O HOMEM CORDIAL, AINDA



ZERO HORA 06 de setembro de 2015 | N° 18286


MARÇAL DE MENEZES PAREDES



Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982) nos conduz a um questionar o modo de ser brasileiro, desbravando pontos críticos de nossa formação histórica através de um ensaio de leitura obrigatória e releitura sempre necessária. Em Raízes do Brasil (1936), o autor formula uma interpretação fecunda de nossa identidade sob influência da sociologia weberiana e do historicismo alemão, condensando reflexões de impressionante contemporaneidade e vitalidade crítica.

O conceito de homem cordial contempla leitura de psicologia histórica com crítica sociológico-cultural, manifestando o dilema brasileiro: nosso encanto coletivo e nosso drama existencial andam de mãos-dadas. Politicamente, economicamente, culturalmente. Por um lado, a inexistência de limites rígidos entre os âmbitos Público e Privado abre espaço para uma sociabilidade quente e uma simpatia inconteste. Por outro lado, dá margem para a corrupção estrutural, o uso patrimonialista do Estado, o nepotismo, o “jeitinho”. É fundamental perceber que a cordialidade remete ao uso da passionalidade como caminho preponderante para a resolução de conflitos, nada tendo a ver, portanto, com civilidade ou polidez. Daí que o nosso propalado caráter afetuoso transforme-se rapidamente em violência; daí que a crítica política flerte com o golpe de Estado; daí que nossa alegria horizontalizada torne-se, de súbito, em vertical hierarquia e severo conservadorismo.

A forma como o debate político tem sido encenado desde a última campanha eleitoral – opondo radicalismos entre “coxinhas” e “petralhas” – encarna a velha prática política. A perseguição furiosa e o salvamento redentor de líderes político-carismáticos, ambos, fazem uso de uma retórica nacionalista para esconder seu profundo moralismo: a esquerda contra “o neoliberalismo” e o “fascismo”; a direita em “cruzada” patriótica contra a corrupção, sempre ávida por mais um caudilho.

A passionalidade no ataque irascível e na defesa radical do governo demonstra que ainda exercitamos a política como se fôssemos limpar a honra da família. As agressões personalistas de péssimo gosto nas redes sociais deixam claro diferentes tipos de conservadorismo: do machismo contra a presidente e da homofobia contra a educação progressista às denúncias de vícios condenáveis de determinados políticos. Seguimos – solertes – navegando na “ética de fundo emotivo” de que nos falava Buarque de Holanda: o bordão “mexeu com fulano, mexeu comigo” é o mais recente exemplo disso.

A decodificação deste dilema está, em Raízes do Brasil, formulada na reflexão sobre a mudança do modelo agrícola oligárquico e patriarcal para o padrão urbano industrial no Brasil da Era Vargas. Essa transição não teria sido completa, tendo deixado sequelas sociais e idiossincrasias culturais: sua mirada apontava para um descompasso entre a nova fase da vida nacional (o nacional-desenvolvimentismo) e a permanência de velhas mentalidades (o patriarcalismo e o patrimonialismo). Tínhamos construído formalmente estruturas econômicas e políticas modernas, mas estas estavam “preenchidas” por uma cultura de matriz arcaica e personalista. A modernização do sistema social fica, assim, cotidianamente burlada por uma resiliente mentalidade pré-moderna, avessa às normatizações da vida e ao universalismo dos procedimentos.

Exemplo da extensão da cordialidade na vida brasileira são os trechos de Raízes em que Sérgio demonstra os sintomas cotidianos de nossa ânsia em estabelecer intimidade em esferas que (por hipótese) seriam de foro público ou formal: o uso indiscriminado da terminação “inho” acrescida às palavras e objetos como maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também aproximá-los do coração; o caráter intimista de nossa religiosidade que trata o próprio Deus como um amigo familiar; o imperativo de, para conquistar um freguês, fazer-se amigo dele. A repartição pública ganha ares de um prolongamento da casa e a impessoalidade da técnica é maculada pelo uso passional e ideológico da ciência.

A atual ira generalizada contra a corrupção nos defronta novamente com esta faceta cordial. O desafio não é uma reforma no sistema ou a troca do governo – e cuidado: não há nada mais “cordial” e “velho” que golpismo em nossa política. O desafio é uma mudança profunda, cultural, que reinvente os parâmetros interpessoais e a relação entre Estado e Sociedade. Se a crise é grave, que aproveitemo-la para ganhar maturidade política. Democraticamente.

