A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

domingo, 6 de setembro de 2015

O HOMEM CORDIAL, AINDA



ZERO HORA 06 de setembro de 2015 | N° 18286


MARÇAL DE MENEZES PAREDES



Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982) nos conduz a um questionar o modo de ser brasileiro, desbravando pontos críticos de nossa formação histórica através de um ensaio de leitura obrigatória e releitura sempre necessária. Em Raízes do Brasil (1936), o autor formula uma interpretação fecunda de nossa identidade sob influência da sociologia weberiana e do historicismo alemão, condensando reflexões de impressionante contemporaneidade e vitalidade crítica.

O conceito de homem cordial contempla leitura de psicologia histórica com crítica sociológico-cultural, manifestando o dilema brasileiro: nosso encanto coletivo e nosso drama existencial andam de mãos-dadas. Politicamente, economicamente, culturalmente. Por um lado, a inexistência de limites rígidos entre os âmbitos Público e Privado abre espaço para uma sociabilidade quente e uma simpatia inconteste. Por outro lado, dá margem para a corrupção estrutural, o uso patrimonialista do Estado, o nepotismo, o “jeitinho”. É fundamental perceber que a cordialidade remete ao uso da passionalidade como caminho preponderante para a resolução de conflitos, nada tendo a ver, portanto, com civilidade ou polidez. Daí que o nosso propalado caráter afetuoso transforme-se rapidamente em violência; daí que a crítica política flerte com o golpe de Estado; daí que nossa alegria horizontalizada torne-se, de súbito, em vertical hierarquia e severo conservadorismo.

A forma como o debate político tem sido encenado desde a última campanha eleitoral – opondo radicalismos entre “coxinhas” e “petralhas” – encarna a velha prática política. A perseguição furiosa e o salvamento redentor de líderes político-carismáticos, ambos, fazem uso de uma retórica nacionalista para esconder seu profundo moralismo: a esquerda contra “o neoliberalismo” e o “fascismo”; a direita em “cruzada” patriótica contra a corrupção, sempre ávida por mais um caudilho.

A passionalidade no ataque irascível e na defesa radical do governo demonstra que ainda exercitamos a política como se fôssemos limpar a honra da família. As agressões personalistas de péssimo gosto nas redes sociais deixam claro diferentes tipos de conservadorismo: do machismo contra a presidente e da homofobia contra a educação progressista às denúncias de vícios condenáveis de determinados políticos. Seguimos – solertes – navegando na “ética de fundo emotivo” de que nos falava Buarque de Holanda: o bordão “mexeu com fulano, mexeu comigo” é o mais recente exemplo disso.

A decodificação deste dilema está, em Raízes do Brasil, formulada na reflexão sobre a mudança do modelo agrícola oligárquico e patriarcal para o padrão urbano industrial no Brasil da Era Vargas. Essa transição não teria sido completa, tendo deixado sequelas sociais e idiossincrasias culturais: sua mirada apontava para um descompasso entre a nova fase da vida nacional (o nacional-desenvolvimentismo) e a permanência de velhas mentalidades (o patriarcalismo e o patrimonialismo). Tínhamos construído formalmente estruturas econômicas e políticas modernas, mas estas estavam “preenchidas” por uma cultura de matriz arcaica e personalista. A modernização do sistema social fica, assim, cotidianamente burlada por uma resiliente mentalidade pré-moderna, avessa às normatizações da vida e ao universalismo dos procedimentos.

Exemplo da extensão da cordialidade na vida brasileira são os trechos de Raízes em que Sérgio demonstra os sintomas cotidianos de nossa ânsia em estabelecer intimidade em esferas que (por hipótese) seriam de foro público ou formal: o uso indiscriminado da terminação “inho” acrescida às palavras e objetos como maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também aproximá-los do coração; o caráter intimista de nossa religiosidade que trata o próprio Deus como um amigo familiar; o imperativo de, para conquistar um freguês, fazer-se amigo dele. A repartição pública ganha ares de um prolongamento da casa e a impessoalidade da técnica é maculada pelo uso passional e ideológico da ciência.

A atual ira generalizada contra a corrupção nos defronta novamente com esta faceta cordial. O desafio não é uma reforma no sistema ou a troca do governo – e cuidado: não há nada mais “cordial” e “velho” que golpismo em nossa política. O desafio é uma mudança profunda, cultural, que reinvente os parâmetros interpessoais e a relação entre Estado e Sociedade. Se a crise é grave, que aproveitemo-la para ganhar maturidade política. Democraticamente.

Sérgio Buarque de Holanda

POR MARÇAL DE MENEZES PAREDES | Coordenador do PPG de História da PUCRS

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A EXPRESSÃO DAS RUAS

 

ZERO HORA 17 de agosto de 2015 | N° 18264


EDITORIAL



As autoridades de todos os poderes devem oferecer respostas efetivas à terceira grande manifestação do ano contra os danos da corrupção.O Brasil teve ontem, nas ruas das capitais e de muitas cidades médias, a demonstração de uma das mais consagradas expressões da cidadania. Mesmo sem o vigor de ocasiões anteriores, pela terceira vez neste ano a população, contrariada com a situação da política e da economia, verbalizou a condenação dos corruptos, com críticas diretas aos desmandos do governo e em especial à figura da presidente Dilma Rousseff. O Brasil indignado reforçou um recado que se estende a outros setores da vida pública e deve ser compartilhado principalmente com o Congresso. A combinação dos ambientes de estagnação econômica e de corrupção levou multidões a passeatas que, desta vez, tiveram peculiaridades a serem destacadas.

Ficou evidente, como marca da maioria dos protestos, a exaltação da figura do juiz Sergio Moro, que coordena os processos da Operação Lava-Jato e cuja performance vem sendo reconhecida inclusive no Exterior. As faixas e os cartazes com referências ao magistrado devem ser vistos como manifestação de confiança em uma autoridade que passa a personificar a autonomia e a independência da Justiça, um dos pilares da democracia. Também merece registro o fato de que, mais desta vez do que nos protestos de março e abril, os manifestantes acolheram a participação de políticos.

Mas a grande característica em comum, desta e das outras marchas, foi o fato de que a população desfrutou o direito de se manifestar de forma pacífica, sem que incidentes graves de violência ou intolerância tenham sido registrados. Com algumas manifestações localizadas pró-governo, foi ratificada também a possibilidade da diversidade de pontos de vista, mesmo em cenários que, eventualmente, possam ter maioria de oposicionistas – como era claramente o ambiente de ontem no país.

Cabe aos políticos avaliar os recados que os manifestantes têm explicitado de forma categórica. A mensagem mais enfática é de que o esforço para a recuperação da economia não será suficiente para acalmar o país. O que os brasileiros desejam, e não só os que foram às ruas, é o combate implacável à corrupção. Um governo fragilizado pela sucessão de escândalos e pelo mais baixo nível de aprovação da história não pode, a partir de avaliações sobre o número de participantes, enganar- se com o fato de que as pas- seatas não teriam superado as de março e abril. O Executivo e os demais poderes terão de oferecer respostas às manifestações de ontem, para que a expectativa de mudanças não dependa apenas das virtudes da Justiça.

MANIFESTANTAS PROTESTAM CONTRA O GOVERNO

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 16/08/2015

Manifestantes protestam contra o governo em todos estados e no DF. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas exigindo o fim da corrupção e pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff.


Em todos os estados e no Distrito Federal, centenas de milhares de pessoas foram às ruas neste domingo (16) exigindo o fim da corrupção e pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Pela primeira vez, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva foi também fortemente criticado pelos manifestantes.

Assim como nos protestos de março e de abril, a maior manifestação do dia aconteceu em São Paulo. Em relação à última, de abril, ela reuniu um número maior de manifestantes deste domingo. Para o instituto Datafolha, em abril 100 mil pessoas participaram do protesto na Paulista. Neste domingo, o instituto contou 135 mil.

Para a Polícia Militar, o número foi de 275 mil em abril e de 350 mil agora. E para os organizadores, o ato tinha 800 mil manifestantes em abril e, agora, entre 900 mil e 1,5 milhão. Em relação aos protestos de 15 de março, os atos deste domingo reuniram menos gente.

Em março, o Datafolha contou 210 mil pessoas na Paulista, a PM e os organizadores, 1 milhão. Neste domingo, tanto em São Paulo quanto nas outras cidades, o Hino Nacional esteve sempre presente.

Bandeiras do Brasil, verde e amarelo nas roupas e mais uma vez manifestantes foram para as ruas. As palavras de ordem eram as mesmas das outras duas manifestações: pelo impeachment, contra a corrupção, contra o governo e contra o PT. Nas mãos dos manifestantes, muitas panelas fazendo barulho contra a presidente Dilma. E faixas e cartazes de apoio ao juiz Sérgio Moro, que cuida da Operação Lava Jato e contra o ex-presidente Lula. O Hino Nacional foi repetido de norte a sul do país.

Em Brasília, as manifestações foram cedo para a rua. A concentração foi na Esplanada dos Ministérios e seguiu até o Congresso Nacional. Segundo os organizadores, eram 55 mil pessoas. Vinte e cinco mil, segundo a PM.

O clima seco, o calor e o sol forte não desanimaram os brasilienses que carregavam uma faixa gigantesca pedindo o impeachment. Muitas declarações de apoio ao juiz Sério Moro. E entre as pessoas, um boneco do ex-presidente Lula vestido como presidiário chamava a atenção. Além da passeata, muita gente participou do protesto de carro.

No Rio de Janeiro, o protesto foi na orla de Copacabana. A Polícia Militar não calculou e os organizadores não se entenderam quanto ao número de manifestantes. Cartazes e faixas pediam o impeachment da presidente. Quem não foi para as ruas, colocou bandeiras nas janelas.

Os cariocas também levaram cartazes contra a corrupção, em favor das investigações da Lava Jato e do juiz Sérgio Moro. No meio da manifestação um grupo defendeu o governo e o PT e foi muito vaiado. Não houve grandes incidentes, segundo a Polícia Militar.

A manifestação em Belo Horizonte começou na Praça da Liberdade e seguiu para a Praça da Savassi. As cores da bandeira do Brasil também eram as preferidas dos manifestantes. Vinte mil pessoas, segundo os organizadores. Seis mil segundo a PM. Na capital mineira, os manifestantes repetiram as palavras de ordem pelo impeachment da presidente Dilma, contra o ex-presidente Lula e pelo fim da corrupção.

Ao contrário das outras manifestações, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, desta vez foi para a rua. Ele fez discurso em um carro de som.

No interior do estado, em Uberaba, a manifestação foi em frente à casa onde moraram os avós da presidente Dilma. Duzentos e cinquenta manifestantes segundo os organizadores. Cem, segundo a PM, usaram baldes e vassouras para varrer a corrupção.

Em Belém, o protesto começou cedo com manifestantes percorrendo as ruas do centro da cidade. Dez mil pessoas segundo os organizadores. A PM calculou cinco mil manifestantes. Eles pediam o fim da corrupção, redução dos impostos e do desemprego.

Na capital baiana uma imensa bandeira com pedido de fora Dilma foi estendida em frente ao Farol da Barra. Os organizadores estimam que 15 mil pessoas protestaram nas ruas de Salvador. A PM calcula que eram 5 mil. Vários cartazes em apoio ao juiz Sérgio Moro e contra o ex-presidente Lula se espalharam ao longo do percurso.

Na orla de Maceió, 15 mil pessoas participaram do protesto, segundo os organizadores. Doze mil, segundo a PM. As palavras de ordem eram contra a presidente Dilma e o ex-presidente Lula.

No Recife, os protestos contra a corrupção e o governo reuniram 50 mil pessoas, segundo os organizadores. A PM não calculou. Os manifestantes pediram o fim da corrupção e levaram para a rua um imenso boneco do juiz Sérgio Moro, nos moldes dos bonecos de Olinda. Uma banda de frevo acompanhou tudo.

O impeachment também foi o pedido dos manifestantes de Curitiba. Tanto os organizadores quanto a Polícia Militar calcularam a participação de 60 mil manifestantes. Em clima pacífico as pessoas pediam a saída da presidente Dilma e recolheram assinaturas em apoio a um projeto do Ministério Público contra a corrupção. Uma enorme faixa saudava a Operação Lava Jato e vários manifestantes aproveitaram uma estátua do juiz Sérgio Moro para fazer selfies.

Domingo de protesto também em várias outras capitais, cartazes e faixas pedindo o impeachment da presidente Dilma e o fim da corrupção se repetiram nas ruas. São Luís reuniu 7 mil manifestantes segundo os organizadores. Dois mil e quinhentos segundo a PM. Nas ruas de Natal, os organizadores contaram dez mil e a PM cinco mil manifestantes

Os goianos foram para a Praça Tamandaré. Setenta mil, segundo os organizadores. Dez mil segundo a PM.

Em Porto Alegre eram 65 mil pessoas, segundo os organizadores, 30 mil, segundo a PM. E em Florianópolis, 30 mil, segundo os organizadores, 26 mil, para a PM.

No Espírito Santo, manifestantes saíram de Vila Velha para encontrar outro grupo que já se concentrava na praça do Papa, em Vitória. Segundo os organizadores 70 mil pessoas participaram do protesto. A polícia calcula que eram 40 mil. Durante todo o percurso, as pessoas gritavam palavras de ordem contra a presidente Dilma.

Em Fortaleza teve até coreografia ensaiada para protestar. E vários cartazes contra a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Cinquenta mil pessoas foram para as ruas, segundo os organizadores. Quinze mil, segundo a PM.

Houve protestos também em várias cidades do interior de São Paulo. Em Ribeirão Preto, teve batucada. Manifestantes pediram o fim da corrupção e a renúncia da presidente Dilma. Segundo os organizadores, 45 mil pessoas participaram do ato. A PM contou 40 mil.

Oito mil pessoas, segundo os organizadores, se reuniram na frente da prefeitura de São José do Rio Preto. A polícia diz que eram seis mil. O grupo saiu em passeata, debaixo de uma bandeira, com cartazes em apoio ao juiz Sérgio Moro.

Em Campinas, a manifestação reuniu 55 mil pessoas, segundo os organizadores. A Guarda Municipal diz que eram cerca de 6 mil.

Em São Paulo, os caminhões de som passaram por uma vistoria de segurança da Polícia Militar e seguiram em comboio para a Avenida Paulista, por volta de 12h. Lá se reuniram com manifestantes que foram de moto. Fantasiados, e com instrumentos musicais. Ainda durante a concentração, um homem tentou defender a presidente Dilma Rousseff. Os manifestantes tomaram o cartaz, e ele teve que ir embora.

Às 14h, começava a chegar mais gente para participar da manifestação na Avenida Paulista. Era esse o horário marcado para o início do protesto, que foi aberto com o Hino Nacional.

Em bandeiras e cartazes, protestos contra a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. O pedido de impeachment apareceu em faixas, e dividiu opiniões entre quem foi para a rua.

Protestos também contra a corrupção, contra quase todos os políticos e apoio ao juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Operação Lava Jato.

A manifestação contou com a presença de políticos. As duas pistas da Paulista ficaram cheias, estava difícil circular entre a multidão. Mesmo assim a manifestação seguiu sem incidentes.

Às 16h, o protesto ocupou dez quarteirões da Avenida Paulista. Os grupos organizadores estimaram o público entre 900 mil e um milhão e meio de pessoas. Segundo a Polícia Militar, foram 350 mil no pico, 75 mil a mais do que em abril. O Datafolha contou 135 mil manifestantes, 35 mil a mais do que no protesto anterior, de 12 de abril.

A presidente Dilma Rousseff não se pronunciou sobre as manifestações que pediram seu impeachment. O ministro da secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, divulgou uma nota em que diz que apenas que o governo viu as manifestações dentro da normalidade democrática. Foi o único ministro a se pronunciar. O Partido dos Trabalhadores não quis falar sobre as manifestações.

Em relação aos protestos contra o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e o boneco que o representava vestido como presidiário, o Instituto Lula divulgou nota em que afirma “Lula foi preso na ditadura porque defendia a liberdade de expressão e organização política. O povo brasileiro sabe que ele só pode ser acusado de ter promovido a melhora das condições de vida e acabado com a fome de milhões de brasileiros, o que para alguns, parece ser um crime político intolerável. Lula jamais cometeu qualquer ilegalidade antes, durante ou depois de seus dois governos”.

sábado, 15 de agosto de 2015

O DIREITO E O RESPEITO


ZERO HORA 16 de agosto de 2015 | N° 18263


EDITORIAL



As manifestações contra e pró governo devem ser vistas no contexto da normalidade democrática e da aceitação da pluralidade política.

Duas grandes manifestações populares estão programadas para os próximos dias no país. Para este domingo, partidos de oposição e organizações da sociedade civil prometem uma megademonstração de repúdio ao governo Dilma Rousseff, respaldada pela baixa popularidade da presidente, pela crise econômica e pelas investigações da corrupção na Petrobras. Para o dia 20, próxima quinta-feira, movimentos sociais aglutinados em torno de CUT, UNE, MST, Levante Popular da Juventude, Marcha Mundial das Mulheres, entre outras entidades, pretendem protestar contra o ajuste fiscal, mas apoiar a presidente. Ambas as manifestações podem ser um exercício de democracia, se os seus organizadores e as autoridades cuidarem para que não descambem para a violência.

As passeatas previstas para domingo dão sequência a uma série de protestos iniciados no inverno de 2013, quando multidões saíram às ruas motivadas por demandas variadas, como as deficiências e as tarifas do transporte coletivo e os gastos com a Copa. Em 2015, duas mobilizações, em março e abril, focaram em dois temas centrais – a corrupção e a incapacidade do governo de reagir à crise. Ficou evidente, em abril, o crescimento do descontentamento com o governo e a ampliação dos apelos pelo impeachment. A evolução do cenário econômico, político e social, nesses quatro meses, é de agravamento das tensões em todas as áreas, com a fragilização da base de apoio ao governo e a queda a níveis recordes da confiança na presidente da República.

Quem sair às ruas para defender posições críticas ou de apoio ao governo tem, como referência, as manifestações deste ano, quando o que prevaleceu foi o bom senso. É o que se espera mais uma vez, considerando-se que atos públicos são a expressão da normalidade democrática, desde que submetidos às leis e à ordem. Os dois atos, o deste domingo e o do próximo dia 20, devem corresponder à expectativa de que os brasileiros amadurecem, a cada evento, a compreensão de direitos e deveres, especialmente em momentos de insegurança e de incerteza, como o que o país vive hoje.

Espera-se que o quadro de confronto de posições, explicitado pelos organizadores das passeatas, fique restrito ao campo das ideias, com respeito mútuo pela pluralidade. O Brasil, e não só os que se envolverem diretamente nos atos, continuará aprendendo com as manifestações. O exercício pleno e permanente da cidadania é a melhor contribuição ao aperfeiçoamento da democracia e das instituições.



Editorial publicado antecipadamente no site de Zero Hora, na quinta-feira, com links para Facebook e Twitter. Os comentários para a edição impressa foram selecionados até as 18h de sexta-feira. A questão: Editorial diz que protestos fortalecem a democracia. Você concorda?

O LEITOR CONCORDA

Eu concordo que deve, sim, haver manifestações de forma pacífica, mas também devemos ter o devido respeito por parte de nossos governantes, sejam de que partido for, o que não acontece hoje, pois o que se vê é a corrupção alastrada por todos os cantos do país e a falta de respeito com o povo brasileiro, porque estamos vendo só falácias e impunidade e cada vez mais a incredulidade nas leis que regem nosso país e que propiciam cada vez mais a corrupção e os corruptos, destruindo nosso Brasil por completo.

ADRIANO REVELANTE, CANDIOTA (RS)

Vivemos em uma época de excesso de informação, mas muito pouco de participação ativa da população. É fundamental a demonstração de insatisfação e de que queremos mudar o rumo da nação. O futuro depende de nossas ações e tenho esperança de que juntos podemos fazer a diferença sem medo da mudança.

DENIS CATELANPORTO ALEGRE (RS)

Todo e qualquer protesto é salutar em uma democracia, faz parte dela inclusive. Desde que mantido o respeito às ideias de outros.

RONALDO OLIVEIRA MORAIS, PORTO ALEGRE (RS)



O LEITOR DISCORDA


Não é um exercício de democracia e, sim, de intolerância às urnas, já que temos um governo recém eleito e recém empossado. Como pode um governo nessas condições ser repudiado? Querem anular o resultado da maioria votante, ainda que por pequena margem? Decididamente isso não é amadurecimento democrático e, sim, amadurecimento golpista!!

MANOEL HENRIQUE DA SILVA, CANOAS (RS)

Discordo de protestos promovidos por mídia virtual de grupos que não se identificam de onde vêm, como “pátria livre”, “revoltados net”, e quem os financia. Têm postura xenófoba e antidemocrática, não discutem o Legislativo e o Judiciário, e são mantidos por partidos de direita.

CLAUDIA FRANCESCHINI, PORTO ALEGRE (RS)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

MORADORA PRESSIONA, MOBILIZA A COMUNIDADE E FAZ VEREADORES REDUZIREM SEUS SALÁRIOS

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 19/07/2015


Moradora faz pressão e vereadores, em vez de aumentar, cortam salários. Na Câmara de Santo Antônio da Platina, Adriana discutiu com parlamentar. Vídeo fez sucesso na internet e população lotou a Casa para ver votação.






Quem é a pequena comerciante de Santo Antônio da Platina, no interior do Paraná. Que deu, esta semana, um exemplo de cidadania para todo o país?

Você viu, no Jornal Nacional de quinta-feira (16): Adriana Lemes de Oliveira conseguiu impedir que os vereadores da cidade aprovassem um aumento de salário. Hoje, é aclamada nas ruas.