Sérgio Buarque de Holanda

POR MARÇAL DE MENEZES PAREDES | Coordenador do PPG de História da PUCRS

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A EXPRESSÃO DAS RUAS

 

ZERO HORA 17 de agosto de 2015 | N° 18264


EDITORIAL



As autoridades de todos os poderes devem oferecer respostas efetivas à terceira grande manifestação do ano contra os danos da corrupção.O Brasil teve ontem, nas ruas das capitais e de muitas cidades médias, a demonstração de uma das mais consagradas expressões da cidadania. Mesmo sem o vigor de ocasiões anteriores, pela terceira vez neste ano a população, contrariada com a situação da política e da economia, verbalizou a condenação dos corruptos, com críticas diretas aos desmandos do governo e em especial à figura da presidente Dilma Rousseff. O Brasil indignado reforçou um recado que se estende a outros setores da vida pública e deve ser compartilhado principalmente com o Congresso. A combinação dos ambientes de estagnação econômica e de corrupção levou multidões a passeatas que, desta vez, tiveram peculiaridades a serem destacadas.

Ficou evidente, como marca da maioria dos protestos, a exaltação da figura do juiz Sergio Moro, que coordena os processos da Operação Lava-Jato e cuja performance vem sendo reconhecida inclusive no Exterior. As faixas e os cartazes com referências ao magistrado devem ser vistos como manifestação de confiança em uma autoridade que passa a personificar a autonomia e a independência da Justiça, um dos pilares da democracia. Também merece registro o fato de que, mais desta vez do que nos protestos de março e abril, os manifestantes acolheram a participação de políticos.

Mas a grande característica em comum, desta e das outras marchas, foi o fato de que a população desfrutou o direito de se manifestar de forma pacífica, sem que incidentes graves de violência ou intolerância tenham sido registrados. Com algumas manifestações localizadas pró-governo, foi ratificada também a possibilidade da diversidade de pontos de vista, mesmo em cenários que, eventualmente, possam ter maioria de oposicionistas – como era claramente o ambiente de ontem no país.

Cabe aos políticos avaliar os recados que os manifestantes têm explicitado de forma categórica. A mensagem mais enfática é de que o esforço para a recuperação da economia não será suficiente para acalmar o país. O que os brasileiros desejam, e não só os que foram às ruas, é o combate implacável à corrupção. Um governo fragilizado pela sucessão de escândalos e pelo mais baixo nível de aprovação da história não pode, a partir de avaliações sobre o número de participantes, enganar- se com o fato de que as pas- seatas não teriam superado as de março e abril. O Executivo e os demais poderes terão de oferecer respostas às manifestações de ontem, para que a expectativa de mudanças não dependa apenas das virtudes da Justiça.

MANIFESTANTAS PROTESTAM CONTRA O GOVERNO

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 16/08/2015

Manifestantes protestam contra o governo em todos estados e no DF. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas exigindo o fim da corrupção e pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff.


Em todos os estados e no Distrito Federal, centenas de milhares de pessoas foram às ruas neste domingo (16) exigindo o fim da corrupção e pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Pela primeira vez, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva foi também fortemente criticado pelos manifestantes.

Assim como nos protestos de março e de abril, a maior manifestação do dia aconteceu em São Paulo. Em relação à última, de abril, ela reuniu um número maior de manifestantes deste domingo. Para o instituto Datafolha, em abril 100 mil pessoas participaram do protesto na Paulista. Neste domingo, o instituto contou 135 mil.

Para a Polícia Militar, o número foi de 275 mil em abril e de 350 mil agora. E para os organizadores, o ato tinha 800 mil manifestantes em abril e, agora, entre 900 mil e 1,5 milhão. Em relação aos protestos de 15 de março, os atos deste domingo reuniram menos gente.

Em março, o Datafolha contou 210 mil pessoas na Paulista, a PM e os organizadores, 1 milhão. Neste domingo, tanto em São Paulo quanto nas outras cidades, o Hino Nacional esteve sempre presente.

Bandeiras do Brasil, verde e amarelo nas roupas e mais uma vez manifestantes foram para as ruas. As palavras de ordem eram as mesmas das outras duas manifestações: pelo impeachment, contra a corrupção, contra o governo e contra o PT. Nas mãos dos manifestantes, muitas panelas fazendo barulho contra a presidente Dilma. E faixas e cartazes de apoio ao juiz Sérgio Moro, que cuida da Operação Lava Jato e contra o ex-presidente Lula. O Hino Nacional foi repetido de norte a sul do país.

Em Brasília, as manifestações foram cedo para a rua. A concentração foi na Esplanada dos Ministérios e seguiu até o Congresso Nacional. Segundo os organizadores, eram 55 mil pessoas. Vinte e cinco mil, segundo a PM.

O clima seco, o calor e o sol forte não desanimaram os brasilienses que carregavam uma faixa gigantesca pedindo o impeachment. Muitas declarações de apoio ao juiz Sério Moro. E entre as pessoas, um boneco do ex-presidente Lula vestido como presidiário chamava a atenção. Além da passeata, muita gente participou do protesto de carro.

No Rio de Janeiro, o protesto foi na orla de Copacabana. A Polícia Militar não calculou e os organizadores não se entenderam quanto ao número de manifestantes. Cartazes e faixas pediam o impeachment da presidente. Quem não foi para as ruas, colocou bandeiras nas janelas.

Os cariocas também levaram cartazes contra a corrupção, em favor das investigações da Lava Jato e do juiz Sérgio Moro. No meio da manifestação um grupo defendeu o governo e o PT e foi muito vaiado. Não houve grandes incidentes, segundo a Polícia Militar.

A manifestação em Belo Horizonte começou na Praça da Liberdade e seguiu para a Praça da Savassi. As cores da bandeira do Brasil também eram as preferidas dos manifestantes. Vinte mil pessoas, segundo os organizadores. Seis mil segundo a PM. Na capital mineira, os manifestantes repetiram as palavras de ordem pelo impeachment da presidente Dilma, contra o ex-presidente Lula e pelo fim da corrupção.

Ao contrário das outras manifestações, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, desta vez foi para a rua. Ele fez discurso em um carro de som.

No interior do estado, em Uberaba, a manifestação foi em frente à casa onde moraram os avós da presidente Dilma. Duzentos e cinquenta manifestantes segundo os organizadores. Cem, segundo a PM, usaram baldes e vassouras para varrer a corrupção.

Em Belém, o protesto começou cedo com manifestantes percorrendo as ruas do centro da cidade. Dez mil pessoas segundo os organizadores. A PM calculou cinco mil manifestantes. Eles pediam o fim da corrupção, redução dos impostos e do desemprego.

Na capital baiana uma imensa bandeira com pedido de fora Dilma foi estendida em frente ao Farol da Barra. Os organizadores estimam que 15 mil pessoas protestaram nas ruas de Salvador. A PM calcula que eram 5 mil. Vários cartazes em apoio ao juiz Sérgio Moro e contra o ex-presidente Lula se espalharam ao longo do percurso.

Na orla de Maceió, 15 mil pessoas participaram do protesto, segundo os organizadores. Doze mil, segundo a PM. As palavras de ordem eram contra a presidente Dilma e o ex-presidente Lula.

No Recife, os protestos contra a corrupção e o governo reuniram 50 mil pessoas, segundo os organizadores. A PM não calculou. Os manifestantes pediram o fim da corrupção e levaram para a rua um imenso boneco do juiz Sérgio Moro, nos moldes dos bonecos de Olinda. Uma banda de frevo acompanhou tudo.

O impeachment também foi o pedido dos manifestantes de Curitiba. Tanto os organizadores quanto a Polícia Militar calcularam a participação de 60 mil manifestantes. Em clima pacífico as pessoas pediam a saída da presidente Dilma e recolheram assinaturas em apoio a um projeto do Ministério Público contra a corrupção. Uma enorme faixa saudava a Operação Lava Jato e vários manifestantes aproveitaram uma estátua do juiz Sérgio Moro para fazer selfies.

Domingo de protesto também em várias outras capitais, cartazes e faixas pedindo o impeachment da presidente Dilma e o fim da corrupção se repetiram nas ruas. São Luís reuniu 7 mil manifestantes segundo os organizadores. Dois mil e quinhentos segundo a PM. Nas ruas de Natal, os organizadores contaram dez mil e a PM cinco mil manifestantes

Os goianos foram para a Praça Tamandaré. Setenta mil, segundo os organizadores. Dez mil segundo a PM.