Na pequena loja de presentes, a freguesia continua a mesma, mas a dona nunca viu tanta tietagem. “Digo parabéns porque o que estamos passando é vergonhoso”, diz a cliente Lilian Souza. E sair para ruas, então? Está difícil. A equipe do Fantástico não dá um passo sem que ela pare para cumprimentar, acenar para alguém.

“Porque ela representou o que a gente queria fazer, mas talvez não tivesse coragem de ir lá e fazer o que ela fez", diz a vendedora Helen Faria

A rotina de Adriana, de 43 anos, mudou, de repente, por causa de um gesto, um ato de cidadania. Na segunda-feira (13), a Câmara de Santo Antônio da Platina aprovou, em primeira discussão, um projeto que previa aumento de salário para prefeito e vereadores da próxima legislatura. No dia seguinte, indignada, a Adriana foi até à Câmara cobrar explicações. Mas acabou se envolvendo em um bate-boca com um vereador.

A cena foi gravada com um celular. Adriana discute com o vereador José Jaime Paula Silva (PSB), conhecido como mineiro. “Isso é um absurdo”, disse ela no vídeo.

“País está em crise. E ele falou: ‘Crise? Você está em crise? Eu não estou em crise’. Nossa, eu fiquei desnorteada”, conta a empresária Adriana Lemes de Oliveira.

Fantástico: O senhor está em contato com as ruas, vereador?
José Jaime Silva, vereador do PSB: Direto.
Fantástico: E o senhor não está vendo a crise?
José Jaime Silva: Não estou vendo. Muito pouco.

Para quem conhece Adriana, nenhuma surpresa. A irmã conta que ela é assim desde pequena.

Angélica Lemes e Silva: Ela sempre foi assim a vida inteira.
Fantástico: Via uma coisa errada e já reclamava?
Angélica Lemes e Silva: Jamais e não leva desaforo para casa.

A professora também confirma a fama da ex-aluna "A gente já podia enxergar essa liderança nela. Essa luta pelas coisas certas”, conta Olinda Chaves.

E, em casa, o marido Rubens confessa: nada nem ninguém pode sair da linha. A gente tem que segurar, às vezes, ‘calma, calma’, diz o marido Rubens Alves Neto.

Para as filhas, Helena e Isadora, o jeitão da mãe é motivo de orgulho. "Eu achei o máximo, muito bom porque é a cara da minha mãe fazer isso”, diz a filha Isadora Oliveira Alves.

O vídeo de Adriana discutindo com o vereador caiu na internet e a história, na boca do povo. Na quarta-feira (16), moradores lotaram a Câmara para acompanhar a segunda votação do projeto. Quando Adriana chegou, foi aplaudida de pé.

Com a casa cheia e Adriana na linha de frente, os vereadores não só desistiram do aumento como apresentaram uma emenda para baixar os salários. E foi um corte radical.

Pelo projeto, o salário de vereador iria de R$ 3.745 para R$ 7,5 mil e o do prefeito de R$ 14.760 para R$ 22 mil. Agora, o próximo prefeito vai ganhar R$ 12 mil e os vereadores, R$ 970.

Nas galerias, o povo comemorou. Os vereadores reconheceram: só voltaram atrás por causa da pressão popular. "O povo veio, fez a pressão, rede social fez pressão. Eu acho que isso serve de exemplo para o país inteiro", diz o vereador Francisco Faustino de Proença Júnior (PPS).

"O povo tem força e isso foi provado aqui. A gente não pode se acovardar, não pode. Tem que dar a cara para bater e lutar pelos nossos direitos, porque nós estamos em maioria. O povo é a maioria", afirma Adriana.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

SILENCIO ENSURDECEDOR



ZERO HORA 08 de maio de 2015 | N° 18156


MARCOS PIANGERS




Cresci ouvindo que o grande problema do brasileiro era a falta de iniciativa para protesto. “Brasileiro só quer cerveja e futebol!”, gritava um tio meu, meio bêbado enquanto a TV passava Santos e Paysandu. “Olha como são os argentinos! Lá eles fazem protestos! Panelaço na frente da Casa Rosada é a coisa mais comum do mundo!” Imagino que seja por causa desse espírito aguerrido que a Argentina é essa grande potência mundial hoje em dia.

Acompanhei com curiosidade o protesto das panelas na última semana, curiosidade imediatamente morta pelos vídeos de amigos no Facebook. “Fiz a minha parte!”, dizia um, com mais de cem curtidas. “Toma essa, Dilma!”, dizia outro. Os vídeos mostravam adultos e crianças, juntos neste ato cívico de bater em panelas. O barulho ecoando nos bairros mais esclarecidos de diversas cidades brasileiras. Tudo documentado com selfies e vídeos borrados de celular. Um recado de “Se manca!” para Dilma. Algo como uma Indiretas Já.

Existe poder no protesto. Passeatas derrubaram governos, mobilizações provocaram mudanças sociais. A história americana foi marcada por conquistas civis na base da guerra e da resistência. Países desenvolvidos como Islândia e Dinamarca têm histórias de protestos populares. A primavera árabe derrubou ditadores. Países melhoram depois de protestos. E países pioram. Minha dúvida é: pra onde vamos nós?

Tiraremos a Dilma do poder, assumirá o Temer. Chamaremos novas eleições e ganhará o Lula. Proibiremos partidos de esquerda e voltará a ditadura militar. O Brasil é esse país inviável onde quem protesta não sabe o que quer e quem sabe o que quer não protesta. “Todos contra a corrupção!”, grita um lado. “Todos pelo Brasil!”, grita o outro. Dois gritos tão subjetivos quanto inócuos. E no meio disso tudo há o sujeito que simplesmente não quer se envolver. Deixa as coisas serem decididas por radicais ou por desinformados. Opta pelo silêncio. Um silêncio ensurdecedor.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

PANELAÇOS MARCAM PROGRAMA DO PT NA TV



ZERO HORA 06 de maio de 2015 | N° 18154


PROTESTO



A propaganda partidária do PT, exibida ontem à noite em rede nacional de rádio e TV, foi alvo de protestos em bairros de, pelo menos, sete capitais. Em algumas cidades, também ocorreram buzinaços e gritos de “Fora, Dilma” e “Fora, PT”.

Em Porto Alegre, as manifestações foram registradas nos bairros Rio Branco, Moinhos de Vento, Menino Deus, Auxiliadora, Floresta, Passo D’Areia, Higienópolis, Petrópolis, Bom Fim, Mont’Serrat, todos de classe média e classe média alta.

Deputados do PSDB usaram as redes sociais para convocar seus seguidores para o panelaço. Embora não conte com a chancela oficial, o protesto recebeu adesão das bancadas de PSDB e DEM. Durante o dia, mensagens de WhatsApp também pediam para que “fosse feito o maior panelaço da história”.

Nas redes sociais, os avisos de panelaços em bairros de São Paulo dividiam espaço com manifestações favoráveis ao programa do PT. Durante a exibição do programa, a timeline do Twitter ficou repleta de internautas falando de locais onde ocorriam os panelaços e piscar de luzes, intercalando com posts em defesa do PT e do seu programa.

PARTIDO PROMETEU EXPULSAR CONDENADOS

Para tentar minimizar o efeito, o PT divulgou à tarde, na sua página do Facebook, a íntegra do programa de 10 minutos que foi exibido à noite. No programa, aparecem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do partido, Rui Falcão. Não houve participação de Dilma – ela aparece brevemente nas imagens, sem identificação. Lula centrou sua fala contra terceirização, enquanto Falcão anunciou que o partido vai expulsar militantes que forem condenados por “malfeitos”.

A medida, determinada por resolução aprovada pelo diretório nacional em 29 de novembro de 2014 como resposta ao sentimento antipetista verificado nas eleições, difere da conduta adotada após as condenações do mensalão, quando o julgamento foi classificado como “político”.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CONTRA A IMPUNIDADE NAS REDES E NA VIDA

 

ZERO HORA 17 de abril de 2015 | N° 18135


MANUELA DÁVILA*



Canais que levam as pessoas, de uma forma simples, a buscar soluções, como o Disque 100 (contra violação dos direitos humanos) e o Disque 180 (denúncia de violência contra a mulher), são grandes conquistas. Recentemente, temos mais uma opção, o Humaniza Redes, que vai acolher denúncia de ódio virtual. Ótimo. Mas precisamos vencer um desafio: fazer com que esse conjunto de leis seja incorporado à cultura das pessoas, sendo traduzido em seus cotidianos.

O número de pessoas que deixam de usar o potencial do mundo digital para construir cidadania e opta por disseminar o ódio e a intolerância é cada vez maior. A propagação do ódio em redes sociais é, num primeiro momento, abstrata e difusa, mas o dano decorrente da incitação e concretização da violência é real. Os desavisados (ou pessoas de má-fé mesmo) acreditam que a prática é exercício de liberdade de expressão. Longe disso. É, de fato, ódio, sempre permeado de uma essência discriminatória. Tem por objetivo a desvalorização ou aniquilação do outro, estimulando a violência em relação a um grupo social. É algo que ultrapassa os limites. A internet é aliada da democracia, do livre pensar, mas jamais deve ser território de crimes.

O Humaniza Redes vem justamente coibir essas incitações. Deve atuar não apenas no recebimento de denúncias, mas na proteção das vítimas e no encaminhamento de casos à polícia. Difamar, ofender, caluniar é crime, dentro e fora da internet. Ingenuidade pensar que não serão punidos por estarem atrás de um codinome, disseminando os mais perversos sentimentos de forma anônima. Quem entende o mínimo de tecnologia sabe que este anonimato é mera ilusão.

Nossa Constituição Federal diz que é livre a manifestação do pensar, sendo vedado o anonimato. Justamente para podermos responder pelo que dizemos. Ou seja, cada um é livre, mas deve responder por aquilo que diz. Esperamos que com o Humaniza Redes mais e mais pessoas respondam.

*Deputada estadual (PC do B)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

EM PORTO ALEGRE, QUARENTA MIL PARTICIPARAM DO PROTESTO

ZERO HORA  12/04/2015 | 22h17


Em Porto Alegre, protesto reúne menos pessoas e se direciona contra Dilma e Lula. Cerca 40 mil pessoas participaram da manifestação na Capital gaúcha



Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Um mês depois do protesto que levou centenas de milhares de pessoas às ruas do país contra o governo Dilma Rousseff, o número de participantes era visivelmente menor nas manifestações convocadas para o último domingo. No entanto, segundo os organizadores, a adesão de cidades teria sido maior.

No domingo, participaram 500 municípios, enquanto em 15 de março foram cerca de 150 cidades, segundo Movimento Brasil Livre. Em Porto Alegre, 40 mil pessoas participaram do protesto, segundo estimativa da Brigada Militar e da própria organização do evento. A crítica, que em março era direcionada a várias bandeiras – entre elas, o Congresso, a corrupção e os desvios na Petrobras – desta vez tinha nome e endereço: era direcionada contra Dilma e Lula.


O nome do ex-presidente apareceu com mais força e os cânticos de "Fora PT" dividiram espaço com "Lula cachaceiro, devolve meu dinheiro." Os ideais do pensamento liberal estiveram mais claro nos protestos de abril. Os manifestantes defendiam o ajuste fiscal, "mas sem aumento de impostos." A média de idade do público também era outra. Menos jovens e mais pessoas de meia-idade participaram da caminhada, que foi encurtada. Começou no Parcão e seguiu pelas avenidas Mariante, Protásio Alves, Ramiro Barcelos e 24 de Outubro. Não se viu também mobilização organizada pedindo intervenção militar como ocorreu em março.

No carro de som, os organizadores fizeram questão de ressaltar que defendem a democracia e elogiaram a presença da Brigada Militar no evento. Também afirmaram que mais de "30 academias de artes marciais estavam presentes para garantir a segurança." Não foi suficiente, no entanto, para garantir a segurança de duas jovens que estavam na esquina das avenidas Cabral e Mariante.

Uma delas, que vestia uma camiseta com os dizeres "GAY OK" e defendia a presidente Dilma foi atacada e teve a blusa rasgada por um dos manifestantes. A namorada dela também foi abusada. A BM interveio, mas elas não quiseram registrar ocorrência. Fábio Ostermann, um dos representantes do Movimento Brasil Livre (MBL) no Estado avaliou que o protesto de domingo foi um passo importante para mostrar que um mês depois ainda existe uma grande insatisfação da população e que apesar do número menor de pessoas (um terço em relação a março) é normal já que houve uma "consolidação da pauta" a favor do impeachmeant.

— Sempre foi nosso objetivo (do MBL) pedir a saída da presidente, mas o clamor popular foi muito forte e a manifestação de março acabou incluindo outras bandeiras — disse Ostermann. O próximo passo é uma manifestação concentrada em Brasília no dia 20 de maio.


Diferente do que aconteceu nas manifestações de 15 de Março, havia uma expectativa crescente em torno do evento marcado para começar às 15h. Não apenas daqueles que iriam expressar sua indignação, mas também daqueles que enxergaram ali uma oportunidade de ganhar uma remuneração extra.

André Riffel, 43, chegou às 11h na Avenida Goethe e encontrou diversos pontos já ocupados com outros, a exemplo dele, que buscavam seu lugar desde às 6h. Depois de dividir o carro com mais quatro companheiros, da cidade de Alvorada até o Parcão, organizar suas bebidas e produtos e gritar o mais alto que podia para anunciar suas ofertas, André constata aquilo que seria um fato rotineiro: "não estou vendendo nada". O mesmo afirma o casal Rejane Silva, 55, e Edson Pedroso, 60.

— Vendemos só uma bandeirinha até agora — diz Edson.

Ela é prestadora de serviços gerais. Ele é porteiro. O hábito de buscar em eventos públicos, como shows e partidas de futebol, uma maneira de reforçar o orçamento familiar esbarrou em alguns fatores, como o preço que, inevitavelmente, tiveram que cobrar para angariar alguma margem de lucro. Além disso, havia algo em comum entre eles: o apoio aos protestos.

— Eu votei na Dilma, mas hoje me arrependo. Não votaria nela de novo — garante Edson.

Rejane endossa a afirmação do marido, mas afirma que não se arrepende de sua escolha na urna:

— Votei em branco. Eu sempre faço isso. Não confio neles.

GOVERNISTAS E OAB REJEITAM IMPEACHMENT E INTERVENÇÃO MILITAR

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 12/04/2015

Políticos governistas e OAB rejeitam impeachment e intervenção militar. Impeachment da presidente Dilma Rousseff e a intervenção militar foram algumas das principais reivindicações dos protestos deste domingo (12).




Políticos da base do governo e a Ordem dos Advogados do Brasil rejeitaram algumas das principais reivindicações dos protestos deste domingo (12): o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a intervenção militar - uma ilegalidade que foi defendida em alguns locais.

Em meio a bandeiras, pedidos vieram estampados em camisetas, cartazes e faixas. Foi assim em Brasília e em outras manifestações pelo país.

O líder do governo na Câmara disse que as manifestações são legítimas, mas ele criticou os pedidos de impeachment. “A presidenta Dilma está calcada em 54 milhões de brasileiros que a reelegeram para governar o Brasil por quatro anos. Essa ideia de impeachment não encontra legitimidade e nem elementos jurídicos para a sua concretização”, afirmou o deputado José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara.

Para o líder do PT, Sibá Machado, não há nada que incrimine a presidente Dilma. Ele lembra que ela nem foi incluída na lista de investigados do procurador-geral da República, decisão que foi referendada pelo Supremo Tribunal Federal. “É ilegal e nem tem ambiente na política, na conjuntura, na economia, em absolutamente, nenhum tipo de amparo. Acho que tem pessoas se aproveitando das manifestações e de um setor da sociedade, especialmente da classe média, que tem anseios sobre essas coisas todas. E que alguns, se aproveitando disso, tem falado desses temas”, disse o deputado Sibá Machado (PT-AC), líder do PT na Câmara.

Também para o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, não há razão para o impeachment. “O pedido de impeachment deve se basear em provas concretas de participação da presidente da República. A OAB não deliberou sobre o tema, porque não tomamos conhecimento da existência de participação pessoal da presidente em atos de corrupção”, disse o presidente da OAB, Marcus Vinícius Coelho.

Ele criticou, enfaticamente, a defesa de uma intervenção militar. Uma afronta à Constituição. “O Brasil vive o maior período de estabilidade democrática. Para os males da democracia, só há um remédio: mais democracia, mais liberdade. Queremos o Brasil próspero. Um Brasil de todos os brasileiros, e não apenas de alguns que ocupam o poder em uma ditadura. Nunca mais a voz única do autoritarismo”, apontou o presidente da OAB.

Agora há pouco, em Porto Alegre, onde estava para acompanhar o velório do ex-ministro da Justiça Paulo Brossard, o vice-presidente da República, Michel Temer, comentou as manifestações deste domingo (12).

“O governo está prestando atenção nessas manifestações. Elas revelam, em primeiro lugar, vou dizer o óbvio, uma democracia poderosa. Mas, em segundo lugar, o governo precisa verificar exatamente quais são as reivindicações e atender essas reivindicações. É isso que o governo está fazendo”, afirmou o vice-presidente.

A presidente Dilma chegou nesta madrugada de uma viagem ao Panamá. Ela passou o dia no Palácio da Alvorada. E foi informada sobre os protestos pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e Miguel Rossetto, secretário-geral da Presidência da República. Os dois estiveram com ela. O governo avaliou que as manifestações foram tranquilas, pacíficas, próprias do ambiente democrático.

O presidente do PSDB, o senador Áecio Neves, divulgou uma nota. Nela, Aécio afirma que se solidariza com os milhares de brasileiros que foram às ruas para manifestar seu repúdio e indignação contra o que Aécio chama de corrupção sistêmica - que envergonha o país - e cobrar saídas para o agravamento da crise econômica.

Sobre as manifestações, a ex-candidata à presidência Marina Silva publicou um artigo, numa rede social da internet. Marina afirmou que menos gente nas ruas não significa menor insatisfação. Segundo Marina, isso pode ser sinal de aumento da desesperança.

MILHARES PROSTESTAM CONTRA A CORRUPÇÃO, O PT E A PRESIDENTE

G1 FANTÁSTICO Edição do dia 12/04/2015


Protestos reúnem milhares contra a corrupção, o PT e a presidente Dilma. Em relação ao primeiro ato contra o governo Dilma, número de manifestantes caiu para um terço, segundo a PM, ou para a metade, segundo organizadores.





Milhares de pessoas voltaram às ruas e praças das cidades em muitos estados neste domingo (12) em protesto contra a corrupção, o PT e a presidente Dilma.

A maior manifestação aconteceu em São Paulo, onde os dois lados da Avenida Paulista foram ocupados em boa parte de sua extensão.

Em relação ao primeiro ato contra o governo Dilma, no último dia 15 de março, o número de manifestantes em todo o país neste domingo caiu para um terço, segundo a PM, ou para a metade, segundo os organizadores. Também foi menor desta vez o número de cidades em que houve manifestações.

Verde e amarelo nas roupas. Clima pacífico nas ruas. Em todo o país, manifestantes foram chegando aos pontos de encontro - praças, avenidas, na orla das cidades litorâneas.

As palavras de ordem eram as mesmas do dia 15 de março. Pelo impeachment, contra a corrupção, o governo e o PT.

“A gente mostrar que o Brasil está acordando e que tem que lutar pelo que é bom para todos nós" diz um participante.

Os organizadores não deram importância ao número menor de manifestantes em relação ao dia 15 de março:

“A gente confia na Polícia Militar. Se eles disserem que foi menos, a gente vai confiar. O importante é que a gente conseguiu mandar o recado”, comentou Dênis Abreu, organizador - Mov. Cariocas Direitos.

Em Brasília, os manifestantes foram cedo para a rua. A concentração foi na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Museu da República e seguiu até o Congresso Nacional. Segundo os organizadores, eram 40 mil pessoas. E 25 mil, segundo a PM. Em março, foram 100 mil participantes, segundo os organizadores e 50 mil, segundo a PM. "Temos que lutar pelo nosso país”, afirma uma mulher.

O clima da manifestação na capital do país foi pacífico. Com calor e sol, algumas pessoas entraram no espelho d’água em frente ao Congresso. Elas carregavam a bandeira do Brasil. Faixas e cartazes pediam o impeachment da presidente e a defesa da Petrobras.

No Rio de Janeiro, o protesto foi na orla de Copacabana. O batalhão de grandes eventos da PM chegou a informar que eram 10 mil manifestantes por volta do meio dia. Mas à tarde, o comandado do polícia disse que não ia dar uma estimativa do número de participantes.

Três entidades organizaram o evento. Duas, calcularam que 25 mil pessoas participaram do protesto. No dia 15 de março, a PM também não divulgou um número oficial. Segundo os organizadores, eram 100 mil manifestantes.

Em alguns momentos, a PM teve que intervir para evitar confusão. Manifestantes hostilizaram pessoas que defendiam o governo. Cartazes e faixas pediam um basta à corrupção. “Estamos aqui lutando por um futuro melhor, principalmente para os nossos filhos”, comentou um manifestante.

No meio da passeata, um grupo de manifestantes destoava dos outros, pedindo intervenção militar, o que é ilegal e contra a Constituição. “A gente viveu um momento muito ruim da nossa história com o regime de exceção. E isso não nos representa”, defendeu um homem.

A Praça da Liberdade foi o palco das manifestações deste domingo em Belo Horizonte. As cores da bandeira do Brasil eram as preferidas dos manifestantes. Eram 8,5 mil pessoas, segundo os organizadores. Seis mil segundo a PM. No dia 15 de março eram 25 mil, segundo os organizadores e 24 mil, segundo a PM.

O Hino Nacional foi tocado várias vezes enquanto os manifestantes pediam o impeachment da presidente Dilma, a reforma política e o fim da corrupção.

As manifestações aconteceram também nas outras capitais e em várias cidades do interior do país, mas também com participação menor do que no dia 15 de março.