Em Porto Alegre eram 65 mil pessoas, segundo os organizadores, 30 mil, segundo a PM. E em Florianópolis, 30 mil, segundo os organizadores, 26 mil, para a PM.

No Espírito Santo, manifestantes saíram de Vila Velha para encontrar outro grupo que já se concentrava na praça do Papa, em Vitória. Segundo os organizadores 70 mil pessoas participaram do protesto. A polícia calcula que eram 40 mil. Durante todo o percurso, as pessoas gritavam palavras de ordem contra a presidente Dilma.

Em Fortaleza teve até coreografia ensaiada para protestar. E vários cartazes contra a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Cinquenta mil pessoas foram para as ruas, segundo os organizadores. Quinze mil, segundo a PM.

Houve protestos também em várias cidades do interior de São Paulo. Em Ribeirão Preto, teve batucada. Manifestantes pediram o fim da corrupção e a renúncia da presidente Dilma. Segundo os organizadores, 45 mil pessoas participaram do ato. A PM contou 40 mil.

Oito mil pessoas, segundo os organizadores, se reuniram na frente da prefeitura de São José do Rio Preto. A polícia diz que eram seis mil. O grupo saiu em passeata, debaixo de uma bandeira, com cartazes em apoio ao juiz Sérgio Moro.

Em Campinas, a manifestação reuniu 55 mil pessoas, segundo os organizadores. A Guarda Municipal diz que eram cerca de 6 mil.

Em São Paulo, os caminhões de som passaram por uma vistoria de segurança da Polícia Militar e seguiram em comboio para a Avenida Paulista, por volta de 12h. Lá se reuniram com manifestantes que foram de moto. Fantasiados, e com instrumentos musicais. Ainda durante a concentração, um homem tentou defender a presidente Dilma Rousseff. Os manifestantes tomaram o cartaz, e ele teve que ir embora.

Às 14h, começava a chegar mais gente para participar da manifestação na Avenida Paulista. Era esse o horário marcado para o início do protesto, que foi aberto com o Hino Nacional.

Em bandeiras e cartazes, protestos contra a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. O pedido de impeachment apareceu em faixas, e dividiu opiniões entre quem foi para a rua.

Protestos também contra a corrupção, contra quase todos os políticos e apoio ao juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Operação Lava Jato.

A manifestação contou com a presença de políticos. As duas pistas da Paulista ficaram cheias, estava difícil circular entre a multidão. Mesmo assim a manifestação seguiu sem incidentes.

Às 16h, o protesto ocupou dez quarteirões da Avenida Paulista. Os grupos organizadores estimaram o público entre 900 mil e um milhão e meio de pessoas. Segundo a Polícia Militar, foram 350 mil no pico, 75 mil a mais do que em abril. O Datafolha contou 135 mil manifestantes, 35 mil a mais do que no protesto anterior, de 12 de abril.

A presidente Dilma Rousseff não se pronunciou sobre as manifestações que pediram seu impeachment. O ministro da secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, divulgou uma nota em que diz que apenas que o governo viu as manifestações dentro da normalidade democrática. Foi o único ministro a se pronunciar. O Partido dos Trabalhadores não quis falar sobre as manifestações.

Em relação aos protestos contra o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e o boneco que o representava vestido como presidiário, o Instituto Lula divulgou nota em que afirma “Lula foi preso na ditadura porque defendia a liberdade de expressão e organização política. O povo brasileiro sabe que ele só pode ser acusado de ter promovido a melhora das condições de vida e acabado com a fome de milhões de brasileiros, o que para alguns, parece ser um crime político intolerável. Lula jamais cometeu qualquer ilegalidade antes, durante ou depois de seus dois governos”.

sábado, 15 de agosto de 2015

O DIREITO E O RESPEITO


ZERO HORA 16 de agosto de 2015 | N° 18263


EDITORIAL



As manifestações contra e pró governo devem ser vistas no contexto da normalidade democrática e da aceitação da pluralidade política.

Duas grandes manifestações populares estão programadas para os próximos dias no país. Para este domingo, partidos de oposição e organizações da sociedade civil prometem uma megademonstração de repúdio ao governo Dilma Rousseff, respaldada pela baixa popularidade da presidente, pela crise econômica e pelas investigações da corrupção na Petrobras. Para o dia 20, próxima quinta-feira, movimentos sociais aglutinados em torno de CUT, UNE, MST, Levante Popular da Juventude, Marcha Mundial das Mulheres, entre outras entidades, pretendem protestar contra o ajuste fiscal, mas apoiar a presidente. Ambas as manifestações podem ser um exercício de democracia, se os seus organizadores e as autoridades cuidarem para que não descambem para a violência.

As passeatas previstas para domingo dão sequência a uma série de protestos iniciados no inverno de 2013, quando multidões saíram às ruas motivadas por demandas variadas, como as deficiências e as tarifas do transporte coletivo e os gastos com a Copa. Em 2015, duas mobilizações, em março e abril, focaram em dois temas centrais – a corrupção e a incapacidade do governo de reagir à crise. Ficou evidente, em abril, o crescimento do descontentamento com o governo e a ampliação dos apelos pelo impeachment. A evolução do cenário econômico, político e social, nesses quatro meses, é de agravamento das tensões em todas as áreas, com a fragilização da base de apoio ao governo e a queda a níveis recordes da confiança na presidente da República.

Quem sair às ruas para defender posições críticas ou de apoio ao governo tem, como referência, as manifestações deste ano, quando o que prevaleceu foi o bom senso. É o que se espera mais uma vez, considerando-se que atos públicos são a expressão da normalidade democrática, desde que submetidos às leis e à ordem. Os dois atos, o deste domingo e o do próximo dia 20, devem corresponder à expectativa de que os brasileiros amadurecem, a cada evento, a compreensão de direitos e deveres, especialmente em momentos de insegurança e de incerteza, como o que o país vive hoje.

Espera-se que o quadro de confronto de posições, explicitado pelos organizadores das passeatas, fique restrito ao campo das ideias, com respeito mútuo pela pluralidade. O Brasil, e não só os que se envolverem diretamente nos atos, continuará aprendendo com as manifestações. O exercício pleno e permanente da cidadania é a melhor contribuição ao aperfeiçoamento da democracia e das instituições.



Editorial publicado antecipadamente no site de Zero Hora, na quinta-feira, com links para Facebook e Twitter. Os comentários para a edição impressa foram selecionados até as 18h de sexta-feira. A questão: Editorial diz que protestos fortalecem a democracia. Você concorda?

O LEITOR CONCORDA

Eu concordo que deve, sim, haver manifestações de forma pacífica, mas também devemos ter o devido respeito por parte de nossos governantes, sejam de que partido for, o que não acontece hoje, pois o que se vê é a corrupção alastrada por todos os cantos do país e a falta de respeito com o povo brasileiro, porque estamos vendo só falácias e impunidade e cada vez mais a incredulidade nas leis que regem nosso país e que propiciam cada vez mais a corrupção e os corruptos, destruindo nosso Brasil por completo.

ADRIANO REVELANTE, CANDIOTA (RS)

Vivemos em uma época de excesso de informação, mas muito pouco de participação ativa da população. É fundamental a demonstração de insatisfação e de que queremos mudar o rumo da nação. O futuro depende de nossas ações e tenho esperança de que juntos podemos fazer a diferença sem medo da mudança.

DENIS CATELANPORTO ALEGRE (RS)

Todo e qualquer protesto é salutar em uma democracia, faz parte dela inclusive. Desde que mantido o respeito às ideias de outros.

RONALDO OLIVEIRA MORAIS, PORTO ALEGRE (RS)



O LEITOR DISCORDA


Não é um exercício de democracia e, sim, de intolerância às urnas, já que temos um governo recém eleito e recém empossado. Como pode um governo nessas condições ser repudiado? Querem anular o resultado da maioria votante, ainda que por pequena margem? Decididamente isso não é amadurecimento democrático e, sim, amadurecimento golpista!!

MANOEL HENRIQUE DA SILVA, CANOAS (RS)

Discordo de protestos promovidos por mídia virtual de grupos que não se identificam de onde vêm, como “pátria livre”, “revoltados net”, e quem os financia. Têm postura xenófoba e antidemocrática, não discutem o Legislativo e o Judiciário, e são mantidos por partidos de direita.