Há pouco mais de um mês os protestos aconteceram em 252 cidades. No total, foram 3 milhões de participantes, segundo os organizadores. Dois milhões e quatrocentos mil, segundo a PM.

Neste domingo (12), os protestos ocorrem em menos cidades: 195. E com menos participantes: 1,5 milhão, segundo os organizadores ou 682 mil manifestantes, de acordo com as polícias militares. Considerando que em algumas cidades, como Recife, por exemplo, a polícia não divulgou o número de manifestantes.

Em Uberlândia, interior de Minas, a manifestação aconteceu na Praça Tubal Vilela no centro da cidade. Dez mil pessoas, segundo os organizadores. Seis mil, segundo a PM.

Em Belém, 5 mil pessoas foram para as ruas, segundo os organizadores e a PM. Dez mil pessoas foram para as ruas de Salvador, segundo os organizadores. Quatro mil, segundo a PM. A manifestação pacífica passou pela orla da capital baiana. “Nós queremos menos corrupção e maior investimento na saúde pública do Brasil”, disse uma mulher.

As palavras de ordem contra a corrupção também tomaram conta de uma das principais avenidas do centro de Manaus. Foram 900 manifestantes, segundo os organizadores e a PM.

No Recife, os protestos contra a corrupção e o governo reuniram 40 mil pessoas, segundo os organizadores. A PM não fez a estimativa. Na areia da praia e nas ruas, os manifestantes pediram o fim da corrupção.

Uma caminhada pelas ruas do centro de Porto Alegre reuniu entre 35 mil e 40 mil pessoas, segundo os organizadores.

Doze cidades de Mato Grosso tiveram manifestações neste domingo. A maior foi na capital Cuiabá, que reuniu 25 mil pessoas, segundo os organizadores. A PM calcula que eram 8 mil. As principais reivindicações eram contra a corrupção.

No interior de São Paulo, também houve protestos em várias cidades. Em Ribeirão Preto, 25 mil pessoas segundo a PM e 35 mil, de acordo com os organizadores, participaram da manifestação, que começou ao som da Aquarela do Brasil.

Abaixo-assinados circularam entre os manifestantes em Campinas pedindo a saída da presidente Dilma, do Ministro do Supremo, Dias Toffoli e a redução de ministérios. Os organizadores disseram que 25 mil pessoas participaram do ato. A Polícia Militar contabilizou 10 mil.

O impeachment também foi o pedido dos manifestantes em São José do Rio Preto. O protesto reuniu 8 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. Os organizadores contaram 9 mil. Houve discussão entre manifestantes e um homem que levou uma bandeira vermelha.

Agricultores fizeram um ‘tratoraço’ em Presidente Prudente. “País sem agricultura não existe. O país sem liberdade não existe. Sem paz e sem amor e sem progresso, o país realmente não existe”, afirmou um homem.

Na capital, dois grupos de caminhoneiros se encontraram na Marginal Pinheiros. Pouco depois de meio-dia. Com bandeiras do Brasil e cartazes pedindo a saída de Dilma e do PT, eles protestavam contra o preço do frete e do óleo diesel. Eles seguiram rumo à região da Paulista.

Os movimentos que organizaram o protesto meio que dividiram a Paulista em setores demarcados pelos carros de som. Tinha gente ocupando toda a Avenida. E as ruas que dão acesso à paulista estão do mesmo jeito.

O verde e amarelo coloriu a multidão. Muitas pessoas levavam cartazes e faixas, pedindo a saída do PT e o impeachment da presidente. Outros pediam o fim da corrupção.

“O povo tem que mostrar que ele está, está ali e ele tem força, sabe? Se ele se unir, uma hora ou outra ele consegue e vai conseguir acabar com essa corrupção”, comentou uma jovem.

“Eu estou aqui exatamente porque eu espero mais dos políticos. Eu quero uma política melhor, com lisura com o dinheiro público”, declarou uma participante.

Em São Paulo, foram divulgados três números diferentes. A PM calculou em 275 mil manifestantes. O Datafolha, 100 mil. E os organizadores, 800 mil manifestantes. No mês passado, PM e organizadores concordaram quanto ao número de 1 milhão de participantes. Já o instituto, tinha calculado 210 mil.

“Nós estamos muito contentes, não apenas com o número de pessoas que está aqui, mas com o mesmo espírito que elas estão trazendo das outras vezes”, disse Rogério Chequer, líder do Vem Pra Rua.

Em vários momentos os carros de som tocaram o Hino Nacional.

Também houve queda no número de participantes quando se comparam os atos públicos realizados pela CUT e pelo MST, com apoio do PT. Em março, em defesa da Petrobras, da democracia e de uma reforma política e agora em abril, quando o foco foi o protesto contra a terceirização do emprego. Organizadores e polícias militares concordam em suas estimativas que o número de manifestantes caiu para menos de um quarto de uma data para outra.

sábado, 11 de abril de 2015

DEMOCRACIA E REJEIÇÃO AO AUTORITARISMO



ZERO HORA 1 de abril de 2015 | N° 18129


EDITORIAIS





Os organizadores do protesto programado para este domingo em centenas de cidades brasileiras prometem mobilizar os defensores de uma pauta um tanto confusa e de uma bandeira extemporânea: o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Apesar das dificuldades políticas e econômicas que a mandatária vem enfrentando neste início de segundo mandato, o pedido de afastamento é precipitado e, pelo menos até o momento, injustificável. Mas possível numa democracia, principalmente quando os próprios ativistas acrescentam a ele, como vem fazendo as principais lideranças do movimento, a rejeição inequívoca ao autoritarismo e a qualquer tipo de intervenção que fira a democracia. Esta visão, certamente, traduz o pensamento da maioria dos brasileiros.

Diferentemente das manifestações de junho de 2013, que levaram às ruas segmentos da sociedade civil organizada, as iniciadas em março deste ano e que se repetem agora, menos de um mês depois, não contam com a presença de sindicatos, associações e partidos políticos. Essa característica ajuda a entender a dispersão da pauta, que inclui tanto o afastamento da presidente Dilma Rousseff quanto a retirada do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), do julgamento da Lava-Jato.

No vácuo de uma preocupante crise de credibilidade do governo federal, em boa parte devido à deterioração política e econômica, é natural que parcelas inconformadas se sintam impelidas a manifestar seu inconformismo. Nesse contexto, é imprescindível que o Planalto e as lideranças políticas do país ouçam a voz das ruas, empenhando-se com ações concretas naquilo que pode ser feito para atender às reivindicações procedentes e reduzir tensões.



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Antes de pedir o impeachment da presidente Dilma, os protestos deveria ser direcionados para pedir o fim da leniência da justiça, o fim das leis permissivas e o fim do Senado, de forma a fortalecer a justiça, melhorar as leis e acabar com um poder perdulário, aristocrático e inoperante. Pedir o impeachment sem provas concretas e condenação pela justiça é um gesto autoritário, impróprio neste momento. Antes dele, o povo clama por justiça ágil e coativa, por leis duras contra o crime e pelo fim das imunidades dos altos cargos que estimulam a omissão e a corrupção no poder.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O BRASIL DE QUE AS ELITES TÊM NOJO



ZERO HORA 10 de abril de 2015 | N° 18128


CLAUDIR NESPOLO*




Com altos e baixos, o Brasil passa por um gradual e sofrido processo de combate à desigualdade. Prova disso é a inclusão de mais de 20 milhões de trabalhadores no mundo do trabalho; a expansão de políticas públicas que elevam milhares de brasileiros à condição de cidadãos e o aperfeiçoamento de políticas sociais, como educação e saúde. É digna de nota a extraordinária ampliação do ensino universitário, técnico e tecnológico, cujos resultados já estão sendo percebidos. Outro fenômeno importante é o combate à desigualdade territorial, que leva as condições de crescimento econômico para regiões até então relegadas ao esquecimento.

Vivemos a emergência de uma nova classe trabalhadora jovem e batalhadora, mais escolarizada e sedenta por mais e melhores empregos. É perceptível o protagonismo das mulheres, dia a dia mais decididas a ocupar o seu lugar na sociedade. Emerge também uma juventude que não tolera preconceitos, racismo e discriminações comportamentais. As elites sabem que a consolidação de um Brasil progressista, democrático, inteiro, confiante e que sabe lutar por seus direitos é a maior ameaça aos seus privilégios.

É desse novo Brasil que as elites têm nojo e temor, por isso querem contaminá-lo com ideologias conservadoras e mobilizá- lo na direção do retrocesso.

Nenhum país diminuiu a desigualdade sem enfrentar os detentores de privilégios. O Brasil não será diferente. Para nós, a emergência de uma direita mais organizada, intolerante e disputando uma agenda de retrocesso é sintoma do nosso avanço na democracia e na conquista de direitos. Nós, da CUT, fazemos parte desse grande processo de enfrentamento da desigualdade, que é superior à presidenta e ao partido que representa. Hoje, temos melhores condições, daí o nosso apoio, mas não é um apoio ingênuo e alienado. O nosso DNA é lutar pela melhoria das condições de vida e de trabalho. Por isso estaremos no dia 15 de abril protestando contra a aprovação do PL 4.330 (terceirização) e no 1º de Maio lutando por mais democracia, desenvolvimento e direitos com a pauta da reforma política, taxação das grandes fortunas, democratização dos meios de comunicação e fortalecimento das instituições do Estado para coibir a corrupção etc.

*Presidente da CUT-RS


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Argumento comum usado pelos regimes socialistas é jogar a culpa na tal de "elite", como se um país pudesse sobreviver sem esta "elite", a que investe no país, a que garante empregos ao povo e a que gera progresso, desenvolvimento, qualidade de vida e paz social. Foi justamente a "exclusão"destas "elites" que fez o regime socialista falir em todo o mundo. A China sobrevive justamente por apoiar as tais "elites", garantindo investimentos e recursos para prover toda a nação. Portanto, ao tratar as "elites" como inimiga do povo, os ideólogos socialistas acabam sacrificando o povo que tanto dizem defender.

A PAUTA QUE ANIMA O BRASIL



ZERO HORA 10 de abril de 2015 | N° 18128


RAFA BANDEIRA*


Dia 15 de março foi um dia histórico. Em todo o país, milhões de pessoas saíram às ruas para protestar contra os desmandos de um governo que perdeu a confiança do povo de uma maneira poucas vezes vista na história do Brasil.


O Movimento Brasil Livre tem orgulho de fazer parte dessa história. Nunca pretendemos posar de “donos” dessas manifestações, que foram a maior mobilização popular da história do Brasil. Somos estudantes, trabalhadores assalariados, empresários, profissionais liberais, funcionários públicos – somos brasileiros indignados com os rumos da política nacional e dispostos a gastar nosso tempo e energia para que possamos viver em um país melhor. Nosso objetivo foi e segue sendo o de atuar como um grupo que influencie positivamente a pauta dos protestos, defendendo sempre a democracia, as liberdades individuais e o Estado democrático de direito. Somos contra qualquer ditadura, seja de cunho político ou econômico.