CLAUDIA FRANCESCHINI, PORTO ALEGRE (RS)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

MORADORA PRESSIONA, MOBILIZA A COMUNIDADE E FAZ VEREADORES REDUZIREM SEUS SALÁRIOS

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 19/07/2015


Moradora faz pressão e vereadores, em vez de aumentar, cortam salários. Na Câmara de Santo Antônio da Platina, Adriana discutiu com parlamentar. Vídeo fez sucesso na internet e população lotou a Casa para ver votação.






Quem é a pequena comerciante de Santo Antônio da Platina, no interior do Paraná. Que deu, esta semana, um exemplo de cidadania para todo o país?

Você viu, no Jornal Nacional de quinta-feira (16): Adriana Lemes de Oliveira conseguiu impedir que os vereadores da cidade aprovassem um aumento de salário. Hoje, é aclamada nas ruas.

Na pequena loja de presentes, a freguesia continua a mesma, mas a dona nunca viu tanta tietagem. “Digo parabéns porque o que estamos passando é vergonhoso”, diz a cliente Lilian Souza. E sair para ruas, então? Está difícil. A equipe do Fantástico não dá um passo sem que ela pare para cumprimentar, acenar para alguém.

“Porque ela representou o que a gente queria fazer, mas talvez não tivesse coragem de ir lá e fazer o que ela fez", diz a vendedora Helen Faria

A rotina de Adriana, de 43 anos, mudou, de repente, por causa de um gesto, um ato de cidadania. Na segunda-feira (13), a Câmara de Santo Antônio da Platina aprovou, em primeira discussão, um projeto que previa aumento de salário para prefeito e vereadores da próxima legislatura. No dia seguinte, indignada, a Adriana foi até à Câmara cobrar explicações. Mas acabou se envolvendo em um bate-boca com um vereador.

A cena foi gravada com um celular. Adriana discute com o vereador José Jaime Paula Silva (PSB), conhecido como mineiro. “Isso é um absurdo”, disse ela no vídeo.

“País está em crise. E ele falou: ‘Crise? Você está em crise? Eu não estou em crise’. Nossa, eu fiquei desnorteada”, conta a empresária Adriana Lemes de Oliveira.

Fantástico: O senhor está em contato com as ruas, vereador?
José Jaime Silva, vereador do PSB: Direto.
Fantástico: E o senhor não está vendo a crise?
José Jaime Silva: Não estou vendo. Muito pouco.

Para quem conhece Adriana, nenhuma surpresa. A irmã conta que ela é assim desde pequena.

Angélica Lemes e Silva: Ela sempre foi assim a vida inteira.
Fantástico: Via uma coisa errada e já reclamava?
Angélica Lemes e Silva: Jamais e não leva desaforo para casa.

A professora também confirma a fama da ex-aluna "A gente já podia enxergar essa liderança nela. Essa luta pelas coisas certas”, conta Olinda Chaves.

E, em casa, o marido Rubens confessa: nada nem ninguém pode sair da linha. A gente tem que segurar, às vezes, ‘calma, calma’, diz o marido Rubens Alves Neto.

Para as filhas, Helena e Isadora, o jeitão da mãe é motivo de orgulho. "Eu achei o máximo, muito bom porque é a cara da minha mãe fazer isso”, diz a filha Isadora Oliveira Alves.

O vídeo de Adriana discutindo com o vereador caiu na internet e a história, na boca do povo. Na quarta-feira (16), moradores lotaram a Câmara para acompanhar a segunda votação do projeto. Quando Adriana chegou, foi aplaudida de pé.

Com a casa cheia e Adriana na linha de frente, os vereadores não só desistiram do aumento como apresentaram uma emenda para baixar os salários. E foi um corte radical.

Pelo projeto, o salário de vereador iria de R$ 3.745 para R$ 7,5 mil e o do prefeito de R$ 14.760 para R$ 22 mil. Agora, o próximo prefeito vai ganhar R$ 12 mil e os vereadores, R$ 970.

Nas galerias, o povo comemorou. Os vereadores reconheceram: só voltaram atrás por causa da pressão popular. "O povo veio, fez a pressão, rede social fez pressão. Eu acho que isso serve de exemplo para o país inteiro", diz o vereador Francisco Faustino de Proença Júnior (PPS).

"O povo tem força e isso foi provado aqui. A gente não pode se acovardar, não pode. Tem que dar a cara para bater e lutar pelos nossos direitos, porque nós estamos em maioria. O povo é a maioria", afirma Adriana.