Fomos às ruas no dia 15 de março e voltaremos no dia 12 de abril. Nossa pauta seguirá sendo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Trata-se de um mecanismo democrático garantido por nosso ordenamento jurídico e visa a resguardar a instituição da Presidência da República em situações extremas envolvendo o ocupante do cargo.

Foi utilizado para remover Collor por seu envolvimento em um escândalo de corrupção. Os baixíssimos índices de popularidade da presidente Dilma também lembram os de Collor na antevéspera do impeachment e são um reflexo da justificada insatisfação popular que vem tomando conta do Brasil.

Em Porto Alegre, foram 120 mil pessoas saindo às ruas por um Brasil melhor, mais justo e verdadeiramente livre e democrático. E hoje entendemos que a construção do país em que queremos viver passa pela abertura do processo. O povo brasileiro não permitiu que fosse feito de bobo em 1992, e certamente não permitirá em 2015. Essa é a pauta que nos anima, movimenta o Brasil e que está nas ruas.

*Porta-voz do Movimento Brasil Livre no RS

quarta-feira, 8 de abril de 2015

POR MAIS CIVILIDADE NA REDE



ZERO HORA 08 de abril de 2015 | N° 18126


EDITORIAIS



Ao lançar um programa visando à prevenção e ao enfrentamento de violação de direitos humanos na internet, o governo faz um esforço importante e delicado para conciliar dois princípios inegociáveis: liberdade de expressão e de informação e a garantia dos direitos individuais. A intenção é relevante pela necessidade de conter abusos de quem se vale da rede como veículo para a disseminação de intolerância e preconceito. Mas são procedentes os alertas de que um gesto bem-intencionado como esse não pode se transformar em pretexto para a imposição de qualquer espécie de mordaça nos internautas.

Não por acaso, a própria presidente Dilma Rousseff fez questão de destacar ontem, na cerimônia de lançamento do programa – que inclui uma ouvidoria para receber denúncias online – o seu “compromisso inabalável” com a liberdade de expressão. Como extensão da vida real, a internet não pode se submeter a restrições oficiais, tão ao gosto de países de pouca ou nenhuma tradição democrática. Da mesma forma, não tem como ser usada como veículo de propagação de mensagens que atentam contra a dignidade humana, como as de cunho racista.

Assim como as ruas, as redes sociais exigem o cumprimento de regras mínimas para que possam propiciar benefícios aos usuários. Mas é importante que o poder público aposte também na prometida campanha de orientação sobre o comportamento social na internet. Quanto mais os internautas forem educados e bem informados, maiores serão as suas chances de observarem preceitos mínimos de convivência.

segunda-feira, 30 de março de 2015

POPULAÇÃO SE REVOLTA COM SUMIÇO DE DINHEIRO PÚBLICO

G1 FANTASTICO Edição do dia 01/02/2015


Prefeitura de Mangaratiba some com R$ 60 milhões e revolta população. Ministério Público encontrou esquemas de fraudes, propinas e desvios de dinheiro na gestão do prefeito Evandro Capixaba.






O repórter secreto do Fantástico vai investigar por que uma cidade de menos de 40 mil habitantes precisa comprar 1,8 milhão de sacos de lixo. Essa cidade é Mangaratiba, no estado do Rio, onde o prefeito está sendo investigado por fraudes que podem chegar a R$ 60 milhões.

Eh, vidão à beira-mar, passeio de lancha, banho de sol na varanda da mansão. Que maravilha é a natureza.

“E o esgoto em uma situação dessa", reclama uma moradora.

“Isso aqui é tudo sujeira, muita sujeira. A gente passa mal”, conta uma senhora.

“Pede o prefeito para vir aqui. Será que ele bebe essa água?”, indaga um homem.

A população de Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro, está revoltada. “A gente vê a saúde precária, a gente vê educação com problemas, o transporte nosso e a água estão precários”, conta um morador.

“Eles aprovam obras, obras aprovadas, mas não feitas. A gente quer que a obra seja concretizada”, diz uma mulher.

Tanta coisa faltando porque, em cerca de 20 meses, R$ 60 milhões foram surrupiados da prefeitura, segundo estimativa do Ministério Público.

É por isso que o repórter secreto do Fantástico está em Mangaratiba, e todo brasileiro decente quer saber: Cadê o dinheiro que tava aqui?

Quando o repórter secreto chega à cidade, encontra protestos. Tem cartaz perguntando ao prefeito Evandro Bertino Jorge, do PSD, conhecido como "Capixaba": cadê os R$ 60 milhões que sumiram da cidade.

E tem adesivo, feito pelos próprios manifestantes, perguntando: cadê o dinheiro que tava aqui? Muita indignação. E muito constrangimento de fazer papel de palhaço no mau sentido.“Eu nunca fiz isso na minha vida, mas eu fui obrigada. Eu não quero morar em um lugar sujo”, conta a professora Marilúcia Gomes.

E a bronca é a seguinte: pela quantidade de sacos de lixo que a prefeitura supostamente comprou, Mangaratiba deveria ser o lugar mais limpo do mundo: 1,8 milhão sacos de lixo. Como na verdade a cidade precisa de 17 mil sacos por mês, essa suposta compra daria para 105 meses. Quase nove anos. Resolveria um problemão para os futuros prefeitos.

Só que não. “Não existiam sacos de lixo”, diz o homem que foi secretário de serviços públicos da prefeitura na gestão que teria feito a tal compra, em 2012. Ele diz que, depois de descobrir que era tudo fraude, foi falar com o prefeito Evandro Capixaba.

“Mostrei a fraude para ele, falei que não existia entrega de sacola, que não poderia ficar assinando notas de recebimento de sacola que não existia. Aí eu passei a ser um funcionário que não servia para ocupar a secretaria”, conta o ex-secretário de serviços públicos Marco Antônio da Silva Santos.

Depois, o então secretário decidiu contar tudo ao Ministério Público. “A partir daí a gente começou a diligenciar, identificar empresas, os seus sócios e como essa fraude ocorreu. Parte do pagamento ficava com os sócios, e o maior montante entregue na mão de representantes de gestores daquele município”, explica o promotor de Justiça do Rio de Janeiro Alexandre Veras.

O repórter Eduardo Faustini foi atrás da empresa responsável pela venda fraudulenta. Achou uma das sócias do negócio.

Fantástico: Como é que você se tornou sócia dessa empresa?
Mulher: Na verdade, eu fui chamada para ser secretária da empresa. Me pediram para emprestar o nome. Como eu era empregada da empresa, não vi problema. Quando eu comecei a me inteirar do assunto da empresa, vi do que se tratava, pedi que retirassem o meu nome.

Para o Ministério Público, ela não foi usada, a sócia é, sim, parte do esquema. As investigações do Ministério Público levaram a operações de busca e apreensão como uma feita com o apoio da Polícia Federal.

“Nós apreendemos aproximadamente 100 processos licitatórios e a partir daí a gente teve a chance de encontrar ali uma gama de informações que indicam a fraude realizada por esse grupo”, conta o promotor Alexandre Veras.

A quadrilha fraudava várias licitações. Em uma das frentes da falcatrua, um filho e um sobrinho do prefeito, mais o então procurador-geral do município e dois secretários eram sócios de empresas vencedoras das licitações.

“Qualquer porta que se bata, qualquer notificação que se faça, passa, inevitavelmente, por um familiar ou por uma pessoa próxima do prefeito”, diz o promotor Alexandre Veras.

Segundo as investigações, eles conseguiam dar uma aparência de legalidade à negociata forjando editais de licitação em um jornal do Rio, o Jornal "O Povo". A lei exige que o chamado edital de licitação seja publicado em um jornal. O edital é um aviso: os interessados ficam sabendo que a administração pública quer comprar produtos ou contratar serviços. A publicação no jornal é um documento obrigatório, processo da licitação, que é enviado aos órgãos de fiscalização de uso de dinheiro público.

Foi aí que a quadrilha achou que estava dando o pulo do gato. O jornal que estava na banca não era o mesmo que era arquivado no processo.

Ou seja, vamos dizer que um jornal fosse um exemplar do jornal da semana passada. Não tem nenhum aviso de edital de licitação da prefeitura de Mangaratiba. Aí a quadrilha mandava fazer uma página nova, trocava um edital de verdade por um edital de mentirinha, para fingir que a licitação tinha sido comunicada ao público. Assim, ficava tudo certo. A página falsa funcionava como uma prova de que os devidos procedimentos tinham sido seguidos.

Por exemplo: a página da edição do dia 21 de junho de 2012 do jornal "O Povo", não tem edital da prefeitura. Mas a mesma edição do mesmo jornal do mesmo dia do mesmo ano, tem.

Agora preste atenção nessa conversa. Foi gravada na sede do Jornal "O Povo" por uma pessoa que denunciou a fraude. É uma testemunha do Ministério Público, e finge que representa o prefeito de Mangaratiba para dar o mesmo golpe. Ele conversa com funcionários do jornal.

Homem: Como é que funciona essa p... do jornal?
Jornal: E com a data que ele quer, isso aí. Ainda mais que é Tribunal de Conta.

O ex-funcionário da gestão do prefeito Evandro Capixaba confirma a denúncia. “Fazia uma publicação com data anterior e montar dentro do jornal para constar na prefeitura. Para apresentar para o Tribunal de Contas, para a promotoria, para quem solicitasse”, conta o ex-subsecretário de Serviços Públicos Iata Anderson.

“O que nós temos naquele município é uma quadrilha trabalhando a fim de se locupletar do dinheiro público. Nós encontramos laranjas, falsidades de documentos públicos, privados, fraudes em licitação, publicações fraudadas em jornal, pagamento de propina, desvio de dinheiro, não-entrega de produtos contratados pelo município. Inúmeras fraudes”, afirma o promotor Alexandre Veras.

Isso, em uma cidade que atrai tanta gente bem de vida para desfrutar das belezas naturais. Infelizmente, também existe outra Mangaratiba.

Fantástico: Qual é essa Mangaratiba?
Promotor: É a Mangaratiba pobre, abandonada, sem calçamento, sem saneamento básico. Sem água.

O problema da água atinge a cidade há cerca de um ano, portanto uma situação que antecede a estiagem na região Sudeste. “O esgoto do vizinho, vem de lá e cai na minha porta”, reclama uma moradora.

“Bebo dessa água. Água potável é conectada com água de esgoto. Nós não somos porcos, nós somos gente”, afirma Marilúcia Gomes.

“Essa é a água que nos oferecem, e o governo que tá aí nada faz. Isso aqui é uma pouca vergonha. Olha aí”, conta outro morador.

Até a mulher que o Ministério Público aponta como parte do esquema admite que roubar dinheiro público é maltratar o cidadão. “O dinheiro que eu tiro de uma prefeitura e eu banco uma viagem para Miami, eu estou matando um cidadão”, confessa.

Em nota, a direção do Jornal "O Povo" nega que tenha prestado serviços e recebido dinheiro da prefeitura de Mangaratiba. A nota afirma que o jornal está contribuindo com o Ministério Público para a apuração real dos fatos.

Também em nota, o prefeito Evandro Bertino Jorge, o Evandro Capixaba, repudia as denúncias de que houve falsificação de página de jornal e diz que o dinheiro público é aplicado com responsabilidade em Mangaratiba.

Já o Ministério Público pede na Justiça que o prefeito Capixaba, bem como secretários e ex-secretários e servidores municipais, respondam por improbidade administrativa.

“Cadê o dinheiro que a gente precisa melhorar o nosso município e nada é feito, cadê o dinheiro daqui?”, pergunta um morador.

domingo, 29 de março de 2015

DEPOIS DA INTERNET, A POLÍTICA NÃO SERÁ MAIS A MESMA


REVISTA ÉPOCA  29/03/2015 10h13

As manifestações de 15 de março mostram como as redes sociais ajudaram os cidadãos a ganhar maior protagonismo e influência na política

BRUNO FERRARI E THAIS LAZZERI COM ARIANE FREITAS, IGOR UTSUMI, LEOPOLDO MATEUS E LÍVIA CUNTO SALLES



MOBILIZAÇÃO
Manifestantes na Avenida Paulista, em São Paulo. O protesto reuniu cerca de 1 milhão de pessoas, segundo a PM (Foto: Bruno Fernandes / Fotoarena)
AGITADOR DIGITAL
O empresário Rogerio Chequer, do Vem pra Rua, em São Paulo. O movimento atraiu 367 mil seguidores no Facebook (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)

A mobilização do último dia 15 de março, que levou 2,3 milhões de brasileiros às ruas em protestos contra a corrupção e contra o governo Dilma Rousseff, começou com o toque de um celular. No início do ano, um dos quatro aparelhos usados pelo administrador de empresas Marcello Reis, de 40 anos, de São Paulo, registrou a chegada de uma mensagem via WhatsApp, o mais popular aplicativo de troca de mensagens gratuitas do Brasil. A mensagem convocava para manifestações contra a falta de água em São Paulo, o reajuste de 50 centavos na tarifa de ônibus da cidade e contra a corrupção. O mesmo torpedo irrompeu na tela do smartphone do empresário Rogerio Chequer, de 46 anos, sócio de uma agência de comunicação em São Paulo. A origem da mensagem é controversa. Segundo Reis, quem disparou a convocação para a mobilização foi o Movimento Passe Livre (MPL). Seria irônico, pois o MPL também foi protagonista das manifestações de junho de 2013 – mas o MPL, ouvido por ÉPOCA, negou a autoria do viral.


Sobre o que aconteceu a partir dali, não há dúvidas e vai virar história. Marcello Reis, um dos organizadores do Revoltados On Line, movimento que tem 739 mil seguidores no Facebook e agita a bandeira do impeachment da presidente Dilma Rousseff, gravou um vídeo com uma convocação para a mobilização no dia 15. Chequer, um dos coordenadores do Vem pra Rua – movimento anticorrupção criado na internet em novembro de 2014, que atraiu 367 mil seguidores com seus apelos “aos indignados com a nossa classe política” –, também aderiu. Usaram tablets, smartphones e computadores para espalhar a chamada às ruas. A mobilização cresceu em nível nacional, com o engajamento de cidadãos descontentes e outros pequenos movimentos de caráter local, como o Cariocas Direitos, liderado pelo engenheiro Denis de Abreu, de 37 anos, ex-líder estudantil e ex-integrante do PMDB. Em pouco tempo, ergueu-se uma onda gigantesca que ultrapassou as fronteiras da bolha virtual e encheu as ruas naquel domingo. “O desrespeito ao povo brasileiro é nosso maior fator de engajamento”, diz Chequer, do Vem pra Rua. “E que melhor ferramenta para alcançar mais gente do que a internet?”


Ele tem razão. Arregimentar milhões de pessoas num prazo tão curto era impossível nos tempos dos megafones e caminhões de som. Na era das redes sociais, no entanto, um mero clique de compartilhamento de uma mensagem ou de um vídeo pode ser um gatilho para reunir uma multidão em torno de uma causa. Basta que as mensagens tenham o conteúdo e o tom corretos para engajar emocionalmente seus destinatários e sejam distribuídas pelos canais adequados para alcançar o maior número de cidadãos. “As redes sociais têm o poder de construir uma tensão emocional entre pessoas espalhadas por vários bairros e cidades”, diz o italiano Paolo Gerbaudo, professor de cultura digital e sociedade do King’s College, de Londres, e autor do livro Tweets and the streets (Tuítes e as ruas, na tradução em português). “Elas podem criar um senso contagioso de antecipação ou de ímpeto.” Segundo Gerbaudo, isso se deve a uma característica das redes sociais. Elas permitem conversas abertas ao público, ao mesmo tempo que são canais para criar uma intimidade entre os mais diversos interlocutores.

Vive-se um segundo momento do uso das redes sociais na política. Acabou a era dos “manifestantes de sofá”, que se limitavam a criar grupos de protestos e a assinar petições on-line. Elas servem, agora, como ferramenta para levar gente para a rua. E, com isso, influenciam a agenda dos governantes. Depois das manifestações de 15 de março, a presidente Dilma Rousseff anunciou um pacote anticorrupção para mostrar que ouvira a voz das ruas. A combinação entre internet e as ruas é explosiva, mas ela não substitui as instituições próprias da democracia. Passeatas não mudam leis, não derrubam governos, não promovem mudanças radicais. Quem faz isso são os representantes eleitos pelo povo. A política nunca mais será a mesma porque, para esses representantes, não é mais possível ignorar a voz das ruas. No Brasil, o primeiro capítulo dessa nova tendência ocorreu em junho de 2013. O segundo foi agora, com a reunião de 2,3 milhões de pessoas em várias cidades brasileiras em 15 de março. É tanta a facilidade para convocar gente via redes sociais que seria ingenuidade dizer que vai parar por aí. Já existe outra manifestação convocada para o dia 12 de abril, pelo Movimento Brasil Livre, um dos responsáveis pela organização do 15 de março.


O marco inicial do casamento entre ruas e redes foi a Revolução Verde, que ocorreu no Irã em 2009. Na ocasião, com os meios de comunicação sob vigilância e após denúncias de manipulação das eleições na vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad, os iranianos usaram o Twitter e outras redes sociais para convocar manifestações que abalaram o regime teocrático dos mulás. Os militantes políticos descobriram, assim, um primeiro uso das redes sociais: burlar a censura. Um segundo momento ocorreu nos protestos contra o presidente Hosni Mubarak em janeiro de 2011. Redes sociais livres de monitoramento ajudaram na convocação dos manifestantes, que chegaram a 2 milhões. Elas também foram fundamentais para divulgar o movimento no mundo, especialmente nos países muçulmanos – desencadeando o que ficou conhecido como Primavera Árabe. As manifestações de junho de 2013 no Brasil foram igualmente desencadeadas pelas redes sociais. Entidades como o Movimento Passe Livre, o MPL, usaram o Facebook para capitalizar o descontentamento da população com a violência policial que marcou uma das primeiras manifestações – na qual jornalistas chegaram a ser feridos com balas de borracha. Por fim, as passeatas de 15 de março consagraram o WhatsApp como ferramenta para arregimentar manifestantes.

PRIMEIRO CAPÍTULO
Protestos em São Paulo em junho de 2013. Reivindicação por melhores serviços (Foto: Mauricio Lima/The New York Times)

As manifestações se beneficiaram do aumento exponencial, no Brasil, do acesso a tecnologias digitais. Os brasileiros donos de smartphones eram pouco mais de 30 milhões durante as jornadas de junho de 2013. Hoje, segundo dados do Ibope, são 58,6 milhões. O aplicativo WhatsApp mais que dobrou sua base de usuários no país e se popularizou como “zap zap”. O último dado oficial, divulgado em meados de 2014, dizia que, dos 468 milhões de usuários do WhatsApp no mundo, 38 milhões estavam no Brasil. Hoje, segundo estimativas não oficiais (o WhatsApp não informa mais os dados), são mais de 50 milhões de brasileiros trocando mensagens, fotos e vídeos pelo aplicativo. Junto com a evolução da qualidade das câmeras dos celulares, isso gerou também um fenômeno comportamental: a onda do selfie. Selfie sozinho, em família ou com o pau de selfie. E, agora, selfie em manifestações. O recurso foi muito usado nas passeatas do último dia 15 – em que muitos fizeram questão de mostrar a si próprios em meio a policiais que escoltavam pacificamente os manifestantes. Isso acaba tendo um efeito multiplicador. Primeiro, as redes sociais convocam os manifestantes. Depois, por meio dos selfies, os manifestantes que estão na rua estimulam a participação de mais e mais manifestantes.


“Os usuários descobriram que podem influenciar politicamente com seu pronunciamento público”, diz Carlos H. Moreira Jr., diretor de desenvolvimento de mercados do Twitter para a América Latina. “Isso é uma mudança de comportamento.” Na linguagem dos acadêmicos, esse processo é descrito como o “empoderamento do cidadão”. Na prática, ele se traduz na preferência por alguns termos ou palavras de ordem. ÉPOCA teve acesso a uma análise exclusiva realizada pelo Twitter em parceria com o Ibope, que acompanhou 609 mil tuítes do dia 1º de março até o início do dia 15. O objetivo era entender a agenda das manifestações e quais personagens estavam mais associados a ela. Segundo a análise, 40% dos tuítes faziam referência ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Nos cinco temas mais citados, apareceram também corrupção (4%), a CPI da Petrobras (2,2%) e golpe militar (menos de 1%). Isso mostra que, se as redes sociais potencializam a emoção dos usuários, foi o sentimento antipetista que encheu as ruas no dia 15.


Sem pesquisas oficiais como a feita pelo Twitter e pelo Ibope, os organizadores das manifestações de 15 de março entenderam a mudança de comportamento do público. Mesmo com ideologias e estilos bem diferentes, eles atuam de forma muito parecida nas múltiplas plataformas virtuais. Em primeiro lugar, eles se estruturaram para atender a vontade dos brasileiros de extravasar suas opiniões e sua indignação. Todos os movimentos postaram vídeos, imagens e mensagens dos seguidores – inclusive das reações de repúdio aos discursos da presidente Dilma Rousseff. Assim, o número de curtidas e compartilhamentos aumentou exponencialmente. Eles também se organizaram internamente para chegar ao maior número de pessoas. O Movimento Vem pra Rua tem 30 organizadores e 20 líderes regionais voluntários. Eles elegem o material que terá maior propagação nas redes e os temas que precisam de esclarecimentos pontuais. As manifestações podem ser espontâneas e ter coordenadores pulverizados – mas esses coordenadores usam de estratégia em seu trabalho.

SEGUNDO CAPÍTULO
Protestos em São Paulo em 15 de março. O sentimento antipetista uniu os manifestantes (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Marcello Reis, do Revoltados On Line, diz passar 18 horas por dia conectado. Parte desse tempo é usada para escolher os administradores da página (20 no total), que podem publicar conteúdo sem restrição, e os 150 colaboradores, responsáveis pela interlocução com a imprensa nacional e estrangeira, entre outras atividades. No processo de seleção dos colaboradores, Reis acompanha, por 90 dias, o perfil do usuário, sem avisá-lo. Se aprovado, ele convida o potencial colaborador para uma conversa on-line. O trabalho, diz Reis, garante a audiência. A página do Revoltados no Facebook teve mais de 41 milhões de visualizações desde a criação, em agosto de 2010.

Ao longo da história, as ruas se consolidaram como um palco privilegiado das manifestações políticas. Isso vale para a Revolução Francesa e para os protestos de maio de 1968 – e, no Brasil, para demonstrações como a campanha das Diretas Já ou o movimento que pediu o impeachment de Fernando Collor em 1991. A diferença é que agora entrou em ação uma ferramenta tecnológica poderosa, com capacidade de dar voz e poder de influência a qualquer pessoa com um smartphone na mão. Com essa tecnologia, as ruas – e os cidadãos nelas – ganharam poder de influenciar a agenda política. Um exemplo da influência dos novos movimentos gerados pelas redes sociais se vê nos Estados Unidos. O movimento OcupemWall Street surgiu em reação às consequências da crise do mercado financeiro desencadeada pela quebra do Lehman Brothers, em 2008. O movimento – cujo slogan, criado por publicitários, era “Somos os 99%” – eclodiu em Nova York em setembro de 2011. E colocou definitivamente o tema da desigualdade na agenda política americana. Nas democracias, como diz o pensador espanhol Manuel Castells, a dinâmica da política será cada vez mais essa. As ruas influenciarão mais e mais a agenda – mas continuará cabendo aos partidos políticos, às instituições, como o Congresso Nacional, e aos governos eleitos adaptarem-se à nova realidade e encaminhar as respostas e as soluções para os gritos que vêm das redes.

terça-feira, 17 de março de 2015

A PESSOALIZAÇÃO DA REVOLTA



ZERO HORA 17 de março de 2015 | N° 18104


JULICE SALVAGNI*



Sobre o atual torvelino de manifestações políticas, pensei que as trocas de farpas já significavam que havíamos atingido o ápice da comoção. Mesmo em meio ao declarado desrespeito, algo de ingênuo me levava a crer que o comportamento repugnante dos coletivos, autorizados e impulsionados em suas próprias relações desmedidas, pudesse ter ficado arquivado nos livros de História. Entretanto, muito mais do que isso, são crescentes as revelações desprezíveis, por meio de agressões verbais, físicas ou mesmo ameaças de morte, vindas de todos os lados desse cabo de guerra, que não salvaguardam os que se posicionam politicamente.

Pela pessoalização das violências, é notável que o conhecimento crítico e argumentativo sobre política é escasso, ou não é suficiente para justificar tamanha bestialidade dos acontecimentos. Parte-se, então, para a linguagem da tortura, que é quando o alvo da afronta é o ser humano em sua individualidade.

Ao invés de corromper a daninha política em prol da construção de um país melhor, está se produzindo uma digladiação mútua por egos, poderes e dinheiro, protagonizado especialmente pelos senhores das bandeiras. Enquanto houver esse exército doentio e cego, que prefere perder seus ideais a repreender o seu representante, vamos continuar cativando uma catastrófica construção do ódio, que nos distancia paulatinamente da prática de uma convivência em sociedade e, especialmente, de um debate efetivamente político.

As tentativas das legendas, pela voz dos seus discípulos, de negar e encobertar a putrefação política estão de forma direta contribuindo para a manutenção desse modelo corrupto, desigual e elitista. A má notícia é que não existe um partido de referência que se salve.

Carecemos, acima de tudo, de uma urgente limpeza interna nas bandeiras, para que os próprios partidos sejam críticos de si mesmos, dispensando a má índole e a interferência privada, possibilitando a criação de outro caráter político. Encobrir a imundície alheia, acima de qualquer critério moral, é coisa do crime organizado. Os ultrajes só comprovam o tamanho da podridão que um fanatismo iludido é capaz de produzir, enquanto a população segue como massa de manobra de uma engrenagem política solidificada em sintonia com as corporações. Aviso aos que se perderam: o caminho para a construção de um mundo melhor é para o outro lado.

*PROFESSORA UNIVERSITÁRIA

CORRUPÇÃO NA POLÍTICA MOTIVOU IDA À MARCHA



ZERO HORA 17 de março de 2015 | N° 18104


PROTESTO DO PARCÃO À REDENÇÃO



INSTITUTOS DE PESQUISA traçaram o perfil dos participantes da manifestação realizada domingo.

Descontentamento com a classe política, com a corrupção e necessidade de mudanças foram os principais motivos que levaram pessoas às ruas na Capital no domingo, conforme dois institutos de pesquisa que entrevistaram participantes da marcha que saiu do Parque Moinhos de Vento.

Em levantamento do Instituto Index, a corrupção representou por larga margem o principal problema do país, com 60,1% das citações, enquanto a administração pública foi a segunda opção mais lembrada, com 8,6% das menções.

Além disso, 78,1% dos entrevistados opinaram que os desvios aumentaram muito nos últimos quatro anos, durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, e 86,4% consideram o combate à corrupção no Brasil como “não eficiente” e “nada eficiente”.

Em escala de um a cinco para o nível de corrupção, a maioria dos entrevistados apontou o grau máximo tanto para partidos políticos (76%), quanto para Congresso (73,4%) e para a Presidência da República (71,3%).

Na pesquisa do Instituto Amostra, em opção sem resposta múltipla, 78,8% dos entrevistados disseram acreditar que o movimento de protesto não pode ter a participação de partidos e políticos, contra 20% que admitem essa possibilidade.










Como cada um contou a multidão

BRUNA VARGAS


DATAFOLHA E POLÍCIA MILITAR usaram métodos diferentes para mensurar presença em São Paulo



Após os protestos, o Brasil dormiu e acordou sem saber ao certo quantos manifestantes passaram pela Avenida Paulista, ponto mais movimentado entre as manifestações de domingo. Enquanto a Polícia Militar de São Paulo divulgava 1 milhão de pessoas, o instituto Datafolha garantia que os insatisfeitos não passavam de 210 mil. Em Porto Alegre, segundo a Brigada Militar, teriam sido mais de 100 mil nas ruas.

– Não tem nada muito técnico nesses cálculos. Normalmente, dão um número redondo – avalia o estatístico Jéferson Daniel Matos, que atuou na Fundação de Economia e Estatística e agora está no Tribunal Regional do Trabalho.







OS CÁLCULOS
POLÍCIA MILITAR DE SÃO PAULO
O cálculo na Avenida Paulista e adjacências foi feito por uma ferramenta tecnológica chamada “Copom Online”, que usaria recursos de mapas e georreferenciamento baseados em imagens aéreas captadas por um helicóptero. Para realizar a contagem, foi adotado como constante o número de cinco pessoas por metro quadrado.
DATAFOLHA
Para os protestos de domingo, foram tiradas as medidas da Avenida Paulista, desconsiderando os canteiros. A área de 16 mil metros quadrados (m2) foi dividida em setores, distribuídos entre uma equipe de 60 pessoas. Elas faziam a contagem de manifestantes por metro quadrado, de hora em hora.
– Esse é o ponto essencial para uma medição mais precisa. Se considerarmos apenas uma visão aérea e contarmos cinco pessoas por metro quadrado, chegamos naquele 1 milhão que a polícia divulgou – diz Mauro Paulino, diretor-geral do Instituto Datafolha.
O procedimento ocorreu ao longo de toda a via, entre 14h e 18h. No “horário de pico”, às 16h, o Datafolha registrou 188 mil pessoas no local. Ao todo, 210 mil teriam passado pelo protesto.
Além da contagem, as equipes aplicaram questionários em amostragem de 330 manifestantes para saber o horário em que chegaram ao local. O público foi dividido entre “persistentes”, os que acompanharam o protesto do início ao fim, e “entrantes”, que fizeram parte do percurso. A soma dos dois dados resultou no total divulgado.
BRIGADA MILITAR
De cima da passarela da Avenida Goethe, os policiais observaram a movimentação ao longo da via a partir das 15h. Segundo o coronel Paulo Stocker, subcomandante-geral da BM, a média ficou entre cinco e seis pessoas por metro quadrado. Ainda assim, a BM preferiu usar quatro pessoas por metro quadrado para o primeiro cálculo: 45 mil manifestantes.
– Depois, observamos um grupo que carregava uma faixa preta, posicionado no fim da via. Quando ele completou o trajeto, a Goethe seguia cheia. Aí chegamos em 90 mil pessoas – explica Stocker.
Os 10 mil restantes seriam as pessoas que seguiram transitando pela avenida “por cerca de 10 minutos após a última contagem”, somados a pessoas que ocupavam “os barrancos e o interior” do Parque Moinhos de Vento.

A PRAÇA AGORA É DE TODOS



ZERO HORA 17 de março de 2015 | N° 18104



MARCELO RECH*



Menos pela surpreendente envergadura e mais pelo ineditismo ideológico, assistiu- se em 15 de março de 2015 à maior novidade em praça pública do Brasil nos últimos 38 anos. Desde a retomada dos protestos estudantis contra o regime militar, em 1977, as ruas do Brasil eram um território delimitado pelas tintas da esquerda. De facções de linha trotskista a partidos que flertavam com o socialismo europeu, convencionara-se que apenas os matizes esquerdistas poderiam mostrar abertamente sua face país afora.

À “direita” – um carimbo em quem não se alinhasse com a esquerda –, estava reservada a vergonha de aparecer em público e enunciar seu nome em voz alta. Era compreensível. Foi a esquerda a sufocada pelos anos de chumbo, e sua reaparição no cenário político equivalia ao ar aspirado com sofreguidão pelo afogado ao retornar à superfície. A partir de 1980, muito por mérito dos barbudos do PT, a esquerda que já havia arquivado a luta armada foi avançando das ruas, dos sindicatos e dos veículos de comunicação em direção às urnas. Entre seu primeiro prefeito de capital eleito, Maria Luisa Fontenele, em 1985 (que acabaria expulsa dois anos depois), à posse do quarto mandato presidencial consecutivo, o PT e seus satélites nos movimentos sociais governaram as ruas.

Goste-se ou não, esta era acabou no domingo. Em 2013, houve um ensaio de que a esquerda tradicional perdia espaço nas ruas, mas aquelas massas não tinham rumo claro nem amálgama político, e logo o fenômeno se dissolveu. As multidões de 15 de março exibiram um posicionamento distinto. Os milhões que ocuparam as cidades formam uma frente contra o PT e o que ele, em uma sequência de erros, passou a simbolizar no imaginário de parte considerável do Brasil: corrupção e privilégios, originados na explosiva receita de partido, aparelhamento do Estado e sede incontrolável de poder.

Que Brasil emergirá desta salada ideológica nas ruas tingidas de vermelho e agora de verde-amarelo não se sabe. O fato é que, à esquerda, ao centro ou à direita, a praça deixou de ser reserva de mercado de uma corrente de pensamento. E esta é mais uma das belezas da democracia.


*JORNALISTA DO GRUPO RBS